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Particulates and/or aerosols are harmful pollutants to cladding rocks. They are a mixture of very small particles dispersed in the atmosphere in the form of liquid or solid and may be product from the nebulization of liquid or solid substances or condensation from the gaseous phase (burning fossil fuels, etc). Fluxes of heat and vapor between the atmosphere and the rock favor or impede the deposit on the surface of particles and gases, they enter the interior of rocks, which facilitate migration of salts, formation of efflorescence, microfractures, loss of gloss, stains and development of organisms. The preservation of brightness and susceptibility to weathering of the marbles Bege Bahia depend on the mineralogical composition. The calcite is the dominant mineral: the vulnerability manifests in the physical domain, due to the low hardness (3) and in the chemical, where the reactivity with acid products (including rain itself) results in loss of reflectance and dissolution. Daily changes in relative humidity, in Recife, around 80%, favor the crystallization and dissolution of salts, being ideal conditions for change processes in claddings such as stains lithic detachments, efflorescence and disaggregation. Marbles, mainly sedimentary limestones, present early changeability and arenization, sometimes, under 5 years of application, if not resined.
RESUMO
Os particulados e/ou aerossóis säo poluentes para as rochas de revestimentos. Sendo urna mistura de partículas muito pequeñas dispersas na atmosfera na forma de sólidos ou de líquidos, podem ser produto da nebulizaçâo de substánda líquida ou sólida ou da condensaçâo da fase gasosa (queima de combustíveis fósseis, etc). Fluxos de calor e vapor entre a atmosfera e a rocha favorecem ou impedem o depósito na superficie de gases e partículas. Esses fluxos ingressam para o interior das rochas e facilitam migraçôes de sais, formaçâo de eflorescências, microfraturas, desenvolvimento de organismos, perda de brilho e manchas. A preservaçâo do lustro e a susceptibilidade ao intemperismo dos mármores Bege Bahia, dependem da composiçâo mineralógica. A calcita é o mineral dominante, a vulnerabilidade se manifesta no aspecto físico, em decorréncia da baixa dureza (3) e no químico, onde a reatividade com produtos ácidos, inclusive a própria chuva, resulta em perda de reflectância e dissoluçâo. As oscilaçôes diárias da umidade relativa, em Recife, cerca de 80%, favorecem a cristalizaçâo e dissoluçâo dos sais, sendo condiçôes ideáis para processos de alteraçâo nos revestimentos, como manchas, destacamentos líticos, eflorescências e desagregaçôes. Os mármores, principalmente os calcários sedimentares, apresentam alterabilidade precocemente e arenizaçâo, por vezes, com menos de 5 anos de aplicaçâo, se näo forem resinados.
PALAVRAS-CHAVE: Aerossóis marinhos, alterabilidade, revestimentos carbonáticos, spray marinho.
EFFECTS OF AIR POLLUTANTS ON CARBONATE ROCKS PLATES IN CLADDINGS OF BUILDINGS IN THE COASTAL REGION OF RECIFE - PE
ABSTRACT
Particulates and/or aerosols are harmful pollutants to cladding rocks. They are a mixture of very small particles dispersed in the atmosphere in the form of liquid or solid and may be product from the nebulization of liquid or solid substances or condensation from the gaseous phase (burning fossil fuels, etc). Fluxes of heat and vapor between the atmosphere and the rock favor or impede the deposit on the surface of particles and gases, they enter the interior of rocks, which facilitate migration of salts, formation of efflorescence, microfractures, loss of gloss, stains and development of organisms. The preservation of brightness and susceptibility to weathering of the marbles Bege Bahia depend on the mineralogical composition. The calcite is the dominant mineral: the vulnerability manifests in the physical domain, due to the low hardness (3) and in the chemical, where the reactivity with acid products (including rain itself) results in loss of reflectance and dissolution. Daily changes in relative humidity, in Recife, around 80%, favor the crystallization and dissolution of salts, being ideal conditions for change processes in claddings such as stains lithic detachments, efflorescence and disaggregation. Marbles, mainly sedimentary limestones, present early changeability and arenization, sometimes, under 5 years of application, if not resined.
KEYWORDS: Marine aerosols, changeability, carbonate claddings, marine spray.
1 INTRODUÇÂO
A rocha, desde os tempos mais remotos, faz parte da vida do homem. Na antiguidade e mesmo na Pré-História, ela, a rocha, aparece ligada à historia da humanidade. Näo sem razio, alguns períodos da pré-história recebem nomes ligados a ela: Neolítico, Paleolítico. O material pétreo foi usado na construçao de palácios, castelos, templos religiosos, ora como material de sustentaçao, ora como elemento decorativo. Atualmente este material assume aínda vários empregos na construçao civil, seja como elemento estrutural fazendo parte de concretos e lastros de vías férreas, seja como material de revestimiento com a dupla funçao de proteger e embelezar a obra de engenharia.
Como elemento de revestimiento, a rocha deve atender a requisitos estéticos e técnicos que possibilitem seu uso de forma que o trinomio durabilidade-beleza-custo seja plenamente atendido.
Os revestimientos pétreos das fachadas dos prédios estäo submetidos à açao das intempéries. O clima, traduzido principalmente pela quantidade média de chuvas, temperaturas médias e insolaçao, exerce funçao primordial no decaimiento do material pétreo. Também, o aumento da poluiçao atmosférica atua de maneira sinérgica intensificando os processos de degradaçao e decomposiçao das rochas.
A cidade do Recife, capital do estado de Pernambuco, encontra-se a baixa latitude, em regiäo de pluviosidade elevada (média de 2.000 mm), temperaturas médias também altas (27°C) e número elevado de horas de insolaçao (média mensal de 211 horas de sol). Os revestimientos externos dos prédios da regiao litoránea deste municipio estäo submetidos à açao deste clima e também, devido à proximidade do mar, à açao dos aerossóis marinhos. Rochas carbonáticas sao bastante usuais como revestimientos externos de prédios na orla do Recife. Em gérai, sua cor clara, portanto neutra, atrai a atençao dos arquitetos que usam este material de forma indiscriminada.
Neste contexto, o propósito trabalho foi estudar os efeitos da poluiçao atmosférica sobre as placas pétreas dos revestimientos carbonátaos externos de construçôes litorâneas da cidade do Recife.
1.1 POLUENTES ATMOSFÉRICOS E AS ROCHAS
Os particulados ou aerossóis integram a lista dos elementos poluentes mais préjudiciais para as rochas de revestimientos. Podem ser definidos como urna mistura de partículas suficientemente pequeñas dispersas na atmosfera sob a forma de sólidos ou de líquidos (em gotas), como produtos de nebulizaçao de substáncias líquidas ou sólidas, spray marinho ou tempestade de poeira, e da condensaçao da fase gasosa (fumaça produzida pelas indústrias). Assumem, aínda, importáncia relevante as pequeñas diferenças espaciáis que criam gradientes entre a atmosfera e a rocha, como também as variaçôes temporárias destes gradientes que, por sua vez, criam processos de degradaçao relacionados com diferentes tempos de adaptaçao entre a atmosfera e a rocha. Deste modo, geram-se fluxos de calor e de vapor entre o ambiente e a rocha. Muitas vezes sao estes fluxos que favorecem ou impedem o depósito na superficie das rochas de gases e partículas, que promovem o ingresso de vapores para o interior das rochas, que facilitam migraçôes de sais, a formaçao de eflorescências, microfraturas, perda de brilho, manchas e a criaçao de condiçôes adequadas ao desenvolvimiento de organismos diversos (AIRES-BARROS, L, 1991).
Os danos detectados nos revestimientos de fachadas e de monumentos podem advir de diversas substáncias químicas, existentes na forma de gases (aproximadamente 90%, em peso, dos poluentes), líquidos (aerossóis) ou particulados. Podem ser lançados diretamente no ar (poluentes primários) ou podem ser criados no ar (poluentes secundários), a partir de outros poluentes sob a influéncia da radiaçao eletromagnética do sol. O resultado das reaçôes entre estes contaminantes é dañoso para os materials pétreos, provocando em alguns casos o colapso total dos mesmos (FRASCÁ, 2003).
Nos monumentos situados próximos à regiäo litorânea, notadamente aqueles próximos ao mar, deve-se considerar a açao do ion cloro que provem fundamentalmente da névoa salina e aerossóis transportados pelo vento e que é rica em sais marinhos notadamente NaCI. A presença simultánea na atmosfera contaminada do Cl" e demais elementos têm um efeito sinergético na degradaçao das rochas e monumentos. O S02 deixa como vestigio as crostas negras táo típicas nos monumentos construidos com rochas calcárias e que sao encontradas, também, nos revestimientos de edificios com placas dos mais diferentes tipos de rochas. O C02 é um componente do ar atmosférico, mas quando presente em excesso devido à queima de madeira, carváo, papel e outros materials, impede que parte do calor terrestre seja irradiada prontamente para o espaço, devido à absorçao da radiaçao infravermelha, sendo responsável pelo efeito estufa. Aquí cabe dizer que o excesso de C02, combinado com a água de chuva contribuí para a formaçao de ácido carbónico que, embora fraco, atua diuturnamente sobre os materials pétreos alterando-os. O NOx, urna combinaçao de NO" e N02, sao espécies que se originam principalmente da queima de combustível fóssil nos motores de explosäo e de algumas indústrias. Estes compostos sao poluentes primários e fundamentáis para a geraçao de HN03 a partir do fenómeno denominado de smog fotoquímico. (RIBEIRO, 2011).
Nas zonas litorâneas, o arrebentamento das ondas marinhas libera para a atmosfera pequeñas gotículas de água, que constituem a maresia ou o spray marinho (aerossóis marinhos) ocorrendo precipitaçao dos sais nelas contidos durante a sua evaporaçao. Desta forma, no litoral, a composiçao da precipitaçao é semelhante à composiçao da água do mar. À medida que se adentra no continente, diminuí a concentraçao dos elementos derivados do spray marinho. A evaporaçao da água das gotículas produz aerossóis com diferentes tamanhos. As partículas maiores atingem dimensóes da ordern de 10 pm e retêm a composiçao das gotículas parentais. Pelo contrário, nas de menores dimensóes ocorre modificaçao da composiçao química inicial. Com efeito, pode haver evaporaçao do cloreto sob a forma de HCl, provocando depleçao neste elemento relativamente ao sodio. O cloreto de sodio é um importante componente dos sprays marinhos cuja reaçao com ácido sulfúrico obtido da oxidaçao do S02 atmosférico pode gerar ácido clorídrico.
Segundo Berner e Berner (1987), os aerossóis repartem-se, em geral, como 27% de sais marinhos transportados pelo vento, 17% de sulfatos solúveis, nitratos e amónia, formados por emissôes gasosas naturais ou antropogênicas, e 41% como poeiras de solos e rochas. Estas percentagens podem ser muito variadas tanto no espaço como no tempo. Os aerossóis incluem aínda urna pequeña participaçao de particulados produzidos em incêndios florestais, em atividades agrícolas, ou derivadas de emissôes antropogênicas diretas e por hidrocarbonetos. No Brasil, país de extensa costa ocupada por cidades com elevada densidade urbana, esta circunstância assume papel relevante na alteraçao dos revestimientos em funçao de altos índices de corrosividade. Os danos em rochas graníticas e mármores expostos nestes ambientes, resultam da acumulaçao de sais devido à migraçao das soluçôes salinas por meio da rede de porosidade destas litologias. Este processo se inicia pela penetraçao de águas pluviais, pelas condensaçôes da umidade, ou por águas de capilaridade provenientes do solo, resultando em migraçao no sistema poroso das rochas até que ocorram processos de evaporaçao. Quando migram de dentro para fora da rocha, as soluçôes salinas lixiviam e transportam para as superficies componentes das rochas e da alvenaria, e dissolvem depósitos atmosféricos encontrados na superficie das mesmas. Em ambientes próximos ao mar, os sais depositados em rochas podem ser provenientes da névoa salina ou de soluçôes salinas oriundas dos solos (ou da própria rocha). Porém, se estas rochas apresentarem características idénticas e exposiçôes equivalentes, aínda assim elas podem apresentar diferentes formas de alterabilidade.
Mehta e Monteiro (1994) descreveram que a maioria das águas marítimas é razoavelmente uniforme quanto à composiçao química. No océano Atlántico, o teor total médio de sais é de 35 % (35 g/L). A quantidade dos principáis íons, contidos ñas águas oceánicas, é indicada na Tabela 1.
Considerando-se os íons dominantes existentes em águas marinhas francas, observa-se que em suas composiçôes salinas (Tabela 2) o principal sal dissolvido é o cloreto de sodio, seguido de cloreto de magnésio, ambos representando aproximadamente 88% da composiçao total. Sulfatos de Ca e de Mg integram em torno de 10% desta composiçao total. Assim, os sprays marinhos sao principalmente compostos de cloretos, sais de grande solubilidade.
1.2 ÁREA DE ESTUDO
A área de estudo está encravada no litoral da Regiáo Metropolitana de Recife, capital de Pernambuco, banhada pelo Océano Atlántico, estando delimitada pelas coordenadas geográficas: 325 52' 02"/345 53' 47" de longitudes W, e 85 05' 02"/85 08' 06" de latitudes S de Greenwich. Recife nasceu na foz dos ríos Capibaribe e Beberibe. Além dos rios, Recife possui inúmeros canais e pontes, e por isso é conhecida como a "Veneza brasileira". A temperatura média anual da área é de 24 °C, variando entre a mínima de 18 °C e a máxima de 32 C, sendo fortemente influenciada pela açao dos ventos dominantes, os alisios de SE (quentes e secos) e NE (quentes e úmidos). A pluviosidade é elevada, cerca de 2.000 mm/ano, concentrada nos meses de maio a agosto. Este dominio litorâneo conta com urna populaçao de mais de 100 mil habitantes distribuidos entre os bairros de Boa Viagem, Pina e Brasilia Teimosa. As praias da Boa Viagem e do Pina têm urna área de 57,48 hectares e cerca de 8 km de extensäo. A área tem como limites: ao norte, o bairro de Brasilia Teimosa; ao sul, a praia de Piedade, pertencente ao municipio de Jaboatäo dos Guararapes; a leste, o Océano Atlántico e a oeste o bairro de Boa Viagem, o parque dos manguezais, o canal do Rio Jordao e o canal Setúbal.
2 METODOLOGIA
2.1 Amostragem
Para o desenvolvimiento desta pesquisa foi feita uma visita à área para viabilizar as atividades de campo, demarcar os pontos de coletas, registro de fotografías e criar condiçôes para realizaçao das etapas laboratoriais das amostras coletadas in loco. Foram observados os vários revestimientos em prédios localizados em avenida litoránea. Foram considerados aqueles de natureza carbonática tal quai o Mármore Branco e o Travertino, que apresentam boa freqüência de aplicaçao. Os critérios para seleçao das placas pétreas estudadas foram a composiçao mineralógica, no caso material carbonático, grau de alteraçao, e a degradaçao das placas pétreas do revestimiento. A qualificaçao e/ou quantificaçao das alteraçôes mineralógicas ocorridas foram realizadas por meio de análises petrográficas. Também, foram considerados os tempos de aplicaçao dos revestimientos ñas fachadas das edificaçôes, que variaram entre 5 e 20 anos. Amostras de material usado, retirado durante reparos, foram usadas para obtençao de láminas petrográficas.
A descriçao petrográfica, envolvendo a identificaçao mineralógica e feiçôes texturais das rochas, foi realizada corn a utilizaçao de um microscopio Olympus BX40, dotado de sistema digital fotomicrográfico.
3 RESULTADOS E DISCUSSÄO
As características mineralógicas dos litotipos analisados (Tabela 3) mostram que os materials carbonátaos, mármores e calcários, sao dominantemente calcíticos. O material Mármore Branco foi designado por MBC e o Travertino por BB (Bege Bahia). O mineral dominante nas duas rochas é calcita; entretanto o Bege Bahia apresenta mica (flogopita) e opacos, e o mármore branco margarita (mica) como minerais acessórios.
As principáis formas de alteraçao, por açao do intemperismo, observadas no mapeamento de fachadas foram perdas de massa, descoloraçao, depósitos secundónos, desintegraçao, fissuras, oxidaçao e eflorescências. A perda de massa se manifesta por meio da alteraçao parcial da rocha e modificaçôes morfológicas de superficie (relevo áspero). Os depósitos (precipitaçôes) estäo relacionados com a formaçâo de crostas claras, em parte resultantes de eflorescências salinas, e/ou originadas pela dissoluçâo/reprecipitaçâo de rejuntes carbonátaos. As manchas negras resultam de reprecipitaçôes associadas corn a agregaçâo de fuligem e poeira urbanas, biofilmes escuros com colonias de microflora e/ou micro-organismos (Figura 1).
Oxidaçôes acastanhadas ou de tonalidades bege indicam a mobilizaçâo e reprecipitaçâo de Fe a partir de minerais férricos disseminados ñas placas pétreas ou a partir dos grampos metálicos utilizados na fixaçâo destas placas (Figura 2). As eflorescências estäo relacionadas com a dissoluçâo e precipitaçâo do cimento industrial utilizado em várias tentativas de fixaçâo de peças danificadas. Fissuramentos nas placas säo pouco frequentes, e, geralmente, correspondem a superficies irregulares de descontinuidades físicas, näo relacionadas com a estrutura interna da rocha.
As manchas, traduzidas por mudanças de cor, refletem a absorçao de água, por parte da placa, seja aquela de amassamento da argamassa de assentamento, ou decorrente das águas de chuva (meteóricas). A porosidade elevada deste tipo de material, acima de 1% (SILVA, 2008) e, consequentemente a absorçao, também elevada (acima de 0,43%), é fundamental para o manchamento deste litotipo, associado a fatores como as condiçôes ambientáis de aplicaçao deste material, clima de grande pluviosidade (2.000 mm de chuvas anuais) e temperatura elevada (média anula de 27°C). A Figura 3 ilustra o fato descrito anteriormente: fachada apresentando mudança da cor original, com manchas.
Em condiçôes naturais, rochas de superficie ou de subsuperficie, ou seja, aínda sob influência térmica da insolaçao, desenvolvem alteraçôes supergênicas. Alteraçôes físicas resultam dos diferenciados coeficientes de dilataçao dos vários minerais constituâtes das rochas, cuja atuaçao diuturna resulta em ininterrupto processo de dilataçâo-contraçâo-dilataçâo, criando tensôes nas estruturas cristalográficas e, desta forma, provocando microfissuramentos. A intensidade deste fenómeno é proporcional à exposiçao da rocha à insolaçao e quanto majores forem os contrastes térmicos diuturnos. Tal processo está nos primordios da fragmentaçao ("arenizaçao") das rochas e, inevitavelmente, também é exercido em placas lustradas, particularmente aquelas que compôem fachadas.
No caso dos mármores, particularmente do produto comercial "Travertino" ou "Bege Bahia", os problemas de preservaçao do lustro e sua vulnerabilidade ao intemperismo, estao vinculados primariamente à composiçao mineralógica desta rocha. Efetivamente, como calcita (CaC03) e/ou dolomita (CaMg (C03)2) säo os minerais dominantes em mármores (no caso em estudo a calcita) a vulnerabilidade das suas placas se manifesta acentuadamente tanto no dominio físico quanto no químico. No primeiro caso, em decorrência da baixa dureza destes minerais (na escala de Mohs: 3 para a calcita, e em torno de 3,5 para a dolomita), o que recomenda a nao destinaçao de mármores para pisos. No segundo caso, a vulnerabilidade resulta da forte reatividade com prod utos ácidos (inclusive a propria chuva) o que resulta, ao cabo de 5 a 20 anos, em perda acentuada de reflectância do lustro original.
Chuvas ácidas, com pH < 5 ocorrem em dominios fortemente poluídos, incluindo emissöes de S02 (poluiçao industrial, queima de combustíveis fósseis), que resultam na presença de H2S04 diluido nas precipitaçôes pluviométricas, acentuando o poder corrosivo do H2C03 diluido, advindo do C02 atmosférico. Apenas corn a diluiçao de H2C03, a água da chuva, estequiometricamente, teria pH = 5,6 (ANDREWS et al, 1996). Apesar da frequente aplicaçao desses produtos em fachadas, estas circunstáncias também nao recomendam a aplicaçao deste produto, ou qualquer tipo de "mármore" como revestimiento de fachadas. Na realidade, este Iitotipo, o "Bege Bahia" é um calcário sedimentar algálico (ou travertino), micrítico a microesparítico, corn nucleaçôes constituidas de glomérulos oriundos da fragmentaçao e retrabalhamento hidrodinámico de láminas algálicas, com focos irregulares de recristalizaçao, disseminaçao difusa ou pontual de óxidos de Fe e, frequentemente, cavidades cársticas (Figura 4).
Em observaçao petrográfica, a textura micrítica do Bege Bahia se mantém mais ou menos íntegra, porém com nítido aspecto rugoso e sujo devido aos longos anos de exposiçao do produto ao intemperismo (Figura 5). Nestas circunstâncias, a remobilizaçao do Fe, difuso e nao perceptível à observaçao macroscópica, produz nucleaçôes localizadas, cada vez mais freqüentes e expandidas, terminando por formar filetes de escorrimento em razio da reprecipitaçao de Fe, perfeitamente visíveis a olho nu e até mesmo à distância (Figura 2). Dependendo da intensidade dos agentes intempéricos (chuvas ácidas, por exemplo) suas placas podem perder drásticamente a reflectância, ao longo de 15 anos.
Em ambientes poluídos, as chuvas mais fortemente acidificadas pela presença de H2S04 diluido exercem ataque químico sobre minerais carbonátaos, produzindo-se urna corrosáo superficial (erosáo cárstica) e a precipitaçao de gipsita (CaS04.2H20), mineral de baixa dureza, com solubilidade de 2.100 mg/L para pH próximo a 7, temperatura de 25°C e pressäo de 1 bar, segundo Freeze & Cherry (1979), sendo portanto fácilmente removido pela própria água das chuvas. Entretanto, devido à porosidade e microfissuras da rocha, as águas da chuva podem penetrar na placa pétrea, e em seguida evaporar. Neste caso, a gipsita pode transitoriamente cristalizar e contribuir, através do cresdmento de cristais (que geram tensóes no interior dos poros da rocha), para a desintegraçao física da pedra por meio de um processo conhecido como degradaçao ambiental salina (SMITH & McGREEVY, 1999).
Assim como o ácido sulfúrico, que é gerado a partir de óxidos de enxofre na atmosfera, o ácido clorídrico pode ser produzido na atmosfera de ambientes litorâneos, a partir de reaçao do cloreto de sodio (NaCI) marinho com ácido sulfúrico obtido da oxidaçao do S02. É a maresia, ou spray marinho, formada por gotículas micrométricas que contém e provê o NaCI. O HCl é um ácido forte, e aínda que diluido em águas de chuva, é também bastante reativo quando incidente sobre rochas carbonáticas. Neste caso, o processo reativo géra o cloreto de cálcio (CaCI2), passível de cristalizar na porosidade e fissuramento destas rochas.
Diversos mecanismos de reatividade supergénica podem gerar sais que sao capazes de danificar a textura das rochas ornamentáis, em particular no caso de rochas carbonáticas. O processo se faz por urna sucessäo de eventos pluviométricos acidificados, gerando hidrólise de minerais, através de urna sucessäo de molhagem-secagem. Quando molhadas as rochas estáo sujeitas a processos hidrolíticos, que formam sais, na maior parte dos casos solúveis, capazes de se infiltrar na sua porosidade e/ou fissuras. Por secagem, o solvente se evapora, e o soluto salino precipita, originando pressöes internas capazes de microestilhaçar a superficie dos minerais contiguos e/ou expandir os fissuramentos internos das rochas. Estas rupturas físicas contribuem de urna forma gérai, e com o passar do tempo, para perdas de massa e aumento de porosidade, urna vez que os sais precipitados podem ser removidos por soluçôes salinas neófitas, gerando um ciclo permanente de cristalizaçôes e dissoluçôes internas. O que torna este mecanismo importante é que esses limiares de temperatura e de umidade podem ser atravessados diversas vezes durante um só día, produzindo inúmeros ciclos de expansäo e contraçao que levam à fadiga do material lítico. Smith & McGreevy (1999) admitem a existência de algumas dúvidas sobre a real eficácia dos mecanismos de expansäo térmica diferencial, mas ela pode perfeitamente contribuir para o colapso das rochas, mesmo que outros mecanismos intempéricos também estejam presentes.
4 CONCLUSÖES
Os edificios cujos revestimientos foram estudados apresentaram alteraçôes como: manchas (37%), perda de brilho (25%), perda de massa (13%), oxidaçao (10%), eflorescências (5%), fissuras (5%), crostas negras (4%) e fungos (1%). Estas patologías tornam-se intensificadas pelo regime climático tropical e pela cristalizaçao de sais nas microfissuras das rochas, além da abrasäo por particulados transportados pelo vento, o que contribuí para perda de brilho.
O estudo ressalta a importáncia do reconhecimento geológico dos materials pétreos empregados nas edificaçôes, tanto para permitir a escolha dos materials mais adequados como na busca de soluçôes de conservaçao e manutençao das edificaçôes. Em ambientes litorâneos, as sucessöes de transferências de fases gasosas e líquidas entre a atmosfera e as placas pétreas de revestimiento propiciam a acumulaçao de sais que causam danos a estes revestimientos.
As condiçôes climáticas de Recife favorecem a ocorrência e alternáncia natural destes ciclos. Consideradas, aínda, as oscilaçôes diárias da umidade relativa, com valores majores e menores do que 80%, que favorecem a cristalizaçao ou a dissoluçao dos sais, isto é, condiçôes ideais para desencadear processos de alteraçao nos revestimientos. Tais circunstâncias e suas consequências sao fácilmente observadas nas rochas de revestimiento encontradas na regiäo da orla, como destacamentos Uticos, eflorescências, desagregaçôes e manchamentos.
Os materials de constituiçao carbonática geram problemas de alterabilidade e devem ser aplicados, prioritariamente, em uso interno. O aumento da poluiçao atmosférica, devido principalmente pela açao antrópica, tem produzido gases que geram ácidos que aceleram a degradaçao das rochas e dos monumentos. Cada poluente tem urna açao importante e o conhecimento dos mecanismos desses processos objetiva evitar as patologías que danos à construçao e aos monumentos.
Em síntese, estes seriam aspectos restritivos comuns aos mármores, notadamente no caso de calcários sedimentares. Estes produtos apresentam alterabilidade precocemente, por vezes corn menos de 5 anos de aplicaçao.
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S. A. DA SILVA1', F. M. C. OLIVEIRA2, E. ALBUQUERQUE MENOR2, E. B. MELO2 e J. A. NOGUEIRA NETO1
1Universidade Federal do Ceará
2Universidade Federal de Pernambuco
Artigo submetido em dezembro/2014 e aceito em dezembro/2014
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