Resumo
Neste artigo, analisou-se discursos sobre o blackface no mundo fashionista e da beleza a partir da busca pela representatividade e pelo protagonismo negro, em contraponto a uma liberdade de expressäo artística do professional da área. Foi investigado um caso de blackface publicado pela empresa de cosméticos Avon em sua rede social. O corpus de análise constituiu-se por discursos presentes nos comentários registrados na referida publicaçâo. Os dados foram categorizados e analisados com base na vertente da análise crítica do discurso teorizada por Dijk (2012). Evidenciou-se que as práticas racistas continuam disseminadas na sociedade e seu reconhecimento ainda é dificultado por sua naturalizaçâo. Também foi evidenciado que a percepçâo do blackface como arte ou prática racista nao está diretamente relacionada à cor da pele de quem a analisa, mas à sua percepçâo cognitiva embasada na sua cultura, experiencia de vida, capacidade crítica, conhecimento histórico, entre outros fatores.
Palavras-chave: Blackface. Racismo. Hegemonía branca. Mundo fashionista.
Abstract
In this article, we analyzed speeches on blackface in the fashionism and beauty world from the demand for the black representation and protagonism as opposed to a artistic freedom of expression in the area. A case of blackface published by cosmetics company Avon in its social network was investigated. The analysis consisted of present speeches in the comments registered in that publication. Data were categorized and analyzed based on the aspect of critical discourse analysis theorized by Dijk (2012). It was evident that racist practices are still widespread in society and its recognition is still hampered by his naturalization. It was also shown that the perception of blackface as art or racist practice is not directly related to the skin color of the person who looks but your cognitive perception grounded in their culture, life experience, critical skills, historical knowledge, among other factors.
Keywords: Blackface. Racism. White hegemony. Fashionism world.
Um corpo pintado de arte ou de preconceito?
No dia 16 de setembro de 2015, a Avon, através da rede social Facebook, publicou uma foto de uma modelo tirada pela maquiadora que a produziu indicando na legenda que a mesma era a vencedora da categoría 'Editorial' do Prêmio Avon de Maquiagem 2015. Esta premiaçao acontece há vinte anos e é dirigida exclusivamente a maquiadores profissionais brasileiros, ou estrangeiros residentes no Brasil há mais de cinco anos, como forma de valorizar o professional da maquiagem elevando-o à posiçao de artista. O prêmio possui as seguintes categorias: artes cênicas, audiovisual, editorial, passarela, publicidade e social1. O trabalho vencedor da categoria 'Editorial' é da maquiadora Mychelle Pavao e recebeu o título 'Todos Somos Um'.
O editorial teve uma repercussao nao esperada pela maquiadora e pela Avon. Isto porque dentre as fotos do editorial, há duas modelos brancas maquiadas com a intençao de reproduzir mulheres negras, sendo uma delas inspirada na modelo professional Winnie Harlow (FIGURA 1), negra portadora de vitiligo, uma doença caracterizada pela perda da coloraçao da pele.
Nas fotos do trabalho premiado, a modelo branca Nicole Lindner (FIGURA 2) está pintada com bases escuras no rosto, fazendo alusao à uma modelo negra portadora de vitiligo (FIGURA 3), enquanto a modelo Svetlana Kharlashkina - também branca - aparece maquiada como negra. A publicaçao, pela Avon, da foto da modelo Nicole Lindner maquiada como uma negra com vitiligo, em sua página na rede social, gerou muitas críticas e a repercussao negativa motivou a empresa a excluir a postagem apenas um dia após a sua publicaçao. No dia seguinte, 18 de setembro de 2015, a Avon postou sua justificativa para a publicaçao e desculpou-se com aqueles que podem ter se ofendido com a foto. A esta segunda publicaçao - de retrataçao - diversas pessoas se manifestaram denunciando a prática do blackface como racista enquanto outros defenderam o trabalho como expressao artística.
Diante desse contexto, esta pesquisa tem por objetivo analisar os diferentes posicionamentos discursivos manifestados por usuários de redes sociais sobre práticas denunciadas como racistas. Dessa forma, analisamos os discursos presentes nos comentários registrados na publicaçao de retrataçao da Avon. Como a postagem original foi retirada, tornou-se impossível tomar as manifestaçoes as sociadas a ela como objeto de análise. Até a data de finalizaçao da coleta de dados, a imagem havia sido curtida por 618 usuários, compartilhada por 23 usuários e recebido 211 comentários (incluindo réplicas e tréplicas).
Destaca-se que se entende que o gênero e a raça sao socialmente construídos na e pela cultura, onde as relaçoes de poder e os discursos historicamente construídos manifestam-se nos corpos num processo de organizing (SOUZA; COSTA; PEREIRA, 2015).
O artigo está estruturado nas seguintes seçoes: após esta introduçao, discutimos sobre a hegemonía do padrao de beleza eurocêntrico, para posteriormente discutir os dilemas enfrentados pelas mulheres negras e o mercado fashionista e da beleza como espaço segregador. Em seguida, apresentamos o percurso metodológico; as análises dos resultados obtidos com a pesquisa; e, por fim, as consideraçoes finals e as referências.
A mulher negra e a estética branca hegemônica
O ser humano é o único animal que transforma voluntariamente o próprio corpo, variando em nome da cultura ou de especificidades dos segmentos sociais de um mesmo grupo. Tais sinais impressos no corpo e o tipo de penteado podem transmitir informaçoes como "hierarquia, idade, símbolo de status, de poder e de realeza", simbolizando o que a sociedade deseja ser ou negar (GOMES, 2003, p. 79). Isto acontece porque o padrao de beleza é "construído socialmente, num contexto histórico, cultural e político, e por isso mesmo pode ser ressignificado pelos sujeitos sociais" (GOMES, 2003, p. 75).
Chapman (2007) relata que os corpos das mulheres negras sempre foram um local para o discurso público, principalmente em relaçao ao padrao de beleza. No mundo ocidental, onde a estética branca
é hegemônica, a identidade negra foi construida para normalizar a brancura (JOHNSON; BANKHEAD, 2013). Assim, é a autoridade da estética branca quem define o "belo" e o "feio", e neste o negro é o oposto do belo (SOUZA, 1983, p. 29).
Braga (2015) faz uma descriçao histórica e moderna do corpo da mulher negra através das variedades de "Vênus" - referente à deusa do amor e da fertilidade - que ao passar por diferentes culturas ao longo do tempo, acaba-se por significar a beleza, a virtude e o corpo da mulher.
A primeira delas, a Vênus de Willendorf, encontrada no período neolítico, é representada na escultura com seios e bacia hipertrofiados como símbolo da maternidade, como uma deusa-mae. Na antiguidade clássica, há uma valorizaçao dos atributos estéticos, tal como fizeram os gregos ao saudar a beleza feminina, de um corpo proporcional, porém ainda inferior ao do homem. Como o corpo viril do homem era dominio público, há uma transferência de atributos masculinos para os corpos femininos, como no caso da Vênus de Milo, cuja representaçao é musculosa, o abdômen é acentuado e os ombros largos, por exemplo. Na Idade Média, o corpo feminino representou o perigo, o demônio, assim como Eva ao encantar Adao, o que resultou em um forte medo e menos admiraçao. Em movimento contrário, na Idade Moderna, no renascimento, o corpo de demônio agora é visto como anjo, cujo patamar é superior ao do homem. Assim, há uma exaltaçao dos atributos físicos e espirituais da mulher, como retratado no quadro Nas cimento de Vênus. Na passagem para o século XVI a representaçao se altera para um toque de sensualidade e apelo sexual, onde as pinturas retratam um feminino e sua autocontemplaçao, onde as mulheres estao admirando suas formas, como nas obras Vênus e sua Toalete, Vênus ao Espelho e Vênus Olhando-se ao Espelho. Estas "Vênus" traziam seu corpo moldado sempre à semelhança do belo, onde se confundiam beleza e corpo. Entretanto, o surgimento da Vênus negra ou Vênus Hotentote quebra esta relaçao, desvinculando o corpo da beleza (BRAGA, 2015).
Vênus negra é como ficou conhecida Saartjie Baartman, nascida na África do Sul e pertencente ao povo Hotentote, cujas características físicas como o 'avental frontal' (hipertrofia dos lábios vaginais), bem como a gordura nas nádegas, diferenciava-se do padrao europeu. Em 1810, Saartjie foi levada a Londres para ser exposta em feiras, circos e teatros, apresentando4 se como uma selvagem, um monstro humano. A relaçào entre selvagem e civilizado, bem como o desenvolvimento do conhecimento científico pautado nas diferenças raciais e superioridade da raça branca, instaurou uma distância entre europeus e africanos. Além disso, embora a Vênus negra tenha atributos semelhantes à Vênus de Willendorf, ela nao é cultuada em torno da fecundidade e sim de uma anormalidade e um alto grau de desejo sexual. Assim, a Vênus Hotentote representava a universalizaçao de um corpo típico africano, cujo apetite sexual era incontrolável, criando o estereotipo da hipersexualidade da mulher negra. Seu corpo, atraído por dentistas para pesquisas ainda em vida, foi dissecado, conservado e exibido por quase dois séculos no Mus eu do Homem, em Paris, até que Nelson Mandela reivindicou que seus restos mortais retornassem à África (BRAGA, 2015).
Este fenómeno foi potencializado pelo processo escravocrata, onde as mulheres 'reais' eram as mulheres brancas. As normas de gênero reforçam estas hierarquias coloniais e impactam na construçao social do padrao de feminilidade e beleza feminina (CHAPMAN, 2007). As características do comprimento e textura dos cabelos, o afinamento ou nao do nariz, a cor dos olhos, acabam por criar visoes opostas: de um lado mulheres dóceis e gentis e do outro, nao apresentáveis e nao atrativas (ROOKS, 1996). Assim, os povos de origem africana começam a acreditar que ter uma pele clara e um cabelo liso ajudaria a alcançar a mobilidade económica e social (JOHNSON; BANKHEAD, 2013).
Adicionalmente, a mulher negra sofre duplamente em nossa sociedade sexista e racista, justamente por ser mulher e negra, o que a coloca numa posiçao inferior na hierarquia. O corpo é percebido nas mulheres negras nas disciplinas corporais, por exemplo, em se "fazer" o cabelo (CHAPMAN, 2007). Assim, Johnson e Bankhead (2013) apontam que saber quem você é e o que sente sobre você mesma, é uma questao essencial para a construçao da identidade, e se tratando de mulheres negras, a identidade é associada principalmente a pele e ao cabelo.
O lugar (negado) da mulher negra no mercado fashionista e da beleza
Sansone (1996), em sua pesquisa sobre o sistema de classificaçao da cor/raça, identificou que a autodeclaraçao_da_cor/raça_ocorre_de_forma contingencial, pois variam com a classe social, a idade e principalmente o lugar. A partir desta perspectiva, o autor tipifica três lugares sociais que influenciam a autodeclaraçao, como eles enxergam a si mesmos e como avaliam e enfrentam a questao do preconceito e discriminaçao.
As áreas duras sao o mercado de trabalho e, em particular, a procura do trabalho, o mercado matrimonial e da paquera e a relaçao com a polícia (SANSONE, 1996). Em geral, estes espaços sao hegemonicamente brancos e onde a competiçao, a estética e o status deixam o negro em desvantagem (ROSA, 2011). As áreas moles sao espaços onde o fato de ser negro nao se torna um obstáculo e nao envolve competiçao por status e poder, como nos espaços do lazer (botequim, forró) e religiosos (igrejas evangélicas, católicas e círculos espíritas) (SANSONE, 1996). Nestes espaços, evita-se falar em cor e racismo, tornando-se importante a convivência no compartilhamento dos espaços. Por fim, os espaços negros sao lugares definidos e socialmente destinados para os negros, onde ser negro torna-se uma vantagem. Geralmente sao lugares onde a cultura negra é a base das atividades, como no bloco-afro, nos terreiros de umbanda e candomblé e na capoeira (SANSONE, 1996).
Relacionando o mercado de trabalho das passarelas, Nunes (2013) destaca um aumento na tendência de valorizaçao da África em contraste com o pequeno aumento no número de modelos negras contratadas. Para a coleçao primavera/verao 2014, o site Jezebel analisou que durante a New York Fashion Week, de 4.637 looks, cerca de 80% eram de modelos brancas e apenas 8% negras. Ressalta-se que valores próximos a esta proporçao também tem sido encontrados em outras estaçoes (DRIES, 2013).
No Brasil, ainda que a populaçao seja em sua maioria negra, o mesmo acontece. No ano de 2008, o Ministério Público do Estado de Sao Paulo (MP) abriu um inquérito para investigar uma possível prática discriminatória, onde apenas 3% dos modelos eram negros (MANO, 2011). Como resultado da açao, o MP firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a empresa organizadora do Sao Paulo Fashion Week para que no mínimo 10% dos modelos fossem negros e indígenas. No entanto, em 2015, com o TAC findado, a ONG Educafro denuncia que a prática de exclusao retorna (BORGES, 2015).
Se há uma valorizaçao da África e nao há correspondente contrataçao de modelos negras, há uma reproduçao das características e feiçoes negras em modelos brancas, como substituiçao. Podemos citar como exemplo os editoriais internacionais da Vogue Holanda (SORG, 2009) e da "Numéro" (WILSON, 2013), onde as modelos brancas foram pintadas de preto; no editorial da Riachuelo de 2015 onde utilizaram modelos brancas para representar a populaçao do Marrocos - país africano e de sua maioria nao-branca (RIACHUELO, 2015); dos desfiles de Renato Fraga no Sao Paulo Fashion Week, onde modelos (brancas e poucas negras) utilizaram palhas de aço para representar o cabelo crespo (SANCHES; SOUZA, 2013) e de Valentino, por apresentar a África com modelos brancas (BRUNET, 2015); e, do Baile de Carnaval 2016 da Vogue Brasil, com o tema Pop Africa, com diversas modelos e orientaçoes voltadas para o branco se vestir à caráter (VOGUE, 2016).
Duas sao as principais justificativas encontradas para tal fenómeno na versao dos criadores: 1) o mercado nao oferece oferta de modelos negras, ainda que exista demanda; 2) a liberdade artística ou 'licença poética' do profissional seja designer, maquiador, estilista, e etc. Ainda que em ambos os casos tal prática nao seja vista como ato discriminatório e racista pelos atores, os estudos sobre visibilidade do negro na mídia, e podendo ser aproveitado para este cenário, apontam que o preconceito de 'marca' (aparência) é associado a uma situaçao económica e social desfavorável, culminando em pouca participaçao (BONADIO, 2012 apud SCHWARCZ, 2000). Mas, como participar se nao é permitido 'competir'? Uma questao que precisa ser (re)pensada.
Percurso metodológico
Para atender ao objetivo proposto realizamos uma pesquisa qualitativa. Os dados analisados foram coletados na página oficial da Avon na rede social Facebook. Ressalta-se que tal corpus de análise já foi utilizado por Nascimento et al (2015) e se faz pertinente por ser um espaço onde os discursos naturalizados na sociedade se revelam.
Foram selecionados os comentários das pessoas que se manifestaram quanto à postagem da Avon no período 18/09/2015 a 13/01/2016. Embora o debate em torno da publicaçao na rede social tenha sido público e está acessível a qualquer pessoa, optamos por usar pseudónimos para dificultar a identificaçao pessoal daqueles cujo os textos selecionamos como fonte de dados para a pesquisa. Para a análise destes dados utilizamos a vertente da análise crítica do discurso (ACD) teorizada por Dijk (2012; 2013). Para esse autor, a análise crítica do discurso é "um tipo de investigaçao analítica discursiva que estuda principalmente o modo como o abuso de poder, a dominaçao e a desigualdade sao representados, reproduzidos e combatidos por textos orais e escritos no contexto social e político" (DIJK, 2012, p. 113). Dijk (2012) defende que nao é qualquer tipo de poder que interessa aos pesquisadores dos estudos críticos de discurso (ECD). O interesse está direcionado para o abuso de poder, fonte das formas de dominaçao que resultam na desigualdade e injustiça social, como o racismo. O abuso de poder se manifesta por práticas discursivas que objetivam o controle das açoes e das mentes das pessoas. A ideia é que a influência sobre a mente do outro - por meio da difusao das ideologias defendidas pelos abusadores do poder - permite que o outro aja de acordo com os interesses de tais abusadores necessitando que eles empreendam poucos esforços para controlá-los.
Cabe ressaltar a observaçao de Dijk (2012) de que a análise crítica do discurso nao é um método de análise de discurso. Ela é uma interaçao entre teorías, métodos de observaçao, descriçao e análise, e suas aplicaçoes. Os métodos empregados sao diferentes e variam de acordo com as especificidades das pesquisas e dos interesses dos pesquisadores. Na presente pesquisa nos preocupamos majoritariamente com a análise semántica do corpus coletado. Para isso, realizamos a análise com base em très categorias distintas: a denúncia de racismo; a negaçao de racismo; e o contra-ataque à denúncia de racismo. Na primeira categoria analisamos os discursos que denunciam a prática de racismo na publicaçao da Avon. Na segunda, analisamos os discursos que negam esta prática como racista. Na última categoria, analisamos os discursos que revertem a lógica racista ao acusar os denunciantes como sendo os verdadeiros racistas.
Dos vários comentários registrados pelas pessoas que participaram do debate na publicaçao da Avon, dentro do período de recorte da pesquisa, selecionamos aqueles que propiciavam melhor colaboraçao para com o objetivo da pesquisa. Esses textos foram classificados de acordo com as categorias já mencionadas e receberam uma numeraçao crescente - entre colchetes no início de cada texto transcrito - à medida em que foram sendo apresentados para análise.
O objetivo do uso dessa numeraçao é auxiliar na sua identificaçao e facilitar sua indicaçao no cruzamento entre os dados, se necessário. Cabe ressaltar que os trechos dos textos selecionados para análise foram apresentados assim como escritos por seus autores. Nao efetuamos nenhuma correçao gramatical ou de qualquer outro tipo, uma vez que as particularidades da forma como foram escritos também sao passíveis de análise.
O que evidenciam os dados?
A denúncia de racismo
[001] (...) O que a Avon fez chama-se blackface. Blackface é umapráticahistórica, muito antiga. Onde as pessoas que faziam teatro eram todas brancas (começamos por aí.. Negros nao tinham oportunidades de fazer teatro e expressarem-se artísticamente) e quando era necessário interpretar o papel de uma pessoa negra (geralmente acontecia para interpretar empregados domésticos ou personagens de zombaria) eles se pintavam de preto.. Ou seja, ao invés de chamar um cara negro pra interpretar o papel, pintava-se o cara branco de preto (que ficava ridículo e estimulava o humor e a zombaria contra o negro) para interpretar um papel de um personagem de submissao!! Percebe o quao tenso é isso? Por isso o Blackface É considerado racista. Ontem, hoje e sempre. E essa prática sobreviveu por muito tempo... Só que negro nenhum gosta de ser vítima de deboche, concorda? (Flávia)
[002] Blackface é racismo, nao apropriaçao cultural. Racismo nao é "desconforto", é crime (Jonas).
No fragmento discursivo [001] Flávia explica a que se refere o blackface e seu significado simbólico enquanto prática racista. Em sua fala Flávia as severa que o blackface é uma prática "muito antiga". Essa referencia temporal é importante para categorizar o blackface como prática social naturalizada que por um longo período de tempo foi realizada sem ser questionada. Essa perspectiva é legitimada pela informaçao de Flávia de que essa prática teve inicio no teatro, em um período da história em que o negro era impedido de ocupar diversos espaços sociais, entre eles o de artista. A recusa social em permitir ao negro que ele represente no teatro sua própria raça é a primeira evidencia de que o blackface é uma prática racista. A segunda evidencia - presente no discurso de Flávia - é de que essa representaçao do negro pelo branco "estimulava o humor e a zombaria contra o negro". O racismo é comumente encontrado na sociedade disfarçado em atividades humorísticas como em charges, anedotas, 'brincadeiras' entre amigos, na atribuiçao de apelidos, em programas de televisao, cinema e teatro, entre outros. Disfarçar o racismo em práticas humorísticas é uma das formas de reproduzir, naturalizar e silenciar o racismo. Uma vez reproduzido e naturalizado o racismo é pouco questionado pela sociedade e quando denunciado é normalmente negado, como será possível verificar na próxima seçao de análise onde as estratégias de negaçao serao apresentadas. Na sentença "Por isso o Blackface É considerado racista", chama a atençao o fato de Flávia ter digitado o verbo "É" em letra maiúscula. Esse recurso evidencia que Flávia fez questao de enfatizar sua opiniao em relaçao ao racismo presente na prática do blackface. Na sequência de seu texto, o uso da expressao "ontem, hoje e sempre" é também um recurso linguístico empregado para reforçar sua opiniao e deixar claro que esta opiniao nao está aberta para questionamentos. O blackface como prática racista, para Flávia, é uma questao definitiva.
O texto de Flávia, parcialmente transcrito no fragmento discursivo [001], era particularmente direcionado a outra participante do fórum de discussao da rede social que nao compreendia o blackface, relativo à publicaçao da Avon, como racista. Por essa razao Flávia decidiu dar um caráter didático ao seu texto e adotou como estratégia de persuasao a busca pela empatia de sua interlocutora, como se pode verificar no uso da frase interrogativa "Percebe o quao tenso é isso?", reforçada mais adiante por essa outra frase interrogativa "só que negro nenhum gosta de ser vítima de deboche, concorda?".
Jonas é também enfático ao classificar o blackface como prática racista, como se pode verificar no fragmento discursivo [002]. Em sua fala ele é incisivo em diferenciar racismo de apropriaçao cultural, conceito que discutiremos logo a seguir a partir da análise do fragmento discursivo [003]. Em sua fala "racismo nao é "desconforto", é crime", Jonas busca enfatizar o racismo como prática criminal prevista na legislaçao. É importante observar que quando ele diz que racismo nao é "desconforto", ele nao quer dizer que a vítima de racismo nao sofre desconforto com tal situaçao. A semántica do texto evidencia que ele defende que o racismo nao pode ser reduzido apenas a um "desconforto", visto que é mais do que isto: é um crime.
[003] Apropriaçao cultural é quando você se apropria de algo de uma cultura que nao te pertence. Vitiligo é uma doença e o que vocês deveriam ter feito para provar a beleza da tal maquiagem seria usar uma modelo que REALMENTE tivesse a doença, e nao acharem inovador uma garota branca cheia de base fora do seu tom de pele espalhada pelo corpo como forma de representar alguém com a doença (Paula).
Paula apresenta em seu texto transcrito em [003] um conceito para a apropriaçao cultural. A apropriaçao cultural é retratada de forma depreciativa, uma vez que essa apropriaçao de algo que nao lhe pertence remete interdiscursivamente ao conceito legal de furto. O sentido que Paula atribuí à apropriaçao cultural nao pode ser confundido, portanto, com a possibilidade de um individuo ou grupo social absorver aspectos de uma cultura pertencente a outro grupo social. Na pesquisa observamos que outros debatedores da publicaçao da Avon na rede social adotam o conceito de apropriaçao cultural de forma semelhante a Paula. Nao identificamos nenhuma dissonância em relaçao a este conceito, o que nos evidencia que a interpretaçao apresentada é majoritária entre os denunciadores de racismo cujo os textos foram analisados nesta pesquisa. Isso nos leva de volta ao fragmento discursivo [002] onde Jonas diz que blackface nao é apropriaçao cultural, mas apenas racismo. Se tomarmos como correto esse conceito de apropriaçao cultural, a assertiva de Jonas se mostra incorreta, uma vez que o blackface, além de uma prática racista, é também uma apropriaçao cultural utilizada para reproduzir o racismo socialmente. Por isso Paula nao cita racismo em seu texto. Sua reprovaçao à publicaçao da Avon é tratada como apropriaçao cultural e sua critica mais focada na pessoa com vitiligo, como se percebe em: "vitiligo é uma doença e o que vocês deveriam ter feito para provar a beleza da tal maquiagem seria usar uma modelo que REALMENTE tivesse a doença, e nao acharem inovador uma garota branca cheia de base fora do seu tom de pele espalhada pelo corpo como forma de representar alguém com a doença".
[004] Existe uma coisa chamada minoria. Existe também outra cois a chama protagonismo. Es s as duas coisas estao intimamente ligadas e sao muito necessárias pra desconstruir todo e qualquer tipo de preconceito existente na nossa sociedade. LGBTfobia (homofobia, transfobia, bifobia). Racismo. Machismo. Esses sao exemplos de preconceitos encrustados na cabeça das pessoas, que faz com que todos nós nao nos coloquemos no lugar de quem sofre/ sofreu com eles a vida toda. O que acontece quando nao nos colocamos no lugar de quem sofre o preconceito? Nós achamos que temos o direito de falar o que é certo, o que é errado, o que é melhor e o que é pior pra resolver a polémica da pessoa que tem o preconceito em questao (Flávia).
No texto reproduzido em [004] Flávia continua sua explanaçao fundamentando sua perspectiva de que o blackface é uma prática racista. Flávia ainda está se dirigindo, particularmente, à outra debatedora a que já nos referimos anteriormente. Flávia estabelece em seu discurso a ideia de que a conscientizaçào a respeito dos conceitos de 'minoria' e 'protagonismo' estao intimamente ligados e possuem importância fundamental para a 'desconstruçao' dos diversos tipos de preconceitos existentes na sociedade. Os textos de Flávia dialogam interdiscursivamente com outros discursos que objetivam o combate ao racismo e demais formas de preconceito estabelecidos na sociedade. Como já dito anteriormente, Dijk (2012) defende a perspectiva de que o racismo - e isso pode ser aplicado aos demais preconceitos - nao sao naturais e sim construidos socialmente. O texto de Flávia evidencia que ela corrobora desta perspectiva já que menciona a possibilidade e a necessidade dos diversos preconceitos serem "desconstruidos": "Essas duas coisas estao intimamente ligadas e sao muito necessárias pra desconstruir todo e qualquer tipo de preconceito existente na nossa sociedade" (Flávia). Há nesta sentença, portanto, o implícito pressuposto de que se os preconceitos precisam ser desconstruidos e somente se pode desconstruir o que foi previamente construido. Os textos de Flávia evidenciam que ela está envolvida com a ideologia de combate ao racismo e demais preconceitos e estuda ou se informa sobre o tema, já que traz para o seu texto conceitos e conteúdos pertinentes a esses outros discursos. Outro trecho que colabora com a perspectiva de que os preconceitos sao construidos socialmente pode ser observado no uso da expressao "preconceitos encrustados na cabeça das pessoas". O verbo encrustar dá o sentido semântico de que os preconceitos foram embutidos na cabeça das pessoas. Por isso a autora adverte que quando nao praticamos a empatia, nao nos colocamos no lugar do outro - daquele que sofre os preconceitos - nao temos a real compreensao do fenómeno social e, portanto, nao estamos habilitados a opinar sobre ele.
A análise semántica da sentença: "Esses sao exemplos de preconceitos encrustados na cabeça das pessoas, que faz com que todos nós nao nos coloquemos no lugar de quem sofre/sofreu com eles a vida toda" (Flávia), evidencia que está subentendida a perspectiva de naturalizaçao do racismo e demais preconceitos. Isto porque a naturalizaçao torna a percepçao das práticas racistas, homofóbicas, sexistas, etc., corriqueiras, comuns, aceitáveis no cotidiano social. A naturalizaçao suaviza, esconde, dificulta a conscientizaçao sobre a real gravidade de tais práticas, em especial, por aqueles que a praticam ou a assistem com indiferença.
[005] Agora, o que algumas pessoas estao tentando fazer aqui, é justamente mostrar pra Avon que o que ela fez foi algo muito feio, impróprio e racista sim. Ela tá fazendo uso de uma prática antiga que acaba perpetuando na cabeça das pessoas (mesmo que SEM QUERER) a ideia de que zombar de negro pode. De que negro é facilmente substituível por um branco. Ou seja. Ela ajuda a perpetuar o racismo. Mesmo que seja sem querer, precisa ser problematizado, precisa ser dito, as pessoas, PRINCIPALMENTE as negras precisam chegar e dizer que isso nao tá certo, que nao foi legal e que foi ofensivo pra elas (Flávia).
No fragmento discursivo [005] Flávia é explicita ao defender que a Avon - possivelmente sem se dar conta disto - realizou uma prática racista com o blackface em seu concurso de maquiagem. Na sentença "mesmo que SEM QUERER", Flávia usa o recurso de escrever em caixa alta a expressao 'sem querer'. Podemos interpretar a intençao de seu ato de duas formas distintas, antagónicas entre si. A primeira interpretaçao é de que Flávia quis enfatizar a possibilidade da Avon nao ter tido qualquer intencionalidade condenável na publicaçao do blackface. Na segunda, em um sentido oposto, pode-se interpretar que Flávia tende a acreditar que havia uma intencionalidade racista na prática da Avon. O Texto nao nos dá elementos concretos para definirmos a posiçao de Flávia neste item. O texto [005] evidencia a perspectiva de Flávia de que o blackface perpetua o racismo ao expor a imagem do negro a situaçoes de chacota e humilhaçao, bem como ao colocá-lo na posiçao de alguém que é facilmente substituível pela pessoa branca, naturalizando o preconceito contra ele.
Na sentença "PRINCIPALMENTE as negras precisam chegar e dizer que isso nao tá certo, que nao foi legal e que foi ofensivo pra elas", Flávia dá um ultimate às mulheres negras. Está implícito no texto o conceito de protagonismo. No que diz respeito à publicaçao da Avon, o ultimato de Flávia nao é direcionado ao homem negro possivelmente pelo fato do blackface ter envolvido uma modelo branca, sendo maquiada para se parecer com uma modelo negra, e ter sido promovido por uma empresa multinacional de cosméticos voltada ao público feminino. Portanto, os dados evidenciam que na percepçao de Flávia este blackface envolveu o universo feminino e compete a elas o protagonismo de denunciar e lutar contra esta prática racista. O uso do léxico 'principalmente' em caixa alta evidencia a importáncia que Flávia confere ao protagonismo da mulher negra neste caso.
O protagonismo volta a ser tema em outro fragmento discursivo de Flávia, como se pode verificar em [006].
[006] Por fim, o roubo do protagonismo. Que é algo que inclusive eu estou fazendo. Por quê? Porque quem deveria estar aqui falando sobre tudo isso, sobre Blackface, sobre a história dos negros, sobre como eles se sentem sao ELES. Porque ELES é quem passam por isso TODOS OS DIAS. Nao eu. Sao eles que enfrentam as piadas infames com "neguinho do cabelo duro", que sao abordados pela polícia somente por serem negros, que nao estao nas escolas particulares nem nas universidades, que sao deixados de lado ou como segunda opçao na hora de escolher um bom emprego... Enfim, que sao discriminados todos os dias (Flávia).
Ao falar sobre roubo de protagonismo Flávia afirma que ela própria está cometendo tal roubo. Isto porque "quem deveria estar aqui falando sobre tudo isso, sobre Blackface, sobre a história dos negros, sobre como eles se sentem sao ELES" (Flávia). Ao se reportar aos negros como 'eles', e enfatizar isto com o uso da caixa alta, verifica-se o implícito pressuposto de que Flávia nao pertence a este grupo social. Embora se manifeste contra o racismo, Flávia nao se sente com legitimidade para falar do tema - por isso o roubo do protagonismo - pois quem deveria denunciar e lutar contra o racismo sao os negros, "porque ELES é quem passam por isso TODOS OS DIAS" (Flávia). Nesta última citaçao verificamos que Flávia novamente se utiliza da caixa alta para destacar os léxicos 'eles' e 'todos os dias'. Novamente se busca enfatizar a necessidade de protagonismo dos negros que sao vítimas do racismo cotidianamente, pelas piadas e 'brincadeiras' de mau gosto com destaque, no texto de Flávia, para aquelas direcionadas para os seus cabelos crespos. Flávia ainda menciona outros exemplos de agressoes racistas sofridas pelos negros na sociedade, como pelas constantes abordagens policiais motivadas apenas pela cor da pele; na ausencia de negros - em números representativos - nas escolas particulares e nas universidades públicas. Fica subentendido nas colocaçoes de Flávia sua percepçào e reconhecimento de que as práticas racistas restringem as possibilidades de desenvolvimento socioeconómico dos negros e os colocam em um lugar secundário - marginal - da sociedade. Daí a importancia do negro buscar ser protagonista no combate ao racismo.
[007] Pintar a pessoa negra de branco tbm é racismo. Deixa eu explicar (de novo) Nao é pra pintar preto de branco, nem branco de preto. Sao pessoas distintas, nao tem que colocar o branco pra fazer papel de negro, nem tem que embranquecer o negro pra ele ser "menos" negro. É uma questao de identidade e representatividade (Tatiana).
No fragmento discursivo [007] temos Tatiana como outra personagem que denuncia o racismo. Neste texto, Tatiana está se dirigindo diretamente a outra debatedora que nao reconhece a prática do blackface como racista e teria defendido que seria racismo apenas se uma modelo negra tivesse sido maquiada para se parecer branca. Para Tatiana, no que se refere às práticas racistas, nao se deve 'pintar' negros de branco e tampouco brancos de negros. No entanto, há uma diferença significativa entre essas duas possibilidades. 'Pintar' o branco de negro caracteriza a prática do blackface cujo teor racista já foi anteriormente discutido nesta pesquisa. 'Pintar' o negro de branco, por sua vez, tem um significado diferente conforme evidencia o texto de Tatiana. Essa prática nao caracteriza racismo contra a pessoa branca, mas sim contra o próprio negro, uma vez que isso representaría um 'embranquecimento' do negro para ele ser 'menos' negro. Há que se respeitar, na opiniao de Tatiana, a identidade e a representatividade do negro. Este respeito à identidade e representatividade está interdis cursivamente relacionada à apropriaçao cultural - já discutida anteriormente - que se faz, indevidamente, da cultura negra.
[008] "Uuui... só negro entende racismo..." SIM Branco nao sofre racismo (Cleide).
[009] Brancos falando o que é ou nao racismo gatinha nao é válido ... Quem define o que é racismo, o que é apropriaçao cultural sao os negros. Negro sofre racismo, nao venham tentar silenciar .. Se vc é branca, nao tem que dar pitaco nesse assunto ... (Emília)
Nos textos [008] e [009] Cleide e Emilia, respectivamente, defendem que apenas os negros, enquanto grupo social vítima de racismo, tem legitimidade para definir o que é ou nao racismo. Os textos sao reaçoes a pessoas brancas que se manifestaram dizendo que o blackface publicado pela Avon nao é uma prática racista. A pessoa branca, tanto para Cleide como para Emília, nao possui legitimidade para definir o que é ou nao racismo uma vez que fazem parte de um grupo social que nao sofre racismo. Portanto, nao podem dar "pitaco neste assunto" (Emilia). As autoras silenciam em seus respectivos discursos que além de nao sofrerem racismo as pessoas brancas sao aquelas que majoritariamente promovem e perpetuam o racismo contra os negros. Os brancos compoem a 'elite majoritária' que preenche os melhores espaços sociais e tem acesso às melhores oportunidades, ocupando os lugares de poder que possibilitam a instauraçao e reproduçao do racismo em suas práticas de abuso do poder, como defendido por Dijk (2012).
A negaçâo do racismo
Dijk (2012) defende que as normas e valores gerais contemporáneos, até mesmo a própria lei, proíbem as práticas de preconceito e discriminaçao étnica. No Brasil o racismo é tipificado como crime e outras formas de discriminaçao, como a religiosa e a de procedencia nacional, também sao condenadas pela lei. Em vista disto, os praticantes de racismo acabam por evitar formas explícitas de manifestarem suas ideologias discriminatórias e buscam formas mais sutis de o fazerem. Uma das formas de manifestar racismo se dá pela negaçao de sua existencia.
As negaçoes do racismo e formas semelhantes de autoapresentaçao positiva apresentam tanto uma dimensao individual como social. A maioria dos falantes brancos nao somente se sentem ofendidos por serem individualmente percebidos como racistas, mas também, e de forma mais importante, tais estratégias podem ao mesmo tempo visar a defes a do grupo como um todo: "Nao somos racistas"; "Nao somos uma sociedade racista" (DIJK, 2012, p. 158).
Para o referido autor, as pessoas com comportamento racista se preocupam com uma avaliaçao geral negativa de sua personalidade, uma vez que ser categorizado como racista ou intolerante pressupoe uma característica pessoal, duradoura de sua personalidade (DIJK, 2012). A negaçao seria, portanto, uma estratégia de autopreservaçao da própria imagem perante a sociedade. Segundo o autor, os tipos mais comuns de negaçao sao: negaçao do ato; negaçao do controle (sobre o ato); negaçao da intençao e negaçao do propósito (DIJK, 2012). Neste tópico iremos analisar os comentarios que evidenciam a prática da negaçao.
[010] Nao vi nada de agressivo ou desrespeitoso nessa maquiagem. O povo tá tao nessa onda de politicamente correto, que tá enchendo o saco! Nao entendem arte... Nao entendem conceito. Destroem qualquer liberdade artística... affffffffffffffffff O povo entrou numa noia tao grande que a Avon tirou do ar o editorial e ainda foi a público perdi desculpas. Cara... pedir desculpas pelo quê??? Por fazer arte??? Por saber lidar com as diferenças com arte??? (Regina).
[011] Lamentavelmente as pessoas se acostumaram com esse conceito de "fast" e nao par am mais pra an alisar com cuidado e atençao mais nada! Se nao vier "embrulhado pra viagem" as pessoas ou ignoram ou fazem polémica, com algo que foi feito justamente para fazer a gente pensar... analisar... observar nossos próprios preconceitos e a avalanche de padrôes que somos constantemente expostos e bombardeados. A arte, assim como a literatura e outras expressôes culturais, tem essa funçao; a de fazer a gente repensar... analisar... Nao é só o belo! Existe todo um conceito por trás. A gente só precisa dedicar um pouco de tempo, carinho e esforço para isso (Vanessa).
[012] A avon usou da arte pra fazer a gente pensar! A arte e a moda tem um casamento antigo, construtivo e saudável (Alice).
No fragmento discursivo [010] Regina apresenta sua perspectiva de que o blackface publicado pela Avon nao constituí uma prática racista, e sim uma expressao artística. A primeira frase - "Nao vi nada de agressivo ou desrespeitoso nessa. maquiagem" - evidencia a presença da negaçao do ato, visto que a autora alega nao ter percebido qualquer prática racista na publicaçao. O uso do léxico 'maquiagem' para nomear o ato, em lugar de 'blackfacé como o fizeram as denunciantes de racismo no tópico anterior, reforça o posicionamento de Regina. A negaçao do ato persiste na frase seguinte - "O povo tá tao nessa onda de politicamente correto, que tá enchendo o saco!" - visto que a frase tenta desqualificar a denúncia tomando-a como sem fundamento, fruto de uma postura exagerada por aqueles que aderiram à 'onda do politicamente correto'. Como a ideologia e as práticas racistas foram naturalizadas em nossa sociedade por um longo período de tempo, é possível inferir que o discurso de Regina é uma evidéncia da dificuldade que mui tas pessoas tem em reconhecer tais ideologias e práticas como sendo de desvio ético/moral, de nao se reconhecerem como racistas (para os casos em que isso é pertinente - aqui nao fazemos referéncias diretas a Regina visto que nao há esta evidéncia nos dados) e de nao reconhecer a legitimidade das denúncias daqueles que as identificam. Por isso, o 'empoderamento' dos negros e das demais vítimas de discriminaçao e suas atitudes de 'protagonismo' sao vistas como um exagero na exigéncia de uma conduta correta.
O uso da expressao 'politicamente correto' é utilizado por Regina de forma depreciativa. Neste sentido, ser politicamente correto pode ser associado à necessidade das pessoas terem de controlar seus discursos e atos afim de nao deixar transparecer, de nao tornar explícito, os preconceitos sociais que carregam no íntimo. Como disse Dijk (2012), as pessoas se preocupam em nao serem rotuladas de racistas. Há que se preservar a boa imagem, mesmo que ela nao corresponda com a realidade.
Regina classifica o blackface publicado pela Avon como arte e qualifica aqueles que denunciaram a prática como racista como pessoas que nao entendem de arte e dos conceitos atrelados às obras artísticas. Vanessa, no fragmento discursivo [011], e Alice, no fragmento discursivo [012], também consideram que se trata de um exercício artístico, sem nenhuma conotaçao racista. Classificar o ato da Avon como arte é uma negaçao do tipo 'negaçao de intençao'. Neste tipo de negaçao defende-se que ocorreu um erro de interpretaçao por parte daqueles que viram racismo onde ele nao existe. No caso em questao, os denunciantes interpretaram racismo onde só existia arte, como se pode verificar na fala de Alice em [012].
Em [011], o texto de Vanessa evidencia que ela qualifica os denunciantes, representados no texto como "as pessoas", como sujeitos que nao param para refletir e analisar corretamente os acontecimentos e acabam por tirar conclusoes precipitadas. Vanessa se utiliza do léxico "fast" da língua inglesa para defender seu argumento de que as pessoas "nao param mais pra analisar com cuidado e atençao mais nada". Está subentendido no texto que a 'atividade artística' publicada pela Avon convidava as pessoas a observar os próprios preconceitos e a "avalanche de padroes que somos constantemente expostos e bombardeados". Vanessa evidencia nao ter percebido que empresas multinacionais como a Avon, que atuam no setor de moda e cosméticos, criam e impoem padroes de beleza para a sociedade, utilizando de seus ricos recursos para nos 'bombardear' discursivamente com suas peças de marketing influenciando nossa percepçao sobre o que é belo e o que nao é. É de conhecimento comum que o padrao de beleza hegemônico é a da pessoa branca, de olhos claros, alta, magra, de cabelos lisos e preferencialmente claros. Há pouco ou nenhum espaço para o reconhecimento da beleza negra. A denúncia de racismo na publicaçao da Avon é também uma forma de protesto contra esse pouco ou nenhum espaço para a beleza negra.
[013] A Avon era uma empresa de maquiagem e promoveu um concurso de MAQUIAGEM. Por isso, uma modelo branca foi pintada de negra com vitiligo, pra representar o poder de transformacao da maquiagem! Nao ha racismo nisso, a maquiadora usou esse projeto pra celebrar a diversidade! Leiam a proposta do concurso, o projeto da vencedora... O título é "somos todos um"... Informem-se mais (Pedro).
No discurso de Pedro em [013] evidencia-se, também, a negaçao de intençao, uma vez que, segundo Pedro, a intençao da autora das fotos era 'celebrar a diversidade'. Nao se pode 'celebrar a diversidade' com uma prática racista que existe desde o século XIX. O blackface está simbolicamente investido de racismo e somente nao é reconhecido como tal porque as elites sociais - que possuem o poder de propagar sua cultura e ideologia pelas mídias, pelo sistema de ensino, pelo sistema político, pelas organizaçoes, pela arte, etc. - negam que práticas como esta sao racistas. A título de exemplo, tomemos outro símbolo. A suástica e a tradicional saudaçao nazista somente sao reconhecidas como símbolos racistas porque as elites mundiais das naçoes vencedoras da II grande guerra estabeleceram esta ideia e a reproduziram na sociedade mundial, de forma que, ainda hoje, passadas algumas décadas após o término da guerra, nao fazemos referencia a esses símbolos senao para criticar a ideología discriminatória que representam. No entanto, práticas como o blackface ainda nao sao reconhecidas como discriminatórias por uma parcela significativa da sociedade.
Ao ser criticada em sua página na rede social após ter publicado as fotos do blackface, a Avon retirou a publicaçao e postou um pedido de desculpas para aqueles que se sentiram ofendidos, sendo os comentários desta segunda publicaçao nossa fonte de dados para esta pesquisa. Apesar da Avon ter reconhecido publicamente seu erro e buscado se retratar, Regina nao concorda com a retrataçao, como se verifica no fragmento discursivo [010] - "Avon tirou do ar o editorial e ainda foi a público perdi desculpas. Cara... pedir des culpas pelo que??? Por fazer arte??? Por saber lidar com as diferenças com arte???" (Regina). Persiste a negaçao da intençao ao qualificar o blackface como arte e negar-lhe a condiçao de prática racista.
[014] Qualqr coisa hj em dia eh racismo, q sacooo.. Entao se eu chama um amigo negro de negao vou estar sendo racista, ? Q gente sem noçao aff (Paula).
A análise do discurso de Paula no texto [014] nos evidencia a presença de outro tipo de negaçao, a negaçao do propósito. O uso do léxico 'amigo' no exemplo apresentado por ela tem como implícito pressuposto que chamar o "amigo negro" de negao é manifestaçao de carinho e amizade e nao de racismo. Paula ainda relativiza as denúncias de racismo ao dizer que qualquer 'coisa' contemporaneamente é taxado de racismo. O discurso de Paula evidencia os efeitos da naturalizaçao do racismo que faz com que seja difícil às pessoas que nao sofrem esse tipo de violencia as percebam, bem como a aqueles que a praticam se reconhecerem racistas. Talvez por isso ela pratica uma inversao ao qualificar como sem noçao os outros que denunciam sua ideologia racista. As práticas discursivas de inversao serao melhor analisadas no próximo tópico.
O contra-ataque à denúncia de racismo
Nao raro, as negaçoes de racismo vem acompanhadas de um contra-ataque à aqueles que o denunciam, a quem Dijk (2012) chama de antirracistas. Segundo este autor, os contra-ataques sao movimentos estratégicos que objetivam desconstruir o discurso antirracista. Très estratégias se destacam, sendo elas: a pressuposiçao da 'verdade', onde as práticas racistas sao
negadas como tal e defendidas como sendo expositoras de uma 'verdade' social que nao se quer enfrentar; o movimento estratégico da reversao, que consiste em qualificar como sendo os verdadeiros racistas aqueles que denunciam as práticas racistas; a inversao de acusaçoes, que objetiva estabelecer como verdadeiras vítimas aqueles que sao acusados de racismo (DIJK, 2012).
[015] A maldade está nos olhos de quem vê. (Carolina)
[016] A maldade.está nos olhos de quem vê. Eu sou negra. (Carolina)
[017] Eu sou negra e naum vi como racismo , as vezes as pessoas veem demais... (Marcela)
A análise semántica do texto [015] de Carolina evidencia que está implícita a perspectiva de que o racismo está nos olhos daquele que o enxerga, e nao na prática do racismo em si. No texto seguinte, em [016], objetivando legitimar seu ponto de vista, Carolina repete a frase - possivelmente por erro de digitaçao há um ponto final entre as palavras 'maldade' e 'está' - acrescentando a informaçao de que é negra. Ao se autodeclarar negra Carolina pretende se apresentar como alguém habilitada a avaliar a prática da Avon como racista ou nao, uma vez que é o grupo social vítima de discriminaçao que tem legitimidade para tratar do tema, como foi defendido por Flávia em [004], Cleide em [008] e Emilia em [009]. Ao utilizar o léxico 'maldade' Carolina expande sua perspectiva para outras violências além do racismo. A palavra 'maldade', portanto, pode ser substituída tanto por racismo quanto por estupro, roubo, assédio, assassinato ou qualquer outra que possa ser adjetivada como uma 'maldade'. Logo, sua afirmaçao poderia ser reescrita assim: 'o estupro está nos olhos de quem vê'; 'o assédio está nos olhos de que vê'; 'a violência está nos olhos de quem vê', argumento que fere qualquer principio lógico pautado no bom senso. Está implícita na afirmaçao de Carolina e explícita na de Marcela [017] a negaçao do ato, justificado pelo fato de nao terem observado qualquer prática racista no blackface publicado pela Avon. Marcela também objetiva legitimar seu ponto de vista ao se autodeclarar negra - se nao viu é porque nao existiu, como se toda a pessoa negra estivesse capacitada para reconhecer o racismo. No entanto, como já argumentado nos tópicos anteriores, as práticas racistas estao naturalizadas na sociedade e nem sempre sao facilmente identificadas. As práticas racistas sao muitas vezes sutis, o que dificulta que sejam reconhecidas como tal.
A defesa de que "a maldade está nos olhos de quem vê" (Carolina) se caracteriza como uma pressuposiçao da 'verdade', que nega o racismo justificando que sao as pessoas que, as vezes, veem demais, como defendeu Marcela em [017].
[018] Uuui..só negro entende racismo...vc está sendo racista entao..ja vi muito racismo e siu completamente contra..e mesmo sendo branca(meu pai é negro) entro em qualquer briga por racismo...agora seje menas com essa de "só negro pode dizer se é racismo ou nao" eu nao sou cega...tbm sei ver o rascismo. (Joseane)
No fragmento discurso [018] o discurso de Joseane nos apresenta um exemplo de reversao. Joseane rebate o argumento de que somente o negro tem legitimidade para discutir o racismo defendendo que esse tipo de raciocínio configura, também, uma prática racista para com aqueles que nao sao negros e se sentem capazes de o fazê-lo. Joseane se auto declara branca mas buscou se legitimar no debate ao se declarar como filha de um negro. É importante observar que a discussao em torno do ser ou nao negro se limita à cor da pele. O discurso silencia outros fatores que envolvem a raça como as relaçoes sociais e de parentesco, a genética - que vai além da cor da pele - e os aspectos culturais, entre outros, que juntos podem melhor definir nossos vínculos étnico-raciais. Ao rebater a legitimidade exclusiva do negro para avaliar as práticas racistas Joseane defende que outras pessoas nao negras estao capacitadas para identificálo, como evidencia a sentença: "eu nao sou cega... tbm sei ver o racismo" (Joseane). É evidente que as pessoas nao negras podem perceber práticas racistas contra os negros ou pessoas de outras raças. No entanto, quem nao vivencia cotidianamente a violência racista como vítima terá sempre que desenvolver uma sensibilidade para reconhecê-la. Is to ocorre principalmente porque a naturalizaçao do racismo obscurece nossa percepçào - e isto é válido para pessoas negras também, já que a pesquisa evidenciou que pessoas que se autodeclararam negras também demonstraram dificuldades em identificar o racismo em algumas práticas sociais - nao apenas no que se refere a perceber determinadas práticas como racistas como a se perceber como alguém que também pode estar empreendendo práticas racistas.
[019] Se vc nunca foi branca como sabe que racismo contra brancos nao existe???? Eu já tentei namorar um negro e a familia dele nao me aceitou. E ai??? Vc disse que sabe como é ser rejeitada por conta da raça, pois saiba que seu comentario é sim arrogante, preconceituoso e totalmente fora da realidade. Inclusive já tive amigos negros que tinham preconceito contra eles mesmos, escutei inclusive deles que nao namoravam pretinhas (comentário deles mesmos nao meus), que só queriam branquinhas loiras. Entao nao me venha pregar uma coisa que existe sim, em todos os sentidos. (Amélia)
O texto de Amélia em [019] caracteriza-se como um exemplo de inversao de acusaçoes. Amélia inicia seu discurso questionando uma interlocutora negra. Em seu texto, Amélia tenta justificar que existe também racismo contra a pessoa branca. O texto de Amélia relaciona-se interdiscursivamente com o de Flávia em [004]. Cabe lembrar que, as sim como disseram Johnson e Bankfead (2013), bem como Souza (1983), a estética branca é hegemônica e ocupa uma posiçao de poder na hierarquia social, que lhe permite definir e legitimar o que deve ser considerado belo e o que deve ser considerado feio. Portanto, nao se pode incluir a raça branca no conceito de minoria e, embora pessoas brancas também possam estar sujeitas a situaçoes específicas e eventuais de discriminaçao, nao podem ser declaradas como vítimas de racismo. Amélia busca inverter a lógica do racismo e vitimizar o grupo social que ao longo de muitos séculos tem promovido o abuso de poder contra outros grupos, escravizando, segregando, humilhando, ridicularizando, assassinando, entre tantas outras práticas nefastas. Amélia pode nao ter percebido que quando seus amigos negros diziam que nao queriam namorar 'pretinhas' e sim 'brancas de cabelos loiros', isto se dá justamente pela hierarquia racial, social e de valores que se estabeleceu entre brancos e negros. Todos os instrumentos de poder a serviço da elite social - que é branca - como o sistema de ensino, a mídia, a indústria da moda, etc., reproduz a estética, o modo de vida, a cultura do 'homem' branco como sendo aquela a que se deve admirar e assumir. Nao é sem fundamento que tais amigos negros supervalorizaram a beleza branca, que se tornou um padrao estético mundial, e passaram a desejar mulheres que atendiam a este padrao, desvalorizando ou nao reconhecendo a beleza da mulher negra. As práticas racistas sabem também ser sedutoras e nao raro conseguem ludibriar e angariar a adesao daqueles que mais a deveriam combater.
Consideraçôes fináis
Esta pesquisa teve por objetivo analisar os diferentes posicionamentos discursivos manifestados por usuários de redes sociais sobre práticas denunciadas como racistas. Para atender a este objetivo, realizou-se uma pesquisa de natureza qualitativa que analisou os discursos presentes em comentários realizados por usuários da rede social Facebook, em uma postagem da empresa de cosméticos Avon relacionada a uma prática de blackface. Com base nos dados encontrados foi possível classificar os discursos em três diferentes categorías, sendo elas: a denúncia de racismo; a negaçao de racismo; e o contra-ataque à denúncia de racismo.
Na primeira categoria encontram-se os discursos que denunciam o blackface como uma prática racista, visto que impede a representatividade e o protagonismo negro, bem como por estar historicamente associada a uma cultura racista que se utilizava, e ainda se utiliza, do humor e da zombaria para depreciar a pessoa negra. Na segunda, foram agrupados e analisados os discursos que negaram a prática do blackface, publicado pela Avon, como prática racista e a designaram como arte e expressao artística. Na terceira e última categoria foram selecionados e analisados os discursos de contra-ataque às denúncias de racismo, que objetivavam inverter a lógica racista posicionando os denunciantes como os verdadeiros racistas.
Através da análise crítica do discurso teorizada por Dijk (2012, 2013) tornou-se possível compreender as relaçoes de poder que permeiam a sociedade (instituiçoes como a Avon e pessoas como os usuários da rede social analisada) no estabelecimento de relaçoes de dominaçao, marcado por uma estética branca hegemônica, em consonancia com as observaçoes de Sans one (1996), que produz desigualdades, delimitando quais espaços o negro pode ou nao ocupar, como os do fashionismo e da beleza.
A análise crítica do discurso se mostrou adequada e eficiente na pesquisa, visto que permitiram extrair dos diferentes discursos os elementos linguísticos necessários para se aprofundar na análise dos dados. Tal como defendido por Dijk (2012), a pesquisa evidenciou que a negaçao ao racismo é uma forma de autopreservaçao da imagem positiva dos agentes sociais, visto que ninguém quer ser percebido como racista. Associada à negaçao, o contra-ataque à denúncia de racismo foi evidenciado como um movimento estratégico de reversao que buscou qualificar os próprios negros, bem como os nao negros que denunciaram o blackface como prática racista, como os verdadeiros algozes deste fato social.
A pesquisa evidenciou que as práticas racistas continuam disseminadas na sociedade. Mas, seu reconhecimento ainda é dificultado por sua naturalizaçao e silenciamento, como se vivêssemos em uma democracia racial. Embora os negros constituam o principal grupo social brasileiro vítima de racismo, nem todas as pessoas autodeclaradas negras reconheceram o blackface como prática racista, exemplificando a dinámica das relaçoes de poder e como a difusao das ideologias dominantes atingem a mente das pessoas de forma simbólica, tornando natural a reproduçao das práticas sociais capazes de manter o status quo. Por outro lado, pessoas autodeclaradas 'brancas' foram capazes de perceber no blackface uma prática reprodutora da cultura racista que se mantem ativa em nossa sociedade. A pesquisa evidenciou, por tanto, que a percepçao do blackface como arte ou prática racista nao está diretamente relacionada à cor da pele de quem a analisa, mas à sua percepçao cognitiva embasada na sua cultura, experiência de vida, capacidade crítica, conhecimento histórico, entre outros fatores. Adicionalmente, destaca-se que a arte e as expressoes artísticas nao estao isentas das relaçoes de poder e dos processos de dominaçao e por isso nao sao argumentos válidos para negar a existência do racismo.
A pesquisa também evidenciou que o racismo é pouco debatido e estudado na sociedade, o que contribui para a sua perpetuaçao. Notou-se que um número significativo de pessoas que postaram comentários na publicaçao analisada estavam desinformadas em relaçao à temática do racismo, da história, da cultura e da escravizaçao dos povos negros trazidos ao Brasil. A desinformaçao nao permite que o debate em torno deste importante problema social leve à conscientizaçao da sociedade e à necessária mudança social que corrija este desvio. Em relaçao à esta questao, a pesquisa demonstrou a necessidade das pessoas negras, ainda mais do que as pessoas brancas, por serem as principais vítimas do racismo na sociedade brasileira, se instruírem em relaçao às relaçoes de poder estabelecidas, ao abuso de poder, às formas de dominaçao, que promovem a desigualdade e a injustiça social (DIJK, 2012; 2013), empoderandose e assumindo o protagonismo necessário para combaterem o racismo.
Nao obstante, acredita-se em alternativas de resistência para o enfrentamento dos discursos dominadores. Um exemplo recente remete ao desfile da LAB na 42a ediçao da Sao Paulo Fashion Week de 2016 onde a empresa Laboratório Fantasma (Lab), dos rappers Emicida e Evandro Fióti, apresentou uma coleçao inspirada na lenda de Yasuke, negro de Moçambique que teria se tornado samurai no Japao do século XVI (O GLOBO, 2016) com 90% do seu casting com modelos negros. Estes protagonismos em espaços típicos de elites simbólicas (DIJK, 2008) poderiam contribuem para alterar a representaçao social dos negros nos espaços organizacionais e sociais criando identidades positivas.
O presente estudo contribuí com a área de Estudos Organizacionais, inicialmente, por corroborar com um esforço de pesquisadores brasileiros (LAGE; SOUZA, 2016; NASCIMENTO et al., 2015; TEIXEIRA, 2015; ROSA, 2014; CONCEIÇÂO, 2009) em problematizar as relaçoes raciais no campo dos estudos organizacionais, bem como, especificadamente, ao possibilitar que se coloque em dis cus sao a falta de espaço e reconhecimento que as organizaçoes que atuam no mundo fashionista e da beleza oferecem à mulher negra, seja como profissional - pela ausência de modelos negras em números representativos -, seja como clientes, ao continuar reproduzindo a estética 'branca' como padrao hegemônico a ser admirado e perseguido. A ampliaçao da discussao em torno da temática do racismo é imprescindível para que a sociedade possa promover a extinçao desta forma de desigualdade e injustiça social e seja capaz de abrir espaço para que a beleza de mulheres de 'outras cores' possam ser valorizadas.
1 Estas informaçoes foram colhidas no site da 20a Ediçao do Prêmio Avon de Maquiagem, disponível no link: http://www. avon.com.br/novidades/destaques/20a-edicao-dopremio-avon-de-maquiagem
2 Retirado de: http://chanteUewinnie.com/portfolio/
3 Retirado de: http://www.waymodel.com.br/ blog/2014/10/shooting-nicole-lindner-2/
4 de: https://www.facebook.com/photo.
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Recebido em 09.09.2016. Aprovado em 17.11.2016
Avallado pelo sistema double blind review
DOI: http://dx.doi.org/10.12712/rpca.v10i4.818
Mariana Luisa da Costa Lage
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora/MG, BRASIL
Denis Alves Perdigâo
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora/MG, BRASIL
Felipe Gouvêa Pena
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte/MG, BRASIL
Matheus Arcelo Fernandes Silva
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte/MG, BRASIL
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Copyright Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Turismo Oct-Dec 2016
Abstract
In this article, we analyzed speeches on blackface in the fashionism and beauty world from the demand for the black representation and protagonism as opposed to a artistic freedom of expression in the area. A case of blackface published by cosmetics company Avon in its social network was investigated. The analysis consisted of present speeches in the comments registered in that publication. Data were categorized and analyzed based on the aspect of critical discourse analysis theorized by Dijk (2012). It was evident that racist practices are still widespread in society and its recognition is still hampered by his naturalization. It was also shown that the perception of blackface as art or racist practice is not directly related to the skin color of the person who looks but your cognitive perception grounded in their culture, life experience, critical skills, historical knowledge, among other factors.
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