O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade
Tal qual o poeta, cremos que a psicopatologia poderia anunciar que tem como sua matéria a vida presente, os seres humanos do presente, o tempo presente com seu variado cortejo de angústias, medos e esperanças. É disto que tratamos neste editorial, do presente momento no Brasil.
Partimos do suposto que se designamos como psicopatologia(s) o esforço de apreender e articular discursivamente o sofrimento psíquico, em seus infinitos contornos e confıguraçöes - o que será sempre feito de forma incompleta, pois é de um sujeito que se trata -, necessariamente ela nos imporá uma tomada de posiçâo ética diante do padecer humano (Pereira, 1998).
Como aponta Umberto Eco (2000), a "dimensao ética começa quando entram em cena outros" (p. 42), quando reconhecemos o imperativo de respeitar nos outros as mesmas exigencias que consideramos irrecusáveis para nós mesmos. Lembra o mesmo autor que tal posiçâo ética diante dos outros é uma aquisiçâo relativamente recente na história da civilizaçâo humana. E a civilizaçâo, a história nos mostra, é uma conquista provisória e frágil. Podemos constatar que parece nao existir aqui algum efeito "catraca", que bloqueie os retrocessos civilizatórios, pois o repertório humano nao encontra limites, em um sentido ou em outro, do mais elevado ao mais baixo.
Assim, toda psicopatologia precisa explicitar a visâo de homem e de mundo da qual é tributária e nenhuma escapa de se confrontar com os múltiplos determinantes da fragilidade humana: da natureza que nao responde aos nossos anseios, da vulnerabilidade do corpo ao desamparo original, das renúncias impostas pelo desenvolvimento da cultura aos precários laços sociais nela constituidos, nada é certo, seguro e garantido. É com essa 694 mistura caótica que nos deparamos quando nos dispomos a escutar e abordar o mal-estar e o sofrimento psíquico de outras pessoas, em seus variados contextos de vida. E é com isso que todos nós temos que lidar: se algo é certo, é a incerteza.
Conforme já assinalado, o ato fundador da psicopatologia é o interesse genuino pela alteridade, pela subjetividade de outros. E esse interesse é indissociável do respeito e do reconhecimento mútuos implicados em todo verdadeiro encontro humano. As diferenças devem caber no espaço intersubjetivo que se cria a cada encontro, e é isso que permite o cuidado com os outros.
Em suma, concluimos que a razâo de ser da psicopatologia nao pode ser outra senao almejar contribuir para o cuidado do padecer humano. E, se concordamos com Fernando Pessoa (1955) quando diz que "A alma de outrem é outro universo" (p. 159), tal cuidado sempre se dará no ámbito de uma compreensao reconhecidamente limitada, inexata e temporária daquele que sofre.
Nesse sentido, é evidente que a psicopatologia, como disciplina que se fundamenta na investigaçâo da diferença tida como algo de radical e insuperável, é o avesso da violencia e da intoleráncia - nascidas da certeza de si e degeneradas no desaparecimento do subjetivo em face a supostos ideais absolutos - que negam e suprimem a diferença e a alteridade. Eis aqui as dimensöes éticas e políticas de uma psicopatologia digna do nome, o que năo podemos deixar de repetir enfaticamente.
Por fim, acreditando que a poesia possa ser uma boa guia, e inspirados pelo poeta, sugerimos que sigamos presos a vida, que olhemos solidariamente para os que, como nós, "estăo taciturnos mas nutrem grandes esperanças" e, sobretudo, que năo nos afastemos, "năo nos afastemos muito" neste largo presente (Andrade, 1940/2012, p. 34).
Citaçao/Citation: Oda, A. M. G. R., Banzato, C. E. M., Pereira, M. E.C., Dantas, C. de R., Dalgalarrondo, P. (2018, dezembro). Editorial. Psicopatologia e alteridade: dimensöes éticas e políticas. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 21(4), 693-696. http:// dx.doi.org/10.1590/1415-4714.2018v21n4p693.1
Editores do artigo/Editors: Ana Maria Galdini R. Oda e Sonia Leite
Recebido/Received: 16.11.2018 / 11.16.2018 Aceito/Accepted: 20.11.2018 / 11.20.2018
Copyright: © 2009 Assoc^ăo Universitaria de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental/ University Association for Research in Fundamental Psychopathology. Este é um artigo de livre acesso, que permite uso irrestrito, distribuyo e reprod^ăo em qualquer meio, desde que o autor e a fonte sejam citados / This is an open-access article, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original authors and sources are credited.
Ana Maria Galdini Raimundo Oda
Psiquiatra; Doutora em Ciencias Médicas; Professora do Departamento de Psicología Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciencias Médicas da UNICAMP (Campinas, SP, Br). Editora da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental.
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Cláudio E. M. Banzato
Psiquiatra; Doutor em Filosofia; Professor Titular do Departamento de Psicología Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciencias Médicas da UNICAMP (Campinas, SP, Br). Rua Tessália Vieira de Camargo, 126 - Cidade Universitaria "Zeferino Vaz"
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Clarissa de Rosalmeida Dantas
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Mario Eduard°Costa Pereira
Psiquiatra; Psicanalista; Professor titular de Psicopatologia Clínica pelo Laboratoire de Psychopathologie Clinique et Psychanalyse da Aix-Marseille Université (França); Livre-Docente em Psicopatologia do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciencias Médicas da UNICAMP (Campinas, SP, Br), onde dirige o Laboratorio de Psicopatologia: Sujeito e Singularidade (LaPSuS); Diretor do Núcleo de Säo Paulo do Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise.
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Paulo Dalgalarrondo
Psiquiatra; Professor Titular do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciencias Médicas da UNICAMP (Campinas, SP, Br).
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Referencias
Andrade, C.D. de (2012). Măos dadas. In C. D. de Andrade, Sentimento do mundo (p. 34). Săo Paulo, SP: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1940).
Eco, U. (2000). Quando outros entram em cena, nasce a ética. In U. Eco, C.M. Martini, Em que creem os que nao creem? (p. 42-50). Rio de Janeiro, RJ: Record.
Pereira, M. E. C. (1998, março). Formulando uma Psicopatologia Fundamental. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, /(1), 60-76.
Pessoa, F. (1955). Como é por dentro outra pessoa. In F. Pessoa, Poesías Inéditas (1930-1935)(p. 159). Lisboa, Portugal: Ática. Recuperado em 11 nov. 2008, de: <http://arquivopessoa.net/textos/2784>.
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1 Universidade Estadual de Campinas - Unicamp (Campinas, SP, Brasil)





