Resumo
A presente investigação se insere no ámbito de trabalhos voltados â História da Ciencia e ao Ensino de Ciencias e de Biologia e objetiva explicitar algumas ideias biológicas presentes na primeira metade do século XX que estiveram associadas ao movimento eugenico, bem como, refletir sobre como essas ideias ressoaram no campo da literatura ficcional daquele momento histórico. Para tanto, por meio da análise historiográfica documental, investigamos dois importantes autores da época: Renato Ferraz Kehl (1889-1974) e Monteiro Lobato (1882-1948). Buscamos traçar algumas aproximares entre os discursos biológicos presentes no ámbito académico com outras instáncias sociais, em específico, com a literatura, evidenciando assim relaçöes que se estabelecem entre ciencia e sociedade. Foram apontadas aproximaçöes e/ou distanciamentos nos discursos dos autores em relaçâo as seguintes temáticas: Questâo racial; Determinismo Biológico e Visâo da Ciencia; Conflitos entre ambiente versus hereditariedade; Visâo a respeito da mulher. Por fim, foi discutido como a análise do movimento eugenico e as obras desses autores podem contribuir para o entendimento da articulaçâo entre ciencia e pensamento literário de uma época. No campo educacional, concluiu-se que o estudo dessa temática pode auxiliar a entender que a ciencia está imersa em valores políticos, sociais, económicos, culturais e que os discursos científicos influenciam outras instáncias sociais. Destacou-se também que é importante ver a ciencia com um olhar crítico, de modo a combater discursos que possam levar a discriminaçâo e a exclusâo social. Além disso, o estudo contribui com a reflexâo a respeito de uma obra literária, contextualizando-a em relaçâo ao período em que foi escrita.
Palavras-chave: História da Ciencia; Eugenia; Literatura; Ensino de Biologia.
Abstract
The present research is part of the work focused on the History of Science and the Teaching of Science and Biology and aims to explain some biological ideas present in the first half of the twentieth century, that were associated with the eugenic movement, as well as to reflect on how these ideas resonated in the fictional literature field of that historical moment. In order to do so, through documentary historiographical analysis, we investigated two important authors of the time, Renato Ferraz Kehl (1889-1974) and Monteiro Lobato (1882-1948). We seek to draw some approaches between the biological discourses present in the academic scope with other social instances, in particular, with the literature, thus evidencing relationships that are established between science and society. Approaches and/or detachments were pointed out in the authors discourses in relation to the following themes: Racial issue; Biological Determinism and Science Vision; Conflicts between environment versus heredity; Vision about the woman. Finally, it was discussed how the eugenic movement analysis and these authors works can contribute to the understanding of the articulation between science and literary thought of an epoch. In educational field, we conclude that the study of this theme can help to understand that science is immersed in political, social, economic, cultural values and that scientific discourses influence other social instances. We also emphasized that it is important to see science with a critical look, in order to combat discourses that can lead to discrimination and social exclusion. In addition, we contribute to the reflection about a literary work, contextualizing it in relation to the period in which it was written.
Keywords: History of Science; Eugenics; Literature; Teaching of Biology.
INTRODUÇÂO
O presente artigo se insere no ámbito de trabalhos voltados â História da Ciencia e ao Ensino de Ciencias e de Biologia. Em um primeiro momento, buscamos explicitar como algumas ideias biológicas presentes na primeira metade do século XX estavam articuladas com o movimento eugenicoi, bem como, refletir em como essas ideias ressoaram no campo da literatura ficcional da época. Num segundo instante buscamos, por meio da análise de dois importantes autores da época - Renato Ferraz Kehl (1889-1974) e Monteiro Lobato (1882-1948) -, traçar algumas aproximares entre os discursos biológicos presentes no ámbito académico com outras instáncias sociais, em específico, com a literatura, evidenciando relaçöes que se estabeleciam entre ciencia e sociedade. Por fim, discutimos como a análise desse momento histórico e das relaçöes estabelecidas entre esses dois autores pode contribuir para o entendimento da articulaçâo entre ciencia e pensamento literário de uma época, bem como, para o Ensino de Ciencias e de Biologia2.
A utilizaçâo de estudos historiográficos tem sido considerada importante para compreender como os contextos de cada momento histórico influenciam a visao científica dos pesquisadores e como sao cunhados conceitos e formuladas ideologias, além de permitir, a quem estuda a construçao do conhecimento científico, ter uma visao mais ampla e com maior imparcialidade, ainda que um olhar neutro e imparcial nao seja totalmente possível (Martins, 2005). Parece crucial, para autores como Martins (2007), que o ensino de Ciencias e de Biologia tenha uma fundamentaçao histórica. Matthews (1995) defende que, para a ciencia obter sucesso e ser valorizada, é fundamental que professores e profissionais do ensino tenham incluídos, em seus cursos de formaçao, conhecimentos de história e filosofía da ciencia. Pois sao esses professores que, segundo Martins (2007), ao utilizarem a História e Filosofía da Ciencia, podem propiciar aos seus alunos uma compreensao mais elaborada do conhecimento científico e possibilitar que construam de forma mais adequada os seus próprios conceitos. Em contrapartida, o mesmo autor também aponta para uma grande defasagem na utilizaçâo da História da Ciencia no ámbito da sala de aula, comprometendo uma aprendizagem mais contextualizada da natureza da Ciencia.
A literatura aponta que existem barreiras a serem superadas para a inserçao da História e Filosofía da Ciencia - HFC no ensino escolar. Entre essas barreiras estao as distorçöes presentes nos livros didáticos e a sobrecarga dos professores por motivo de grande número de aulas e de alunos, e, portanto, muitas vezes, falta de tempo para a preparaçao de aulas contextualizadas e dinámicas, como aponta ElHani (2006). Esse mesmo autor também relata que, muitas vezes, os professores se formam com concepçöes pouco científicas, provindas de uma formaçao academica com escassa ou mesmo nenhuma abordagem nessa vertente, o que torna bastante difícil trabalhar as visöes dos alunos perante a história da ciencia. Nesse sentido, Caldeira et al. (2011) destacam que a maioria dos professores nao possui fundamentaçao histórica a respeito da construçao dos conceitos científicos, indicando a necessidade da criaçao de espaços para a reflexao de professores a respeito de HFC e da elucidaçao de que estudar aspectos histórico-filosóficos da ciencia propicia a quebra de falsos paradigmas e de preconceitos. A inserçao da HFC com maior enfase nos cursos de Licenciatura, portanto, para esses autores, poderia ser uma soluçao para o professor poder enfrentar o desafio de trabalhar o conhecimento científico de modo contextualizado.
Silva e Martins (2003) relatam que muito é afirmado a respeito das vantagens e das potencialidades de se inserir HFC nas aulas, porém pouco é elucidado sobre como trabalhar esses aspectos com os alunos. Todavia, algumas pesquisas indicam caminhos e possibilidades na inclusao da HFC dentro da sala de aula. Por exemplo, Oki (2008) demonstrou que a HFC pode auxiliar os alunos a perderem a visao ingenua da ciencia como atividade isenta de erros ou como obra definitiva e, sequencialmente, a construírem sobre a ciencia uma visao crítica. Vannucchi (1996) também reforça a vantagem da utilizaçao da HFC associada a uma metodologia emoldurada na epistemologia construtivista, na qual os alunos sao sujeitos ativos da construçao do conhecimento, a eles propiciando o desenvolvimento da criatividade, da autonomia e de habilidades cognitivas e argumentativas. Assim, para que esses entendimentos se construam na aprendizagem dos alunos, é fundamental abordar a ciencia de forma histórica.
Segundo Meglhioratti, Andrade e Caldeira (2010), trabalhar com aspectos históricos pode evidenciar como a ciencia se articula com diferentes ideologias e como estas perpassam os discursos científicos de cada época, âs vezes de forma visível, outras de forma implícita. As autoras ainda destacam que utilizar aspectos da HFC no Ensino de Ciencias e de Biologia é crucial para que se formem alunos e cidadaos capazes de perceber que a ciencia näo é neutra e que está sempre impregnada de fatores históricos, sočiais e culturais.
Existem articulaçöes entre ciencia e ideologia, estando a ciencia estreitamente associada a diferentes campos sociais e ressignificando os discursos presentes na sociedade, ressignificaçâo que ocorre ao mesmo tempo em que ajuda a reafirmar esses próprios discursos sociais (Lewontin, 2000). Nessa premissa, Galväo (2006) mostra o quäo importante é perceber que existe um diálogo constante entre a ciencia e saberes provindos de outros contextos sociais e culturais, por exemplo, a literatura. Esse autor também demonstra que algumas poesias remetem a conhecimentos científicos extremamente elaborados para a época em que foram escritas. Assim, o profissional que leciona precisa estar atento para a interaçâo conceitual que existe entre o ambiente escolar e as disciplinas que leciona, o que é o caso de Física, Química, Biologia, Geografia, etc., e também entre ciencia e sociedade. Nesse sentido, é importante um conhecimento que aproxime as ciencias naturais e das humanidades, como apontam Hartmann e Zimmermann (2007).
Podemos ainda destacar que, de acordo com Borim (2015), inserir livros de ficçâo científica no ensino de Ciencias pode ser uma experiencia bastante gratificante e com resultados plausíveis. A autora relata que quase 70% dos alunos gostam do contato com a literatura e preferem esse tipo de aula em relaçâo as tradicionais. Além disso, a leitura de ficçâo leva os alunos a conseguirem assimilar melhor conteúdos e relacioná-los com problematizaçöes do cotidiano. Assim, portanto, além de relevante, essa prática provoca reflexäo e sensibilizaçâo. Da mesma forma, segundo Góes et al. (2018), os alunos, quando em contato com a ficçâo científica, tendem a despertar olhares mais críticos para o momento atual e o estímulo para as discussöes acaba sendo consideravelmente ampliado.
Compreendendo essa forte relaçâo que pode existir entre ciencia e literatura, analisamos a presença de ideias biológicas, bem como, as ideologias que elas ressoam, em dois autores nacionais: Renato Ferraz Kehl (1889-1974) e Monteiro Lobato (1882-1948). O estudo desses autores foi escolhido pela importancia que eles tiveram no início do século XX. Renato Kehl foi o principal difusor das ideias eugenicas no Brasil. Ele fundou em 1918 a Sociedade Eugenica de Säo Paulo, com 140 médicos envolvidos, e foi considerado o maior propagandista da eugenia no país, como aborda Fiuza (2016). Do outro lado, como aponta Silveira (2013), Monteiro Lobato atuou e foi influente em diversos setores - por exemplo, foi promotor de justiça, fazendeiro, escritor, crítico, cronista, entre outras atividades - deixando um forte impacto na literatura nacional, principalmente na escrita infantil, que perdura até os dias atuais. Além disso, escreveu um romance que se mostrou, como muitas de suas obras, bastante conectado com a ciencia de seu tempo - romance que é objeto de análise no presente artigo. Desse modo, avaliamos um autor representante do ámbito académico e das ideias científicas do início do século XX e um autor que participa do campo literário.
Algumas pesquisas buscam conectar as ideias de Renato Kehl a Monteiro Lobato, explicitando uma possível amizade entre eles, como afirma Moreira (2011), fundamentadas em fragmentos de cartas trocadas entre os autores. Em contrapartida, encontramos autores como Alves Filho (2016), que discordam dessa estreita conexäo de Monteiro Lobato com Renato Kehl e o movimento eugenico, buscando desmistificar essas ligaçöes, que teriam criado, ao longo dos anos, uma falsa impressäo acerca dos escritores brasileiros. Da mesma forma, existem controvérsias em reäo as ideias raciais de Lobato, sendo que autores, como Morais (1997), tentam entender as origens de seus posicionamentos e garantem que há racismo em suas escritas. Por outro lado, por exemplo, Ribeiro (2015), em sua breve análise de "O Presidente Negro", concluí que Lobato elaborou uma fiäo com fundamento no que existia naquele momento histórico, em que as teorias raciais estavam no cerne do debate do conhecimento biológico e que eram bastante difundidas pela elite, sendo esse pensamento muito naturalizado entre os pensadores da época. O autor ainda ressalta que uma obra é fruto de seu tempo e que devemos considerar os contextos histórico-sociais ao avaliá-la.
Entendemos, portanto, a complexidade de estabelecer uma reäo direta e estreita entre as ideias de Renato Kehl e as de Monteiro Lobato ou, até mesmo, julgar quaisquer posicionamentos deles devido ao distanciamento histórico já existente. Compreendemos, contudo, que a obra de Lobato é imersa em ideologias e em ideias científicas presentes no momento de sua escrita e que os discursos ideológicos desse período podem, sim, ter permeado a sua obra. Desse modo, buscamos traçar algumas aproximaçöes entre as ideias biológicas presentes no discurso de Renato Kehl e a obra o "O Presidente Negro" (2009), de Monteiro Lobato. A escolha de avaliar as ideias biológicas de Renato Kehl aconteceu por ser um representante do movimento eugenico brasileiro, sendo um dos seus principais divulgadores, e por ter trocado correspondencias com Lobato. Entendemos que isso näo significa uma conexäo direta entre as ideias dos autores, mas aproximaçöes e evidencias de como o discurso científico pode ser ressignificado na literatura.
No campo educacional, compreendemos que as aproximaçöes entre esses autores podem auxiliar a entender nao só que a ciencia está imersa em valores e que os discursos científicos influenciam outras instancias sociais, como também que se pode refletir a respeito de uma obra literária, contextualizando-a ao mundo científico no período em que foi escrita. Assim, a apresentaçao desse episódio histórico relativo ao movimento eugenico, amparado em ideias biológicas da época, e sua articulaçao com a literatura, podem contribuir para o Ensino de Biologia, oferecendo uma visao humanizada da ciencia, compreendendo-a como procedimento social, histórico, articulado com visöes de mundo - o que nem sempre leva a benefícios para todos. Destacamos também que compreender como o discurso científico foi utilizado para justificar açöes que levaram â exclusao social possibilita um entendimento de que é necessária uma visao crítica do conhecimento científico e uma postura de combate a discursos discriminatórios, mesmo quando esses sao originados no ámbito da ciencia. Entendendo as relaçöes possíveis entre Ciencia, Literatura e Ideologia, o texto a seguir apresenta, primeiramente, um breve relato a respeito do movimento eugenico brasileiro e suas principais implicaçöes sobre o pensamento e a ideologia da época. Depois aborda algumas possíveis conexöes entre Renato Kehl e Monteiro Lobato descritas já em trabalhos académicos. Em seguida, descreve a metodologia utilizada na pesquisa, dialoga e busca aproximaçöes e distanciamentos entre os documentos analisados de Renato Kehl e de Monteiro Lobato. Por fim, explicita uma reflexao acerca de como esse caso pode ser utilizado no Ensino de Ciencias e de Biologia.
O MOVIMENTO EUGENICO BRASILEIRO
Francis Galton, em 1883, utilizou o termo "Eugenia" para denominar uma ciencia que melhoraria a raça3 humana. O aperfeiçoamento de determinadas espécies com cruzamentos "corretos" e previamente pensados já era algo praticado com outros animais e plantas, porém essa prática ainda nao tinha sido ponderada para humanos. Iniciavam-se, portanto, as primeiras ideias de melhoramento de raça para o homem, o que, segundo Galton, formaria uma sociedade melhor em diversos aspectos e levaria, como consequencia, ao progresso das sociedades (Kinoshita & Rocha, 2013). Moreira (2011) complementa que o termo "eugenia" significa "bem-nascido" e que a seleçâo seria, portanto, nao natural, mas conduzida. Smaniotto (2012) ainda reitera que as apropriaçöes e as conotaçöes que a palavra "evoluçao" tomaría em diversas sociedades do mundo a partir dos estudos de Darwin dariam âs pessoas a ideia de evoluçao como uma melhoria ou "progresso" e seriam essas concepçöes que levariam estudiosos como Galton a buscar aplicabilidade na espécie humana. É interessante ressaltar que esse entendimento de evoluçao biológica como algo linear, ou seja, em constante progresso, precisa ser superado e perdura até os dias atuais, como apontam D'Ambrosio, Freitas, Santos e Megid Neto (2016). As possibilidades de "melhoria" na espécie humana difundidas pelo movimento eugenico, segundo Kinoshita e Rocha (2013), tomaram ares fortes em diversos países distribuídos pelo globo e, tratando-se da América do Sul, tiveram expansao na Argentina, na Bolívia, no Chile, no Peru, no Uruguai, na Venezuela, no Paraguai e em nosso país, o Brasil.
Góes (2015) indica que o significado original da palavra "raça" estava associado a família, a parentesco, ganhando outros tipos de conotaçao ao longo dos anos. Por exemplo, o autor indica que os estudos a respeito de raças de seres humanos acabaram se associando âs investigaçöes de cránios e cadáveres, buscando diferenças morfológicas e elementos para uma suposta superioridade do homem perante a mulher, do branco perante o negro - derivando em discursos preconceituosos que ainda reverberam na sociedade e que foram, em parte, originados nos discursos outrora considerados científicos. Isso, segundo esse mesmo autor, teve consequencia na emergencia do pensamento nazista, inspirado, em grande parte, em estudos de autores como Lapouge (1854-1936), o qual garantia a naturalidade de se escravizar ou domesticar algumas "raças", pois lhes atribuía inúmeros defeitos supostamente natos, bem como impossibilidade de sucesso por razöes biológicas e físicas.
Smaniotto (2012) explica que a Eugenia, aqui no Brasil, teve influencias de diversos autores europeus, tais como Darwin, Mendel e Lamarck. Os estudos de Lamarck, anteriores aos de Darwin, também explicavam a modificaçao nos grupos de seres vivos e, fundamentalmente, propunham que as espécies evoluíam de seres mais simples para mais complexos. Beltran, Rodrigues e Ortiz (2011) indicam a extensao e a transformaçao das obras de Lamarck. Os autores ressaltam que Lamarck, no início de sua carreira, se dedicava especialmente â botánica e aceitava, como a maioria dos autores de sua época, que as espécies de animais e de plantas eram fixas, ou seja, nâo tinham alteraçöes ao longo dos anos. Relatam, porém, que, por volta de 1799, amparado em diversas reflexöes perante fósseis e seres vivos muito próximos morfologicamente uns aos outros, Lamarck proporia a transformaçâo dos seres vivos ao longo do tempo.
Martins (1993) reitera que Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet - Chevalier de Lamarck (1744 - 1829) propôs quatro leis em sua teoria transformacionista: tendencia de aumento da complexidade nos grandes grupos de plantas e de animais; influencia do meio no desenvolvimento dos órgäos devido a novas necessidades; uso e desuso, no qual o uso mais frequente de um órgäo levaria a seu desenvolvimento e o näo uso â atrofia; e a herança dos caracteres adquiridos, no qual uma mudança originada pela persistencia de um hábito levaria ao aparecimento dessa nova característica nas próximas geraçöes. A autora ainda destaca que Lamarck aceitava que os organismos mais "simples" apareciam de forma espontánea da matéria inanimada e progrediam em direçâo a grupos de maior complexidade. Válido é ressaltar que a herança dos caracteres adquiridos era uma ideia já amplamente aceita na época de Lamarck (MARTINS, 2015).
Outra ideia muito influente naquele momento era a de seleçâo natural, proposta de forma independente por Charles Darwin e Alfred Russel Wallace em julho de 1858, com comunicaçâo de seus trabalhos â Linnean Society de Londres (CARMO; MARTINS, 2006), sendo essa ideia relacionada â sobrevivencia e â seleçâo diferencial dos seres vivos em um determinado ambiente. Cabe destacar que Darwin, como outros pesquisadores da época, se utilizava das ideias de herança dos caracteres adquiridos, de Lamarck, para poder explicar a variabilidade dos seres vivos.
Por fim, outro autor muito difundido no inicio do século XX foi Gregor Mendel, que publicou, no mesmo período histórico de Darwin (1866), trabalhos principalmente acerca das características de ervilhas, textos escritos a partir da observaçâo de cruzamentos, buscando compreender os mecanismos de reproduçâo dessas plantas (BRANDÄO; FERREIRA, 2009). Uma das particularidades da sua pesquisa, como afirmam Brandäo e Ferreira (2009, p. 49), é que Mendel investigou uma característica por vez, o que permitiu demonstrar "[...] que os híbridos da primeira geraçâo näo eram intermediários entre os pais, mas possuíam o estado de uma característica herdada de um dos membros da geraçâo parental", ou seja, mantinham a característica dominante. Além disso, enfatizou as proporçöes encontradas ao longo dos experimentos (BRANDÄO; FERREIRA, 2009), evidenciando que, na autofecundaçäo dos híbridos de primeira geäo, a proporçäo dos descendentes se aproximava de 3:1 (dominantes/recessivos). Mendel buscava elaborar hipóteses explicativas para os resultados encontrados nesses cruzamentos. Desse modo, sugere a existencia de fatores que se mantinham constantes ao longo das geraçöes (MARTINS; PRESTES, 2016).
No contexto da primeira metade do século XX as ideias de Mendel ganhavam evidencia e começavam a ser articuladas com a evoäo, sendo sistematizadas em meados de 1940 na Teoria Sintética da Evoäo (EL-HANI, 2006). Assim, existia nessa época uma heterogeneidade de pensamentos científicos e, no Brasil, por motivos relacionados â política, economia e sociedade dos anos de 1910 a 1930, a eugenia teve um forte hibridismo de concepçöes e uma multiplicidade de ideias. Naquele momento histórico, permanecía em discussäo a evoäo dos seres vivos e o quäo o ambiente poderia alterar ou näo características deles, deixando também em dúvida se essas características poderiam ser totalmente hereditárias e genéticas ou näo, ou seja, passivas ou näo de alteraçäo, conäo, melhorias, etc. Tínhamos aqui, portanto, pensamentos sociais vinculados a diversas vertentes de análise biológica, ora pendendo para discursos que buscavam alterar o meio e, consequentemente, melhorar a vida da popuäo (uma vertente que se embasaria mais nas teorias lamarckistas), ora para discursos que propunham açöes mais drásticas, como vetar reproduçöes de indivíduos considerados, pela elite, como tendo caracteres indesejáveis, isso com o pressuposto de tais caracteres serem algo genético e incurável (vertente embasada mais nos estudos mendelianos). Desta forma, Smaniotto (2012) reitera o quanto a eugenia brasileira foi essa grande mescla entre essas duas principais vertentes, ora de higienizar e buscar melhorar a vida e o ambiente das populaçöes, ora de planejar vetar a reproduçäo de indivíduos considerados "incuráveis" e "nocivos".
Moreira (2011) complementa que a eugenia - que esterilizou e eliminou os considerados portadores de genética "ruim" em diversos lugares do mundo - chegou ao Brasil e teve conotaçäo bastante única e distinta, camuflada pela higiene e saúde pública, confundida, de início, com o termo higienizaçäo. O autor discorre a respeito da cräo da Sociedade Eugenica de Säo Paulo, em 1918, com seu principal fundador, Renato Kehl, e do surgimento do Comite Central de Eugenismo, presidido pelo mesmo Kehl e por Belisário Penna. As metas principais estabelecidas pelo Comite eram barrar a mistura de raças, vetar a entrada de näo brancos no país, incentivar a entrada de raças consideradas superiores, colaborando entäo para um branqueamento da popuäo brasileira. Fiuza (2016) explica que o racismo científico, fortemente difundido pela Europa e pelos Estados Unidos no século XIX, chegou ao Brasil atrasado, na primeira década do século XX, e influenciou nossos intelectuais de forma abrangente. Destaca que as primeiras escritas nessa temática eugenica surgiriam em 1914 com Alexandre Tepedino, tentando enquadrar a formaçâo da nacionalidade brasileira, ou seja, dar uma identidade ao povo brasileiro. Essa busca também permearia o campo da biotipologia4, que tentaría encontrar médias para o povo brasileiro e morfologias-padrao, principalmente na década de 1930, mas acabaria por optar por aceitar o forte hibridismo e miscigenaçao como identidade única do povo em nosso país (Vimieiro-Gomes, 2016).
Kinoshita e Rocha (2013), pesquisando outros países, próximos ao Brasil, levantam que Kehl montou parceria, entre as décadas de 1920 a 1940, com os argentinos Victor Delfino e Alfredo Fernandes Verano, e que seus ideais eugenicos, pautados como leis da ciencia, tentaram permear a educaçao dos jovens e das crianças por toda a América do Sul. Os jovens, para Kehl, poderiam assimilar os costumes e pensamentos necessários para uma vida futura saudável e higienizada. Smaniotto (2012) ainda faz ponderaçöes a respeito da craniometria, estudo que tentava comprovar a inferioridade de negros, pois considerava que os seus crânios eram mais primitivos e, consequentemente, de menor capacidade intelectual. O autor salienta que essa ciencia estava no auge na época e que imperava como verdade quase única. Nascia ali, e com muito poder, um tipo de racismo científico.
A maioria das metas que foram traçadas por grupos eugenicos do Brasil nao resultou em grandes efeitos, visto que a miscigenaçao era intensa, o que tornava quase impossível realizar alguns planos de parte da elite intelectual, como esse de branquear a populaçao. Além disso, tivemos o contexto histórico dessa passagem em nosso país associado â culminaçao do holocausto nazista, que passou a despertar um sentimento de repúdio a ideias como essas após a Segunda Guerra Mundial (Moreira, 2011). O próprio Renato Kehl relata, nas atas do primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, que, apesar de todo o seu esforço em propagar a eugenia, "[...] apenas um número reduzido de intelectuais compreendeu o escopo da doutrina" (Kehl, 1929, p. 52). Ainda assim tivemos várias décadas de tentativas eugénicas em nosso país. Silveira (2005) faz um traçado histórico do que se vivia na época de Monteiro Lobato e de Renato Kehl aqui no Brasil, personalidades sobre as quais focamos a nossa atençao neste trabalho. Para o autor, o momento era de grande transiçao, momento no qual os avanços científicos europeus da época se destacavam e o Brasil, assim como outros países, tentava encontrar uma identidade e constantemente se comparava â Europa. A tentativa era de compreender a "inferioridade" nacional e buscar uma resposta para o desenvolvimento. A esse respeito, as explicaçöes quase sempre se findavam no povo brasileiro: o povo precisava se moldar, melhorar, "evoluir", de acordo com os intelectuais da época.
Smaniotto (2012) destaca que, no Brasil, a eugenia teve mescla de vários pensamentos e vertentes que buscavam explicar a evoluçao dos seres vivos. Foi influenciada por ideias de Galton, de Lamarck e de muitos outros e, dessa forma, tivemos também, nos nossos intelectuais, algumas variáveis de posicionamentos: alguns eram a favor da eugenia considerada mais positiva, voltada a higienizar e a dar qualidade de vida, melhorando o meio ambiente dos habitantes; outros defendiam atitudes bastante agressivas, mais voltadas â chamada eugenia negativa, buscando esterilizaçao e branqueamento da populaçao. Esse mesmo autor ressalta que, aqui e em vários outros países latino-americanos, devido â miscigenaçao, as propostas de melhoria do ambiente foram mais aceitas para a maioria dos intelectuais. Assim, portanto, a resposta encontrada na maior parte do tempo foi higienizar, melhorar o meio para que surgissem cidadaos melhores. Essas mesmas variantes e mudanças de posicionamentos sao notadas também na literatura, como em obras de Lobato, nas quais um de seus personagens, o Jeca, inicialmente era incurável, com incapacidade herdada, e, posteriormente, passava a ter possibilidade de cura, melhorando com o seu meio. Essa metamorfose, segundo esse autor, deve-se ao fato de a literatura ir acompanhando as mesmas transformaçöes do que se tinha na época como fundamentaçao científica.
Segundo Silveira (2005), colocar o Brasil nos passos da Europa era, portanto, o melhor caminho visto pela intelectualidade daquela época e, para isso, era imprescindível compreender melhor o povo brasileiro. Foi assim que incentivos a médicos e a psiquiatras surgiram de forma bastante intensa. Esses profissionais, entao, recebendo essa valorizaçao, possibilitariam que ideias sanitaristas e eugénicas surgissem como uma vertente muito forte para explicar o nosso atraso em relaçao a outros países. É dessa necessidade que intelectuais da época, como Lobato, assumiriam uma força-tarefa de tentar "curar" o Brasil de sua enfermidade.
De acordo com Smaniotto (2012), a eugenia em nosso país nao era vista como algo dependente somente da hereditariedade, mas também de transformaçöes do ambiente, de costumes, hábitos, sanitarismo e outros. Assim, instalou-se aqui um misto de ideias para reformar o país. A eugenia se adequava â realidade do nosso país e buscava o progresso. Como concluí Souza (2006), apesar de ter tido pouco éxito e considerada ambigua e contraditória, a eugenia brasileira se mostrou muito forte e difundida entre os intelectuais da época, e foi legitimada pelo meio científico, ideológico e político nacional por algumas décadas.
RENATO KEHL E MONTEIRO LOBATO: ALGUMAS APROXIMAÇOES
Nesta seçâo apresentamos algumas características e histórias de vida de Monteiro Lobato e de Renato Kehl, buscando traçar algumas conexöes entre eles. Moraes (1997) faz uma breve biografia de José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) e escreve a respeito de sua infancia turbulenta, criado pelo avô em meio a escravos, buscando relacionar suas vivencias com possíveis origens de ideias de inferioridade e superioridade racial. O autor analisa obras de Lobato e busca possíveis explicaçöes para a ambiguidade de seus posicionamentos, em suas escritas ao longo dos anos, quanto aos negros. Ressalta que, em muitos momentos, devido ao fato de nao conseguir exito como produtor e dono de culturas agrícolas herdadas de seu avô, Lobato culparia o "caboclo", mâo de obra considerada por ele sem qualificaçâo e "inútil", o que poderia ser inspiraçao para muitos anos de escritas com um de seus grandes personagens, o Jeca.
Por volta da década de 1920, Lobato iniciaria uma aproximaçao com as ideias eugénicas, estabeleceria uma suposta amizade com Renato Kehl e começaria a induzir seu público a discursos na vertente eugénica. Seu romance "Choque das Raças" ou "O Presidente Negro" ([1926] 2009), um dos alvos desta análise, demonstrou grande força dessas concepçöes. Segundo Moreira (2011), Lobato já previra, antes da publicaçao, que o livro poderia se tornar muito polémico, mas também poderia lhe render altos lucros e destaque. O mesmo autor ainda reforça historicamente que, com o posterior holocausto decorrente da Segunda Guerra Mundial, esse livro de Lobato foi esquecido estrategicamente, por ser uma obra por demais controversa e discrepante do perfil infantil e puro pelo qual o autor viria a ser conhecido, anos mais tarde, no Brasil. É válido lembrar que, ainda segundo Moreira (2011), Lobato teve, a partir desse posicionamento favorável â eugenia, diversos patrocínios e investimentos pela sociedade eugénica, recebendo dedicatórias, prefácios e outros incentivos, até mesmo do próprio Renato Kehl. O autor destaca que ambos ainda tiveram juntos um livro publicado em 1951, sob título de "O Médico no Lar", autoría conjunta de Lobato e Kehl.
Silveira (2005) faz um estudo da obra "Urupés" (1915) e destaca o quanto Lobato descreve o sertanejo como um dos problemas do nosso país. Sem piedade ou entremeios, surge o famoso Jeca, personagem de grande destaque literário na obra geral de Lobato, mostrado como um caboclo, caipira, acomodado, entregue a doenças, â preguiça, sem senso ou esforço, sem vontade, condenado â degeneraçao. Esse problema é tratado por Lobato, num primeiro momento, como algo hereditário e irremediável, porém, como aborda Moraes (1997), Jeca Tatu sofreria grande metamorfose nas maos de seu criador, pois ora seria um tipo de raça degenerada e incapaz, que precisava de medidas eugénicas, ora simplesmente estaria em condiçöes ruins, impostas pelo meio social em que estava inserido. Silveira (2005) também analisa "Problema Vital" (1918), demonstrando que Lobato faria, dessa obra, um abre-alas para a Sociedade Eugénica de Sao Paulo. Aqui ele começaria a narrar que os problemas do Jeca, e de grande parte da populaçao brasileira consequentemente, tinham cura e que a ciéncia poderia curar o Brasil. A ideia era "simples" - regenerar o povo brasileiro, sendo que os sanitaristas é que poderiam resolver isso. As grandes metamorfoses, portanto, que o personagem Jeca Tatu e o próprio Lobato viveram sao explicadas pela época em que o autor viveu, inserido em ideologias que estavam o tempo todo interagindo e tentando ganhar espaço na sociedade (Moraes, 1997). Influenciado por uma transiçao de ideias e de pensamentos confusos e de misturas de concepçöes eugénicas e sanitárias, mescladas com aspectos políticos, económicos e sociais, Lobato seguiu suas escritas influenciado pelo que se acreditava e se propunha naquele momento, mas também difundindo essas ideias no seu entorno e, portanto, influenciando seu meio.
É válido citar que Lobato teve inúmeras influéncias de seu contexto nas escritas e nao apenas do movimento eugénico, como demonstra Silveira (2013). No ensino de Química, Lobato incorporava a ciéncia em falas de seus personagens, concluindo que é nítida, em toda sua obra infantil, a potencialidade do conhecimento científico, bem como, de sua veia pedagógica. Esse autor ainda demonstra que Lobato mudou sua escrita e foi influenciado pela época das guerras mundiais e pela revoluçao das máquinas. Reafirmamos, portanto, o quanto a ciéncia, a tecnologia e a sociedade de cada época influenciam as ideias de intelectuais, artistas e escritores.
Moreira (2011) explica o momento histórico de nosso país quando Lobato começou a aderir as ideias eugenicas e aponta para as dificuldades que a populaçâo negra sofría naquele período, liberta recentemente pela Lei Áurea, porém presa ainda pelo preconceito racial. O negro e a miscigenaçâo nacional eram vistos, por grande parte da elite intelectual brasileira, como fatores limitantes para o crescimento económico do país, e é a partir dessa vertente, amparada pelo discurso de desenvolvimento, que proliferaram as ideias eugenicas e outros movimentos racistas. É interessante ressaltar que o contexto da aboliçâo da escravatura emergiu por diferentes interesses e pressöes em ámbito mundial, principalmente económicos. Hobsbawm (2009) aborda toda uma trajetória global das transformaçöes económicas que fizeram com que o capitalismo fosse renovando a sua face e exigindo novas práticas, entre elas, a conquista de mao de obra barata para a produçâo, em geral, em expansâo. É, portanto, importante refletir que, aqui no Brasil, como em diversos países, existiam interesses nao só internos, mas também externos, e relacionados ao desenvolvimento económico, que buscavam o fim da escravidao, mas nao como luta por direitos igualitários ou humanitários, e sim como caminho para o desenvolvimento económico. As ideias científicas, bem como o discurso social da época, estao integradas as obras de Lobato, ainda que nao se tivesse um discurso único e uniforme. Compreendemos, assim, que o discurso científico está articulado as ideologias e aos aspectos políticos e económicos. Como conclui Pinheiro (2007), em qualquer análise de ámbito científico é preciso, desde o início, compreender as relaçöes e os interesses sociais que ali estao envolvidos naquele momento histórico.
Sequencialmente e agora abordando o outro nome deste estudo, Renato Ferraz Kehl (1889-1974) nasceu em Limeira, Sao Paulo, formou-se em farmácia em 1909 e também em medicina em 1915, fez mestrado e doutorado em áreas da medicina (Souza, 2006). Seus interesses pela genética e pela reproduçao logo o impulsionaram a ingressar no estudo eugenico, fundando, aqui no Brasil, em 1918, a Sociedade Eugenica de Sao Paulo. Considerado difusor da eugenia por Lobato e por diversos outros autores da mesma época, ficou fortemente reconhecido por obras como "Liçöes de Eugenia" e "Boletins de Eugenia" (Fiuza, 2016).
Souza (2006) reforça que as ideias eugenicas, apesar de bastante radicais em ámbito mundial, em nosso país tiveram um modelo de prática mais preocupado com reformas sociais. Mesmo assim, ideias mais radicais focadas, por exemplo, na esterilizaçao de indivíduos, também estiveram presentes no movimento, como é evidenciado pela análise dos textos dos Boletins de Eugenia escritos por Renato Kehl. Assim, é notável também que autores como Kehl tiveram grandes metamorfoses em seus posicionamentos. Por exemplo, inicialmente Kehl abordaria diversos problemas brasileiros como tratáveis ou remediáveis. Essa postura, na época, influenciaria muito na direçao de passar a haver transformaçöes de higiene e sanitarismo em nossa sociedade. Assim, pode também ter influenciado intelectuais e escritores como Lobato, que passavam a acreditar em uma soluçao dos problemas do povo brasileiro com a mudança do meio. Kehl, porém, nao pararia nessa vertente. Souza (2006) reforça que, anos mais tarde, começaria a migrar para uma eugenia bem mais radical, influenciado provavelmente pela própria expansâo do movimento e, sobretudo, pela viagem que fez a Alemanha, em 1928, passando a defender ideais e medidas bem mais extremistas. Segundo Wegner e Souza (2013), essa visita a Alemanha foi proporcionada no período em que Kehl assumira a direçao da Indústria Química e Farmacéutica Bayer do Brasil, forte nome em medicamentos do Rio de Janeiro, e, em suas viagens pela Europa, principalmente pela Alemanha e por países nórdicos, passou a conhecer diversos eugenistas e antropólogos. Ficaria, a partir daí, bastante nítido para esses autores, as influencias que o médico brasileiro teria em sua mudança de posicionamento. Os autores ainda relatam trocas de cartas, sendo que essas correspondencias e diversos diálogos com outros cientistas fizeram Kehl assumir a sua postura mais negativa e radical perante a eugenia.
Fiuza (2016) reafirma a ambiguidade dos trabalhos de Kehl e discorre a respeito de seus momentos mais radicais, nos quais postulava que o desenvolvimento social do país só seria alcançado quando primeiramente existisse um desenvolvimento científico e biológico. Essas eram as ideologias mundiais da época e Kehl estava sendo influenciado por parte do que existia de conhecimento científico. Nesse contexto, em geral, a elite da época veria o Brasil de forma bastante pessimista, sem futuro e a beira do abismo. Como soluçöes aos problemas da época, Kehl proporia, entre outras coisas, controlar o casamento, esterilizar os degenerados e todos aqueles que pudessem trazer falta de progresso ao país (Smaniotto, 2012).
Souza (2006) detalha as mudanças de posicionamentos do médico, posteriormente a década de 1930, que passaria a defender ideias bastante extremistas e medidas duras, entre elas: criticaria as ideias lamarckistas e dos caracteres adquiridos e explicaria que os mesmos nao poderiam ser herdados ou transmitidos; defenderia por um tempo a eugenia mais pura, mais negativa; se mostraria muito mais racista e radical quanto as misturas de raças; explicaria o problema da naçao brasileira pela degeneraçao do povo historicamente miscigenado. Em diversas entrevistas que deu após seu retorno da Alemanha, Kehl mostrou-se bastante simpatizante com as ideias de racionalizar a reproduçâo e buscar uma raça pura, ariana e com os caracteres "bons" (Wegner & Souza, 2013).
Kehl teria passado de Säo Paulo ao Rio de Janeiro tentando implementar as suas ideias eugenicas e, neste último local, conseguiría maior exito pelo fato de a cidade passar por grandes avanços industriais e por diversos problemas com doenças e epidemias desde a segunda metade do século XIX. Ali, Kehl teria propagado as suas principais escritas, ora mais agressivo, ora mais brando (Fiuza, 2016). É válido ressaltar que o escritor e médico teria sido fortemente criticado por diversos outros intelectuais na época, que defendiam a ideia de que a nossa populaçâo era apenas vítima de péssimas condiçöes de vida. Assim, por maior que fosse o seu renome em nosso país e em diversos locais estrangeiros, essa eugenia mais radical e negativa que tentara exprimir por aqui, näo entraria muito em prática (Souza, 2006).
Fiuza (2016) ainda conclui o quäo Kehl esteve apoiado no discurso político, visando com a eugenia a construçâo de uma naçâo desenvolvida. Essa associaçâo â política nacional fez com que se tornasse forte, nas décadas de 1920 a 1940, o pensamento eugenico no Brasil. Kehl apoiaria e divulgaria ideias como esterilizaçâo, pena de morte, controle de imigrantes e proibiçâo de casamento inter-racial. Renato Kehl publicou mais de duas dezenas de livros relacionados â eugenia e inúmeros artigos, espalhados pelo Brasil e por todo o exterior (Smaniotto, 2012).
Parece nítido, para diversos autores, como Moreira (2011), que Monteiro Lobato, consagrado autor da literatura infantil em nosso país, teve fortes ligaçöes com Renato Kehl e o movimento eugenico. Silveira (2005) afirma que a parceria entre Kehl e Lobato sempre teve oscilaçöes no quesito "meio" ou "hereditariedade". Em diferentes momentos a fala ou postura de ambos migrava, ora para a ideia de que os problemas brasileiros eram mais de moléstias ocasionadas pelo meio e que poderiam ser curadas por remédios, ora genéticas, herdadas e decorrentes da mistura das raças que aqui ocorria. Por diversas vezes Lobato mudou a sua postura. Silveira (2005) ainda demonstra o quanto isso fica nítido com um de seus mais famosos personagens, o Jeca, como já citado, que ora näo tinha soluçâo e ora encontrava cura para seus problemas e prosperava, tornando-se sadio e curado pela higienizaçâo. Aqui fica fácil notar como ideologias e ciencia caminham juntamente com as escritas literárias e em diversos outros ámbitos, como o social e o político.
Näo foi somente Kehl que teve seus momentos de extremismo. Moreira (2011) mostra trechos de cartas de Lobato sendo também bastante radical, citando, por exemplo, passagens do escritor nas quais elencava a "necessidade urgente de uma Ku-Klux-Klanď em nosso país, além de diversos outros manifestos racistas perante personagens como Jeca Tatu, fazendo alusäo ao povo brasileiro. Habib (2007) cita diversos fragmentos de correspondencias e busca evidenciar que Kehl e Lobato tiveram mais do que influencias, e sim laços de amizade e confidencias, além de, é claro, apreço pelas ideias da eugenia. Conclui, em seu relato, que a divulgapäo e a difusäo da eugenia em nosso país foi fortemente amparada nessa parceria de ambos. Habib (2007) ainda mostra uma das prováveis primeiras correspondencias entre eles na época da primeira conferencia eugenica, realizada em 1917, o que seria um início de uma longa amizade, segundo a autora. Relata também o contexto histórico daquela época, no qual a eugenia buscava ser entendida, em forma de metáfora, como algo necessário para a saúde do país. Para Masiero (2014), näo existem dúvidas de que Kehl e Lobato eram amigos e se apoiavam constantemente, formando vínculos duradouros, demonstrados em passagens de livros, em prefácios, em dedicatórias, entre outros documentos.
Por outro lado, segundo Alves Filho (2016), existem diversas evidencias que ligam Lobato ao movimento eugenico de sua época, como capas de livros, dedicatórias, ou até mesmo o próprio pensamento, mas nenhum registro ou menpäo maior de que ele tenha participado efetivamente da sociedade eugenica ou de reuniöes ou até mesmo de tomadas de decisöes pela associapäo. De acordo com esse autor, deve-se, portanto, ter muito cuidado para näo fazer falsas acusaçöes. Esse mesmo autor alega ter analisado minuciosamente uma das obras de Lobato, "Problema Vital" (1918), e contra-argumenta diversos outros autores, afirmando que, nesse livro, näo existe racismo. Alves Filho (2016) vai além e conclui que as trocas de correspondencias entre Kehl e Lobato foram esporádicas e raras, o que, em momento algum, evidencia uma amizade entre ambos, como muitos defendem. O autor ainda faz um apanhado detalhado de cartas de Lobato com Arthur Neiva, que muitos intitulam como provas da ligapäo de Lobato com o Eugenismo, e tenta também desmistificar essa afirmapäo. Como conclusöes finais, Alves Filho (2016) alerta para o fato de que a maioria das alegaçöes contra Lobato säo baseadas em argumentos pouco sustentáveis.
Neste trabalho näo afirmamos a amizade entre Renato Kehl e Monteiro Lobato. Buscamos, todavía, explicitar aproximaçöes e distanciamentos entre esses autores, incluindo as suas ideias biológicas, científicas e contextuais em alguns de seus textos isolados ou em algumas de suas obras. Entendemos que a possível presença de ideias biológicas na obra de Monteiro Lobato näo viria apenas de Renato Kehl. Este foi, contudo, um importante representante das ideias eugenicas presentes na época e apresentou discursos de diferentes vertentes da eugenia, flutuando em seu posicionamento, o que justifica a representaçâo de parte das ideias biológicas da época por meio desse autor. A análise também é complementada por autores que já estudaram as relaçöes entre Renato Kehl e Monteiro Lobato. Além disso, apresentamos uma discussäo acerca de como esses textos ou fontes históricas podem ser utilizados para contextualizar o Ensino de Ciencias e de Biologia, propiciando a relaçâo entre Ciencia e Ideologia, bem como a importancia de contextualizar uma obra literária como a de Monteiro Lobato a partir do período em que foi escrita.
PESQUISA HISTORIOGRAFICA E DOCUMENTAL E ANALISE DO DISCURSO
Este trabalho tem como base a análise do discurso de alguns textos e livros, que citamos logo a seguir, e visa conectar ideias de Monteiro Lobato e Renato Kehl, elencando possíveis aproximaçöes entre as suas obras. Trata-se, portanto, de um trabalho classificável como pesquisa documental. Kripka, Scheller e Bonotto (2015) descrevem as importantes etapas metodológicas da pesquisa historiográfica documental: a escolha do corpus de análise, a formulaçâo dos objetivos, o aprofundamento no material e, por fim, a interpretaçâo dos resultados e estabelecimento de relaçöes. Ainda ressaltam o olhar apurado e o número elevado de documentos a serem analisados.
Na análise a seguir, apresentamos as ideias de Renato Kehl e de Monteiro Lobato presentes nas obras descritas na Tabela 1. Essas obras säo investigadas buscando elencar algumas aproximaçöes. Para isso, recorremos também a fontes secundárias, como as pesquisas que investigam as obras desses dois autores. Kripka, Scheller e Bonotto (2015) reforçam que, numa análise documental, é importante o contexto em que tais documentos foram escritos. Assim, buscamos construir a análise de modo articulado ao contexto brasileiro na primeira metade do século XX.
Para a reflexâo dos textos que compöem o corpus da pesquisa nos amparamos nos pressupostos teóricos da "análise do discurso". Fiorin (1990) estabelece que a análise do discurso precisa fixar-se tanto no que o texto diz como no porque ele aquilo diz. Lembra também que nao existe uma única, mas, sim, variadas estratégias de avaliaçao desses discursos, que podem pender ou nao para contextos como histórico, cultural, psicológico, social, antropológico, etc. O autor ressalta que a análise precisa estar antenada ao aspecto linguístico e ao aspecto histórico de cada discurso, que nao podemos deixar de notar o discurso como objeto cultural e que, por mais que ele aparente estar isolado ou com poucas influencias, sempre está imerso em inúmeras vertentes. Rocha e Deusdará (2005) ainda explicam que, diferentemente da técnica da "análise de conteúdo", que busca captar saberes ocultos na superficie textual, a análise do discurso visa relacionar o social ao plano discursivo construido, articulando linguagem e sociedade.
Para Orlandi (1999), nao existe neutralidade: todo e qualquer discurso é preenchido por ideologias. E saber interpretar isso, confrontando o histórico com os sujeitos, a linguagem e muitos outros elementos intrinsicamente emaranhados, é uma tarefa bastante difícil. O intuito da análise de discurso nada mais é que compreender a fala do homem em momentos distintos da história. Ocorre que, para chegar a essa compreensao, sao necessárias análises de várias vertentes de significados, tais como a linguagem e suas variantes de cada época, a linguística e a gramática, o momento histórico e as ideologias envolvidas em cada discurso, pois "[...] o analista de discurso relaciona a linguagem a sua exterioridade" (Orlandi, 1999, p. 16).
Para a investigaçao documental e análise discursiva partimos de algumas questöes: - Podem as escritas e ideologias de Kehl apresentar aproximaçöes com a literatura de Lobato? - Existem conceitos e concepçöes biológicas parecidas em suas obras? - Tiveram, esses autores, transformaçöes em suas escritas ao longo do tempo e sofreram metamorfoses influenciados pelas ideologias de suas épocas? Assim, como estabelecem Kripka, Scheller e Bonotto (2015), esses questionamentos norteiam a pesquisa documental. Os autores ressaltam que essa metodologia de trabalho possui pontos positivos e negativos. O positivo seria principalmente a riqueza de informaçöes e de conexöes que se podem obter com trabalho árduo e afinco, além do baixo custo de investimento financeiro, demandando apenas (se assim se pudesse dizer) tempo e empenho. Em contrapartida, como aspecto negativo, os documentos a serem avaliados podem nao ser fidedignos, pois dependem também de interpretaçao humana, sujeita a falhas e a subjetividade de cada olhar, além de que raramente esse método de trabalho consegue investigar um número suficientemente grande ou bom de documentos, partindo assim, de uma pré-seleqäo, que poderá levar a distorçöes. Para minimizar essas distorçöes confrontamos a análise realizada com a literatura que investiga esses dois autores e suas relaçöes com o movimento eugenico.
Sá-Silva (2009) tenta salientar que os documentos a serem escolhidos como corpus de estudo precisam passar por uma acurácia e análise de credibilidade, para evitar-se ao máximo erros e brechas, mas seria isso totalmente possível? O autor relata a importancia de observar os contextos de cada documento, os autores, a autenticidade e a natureza deles, percebendo em cada um seus conceitos-chave e fundamentais. Nao se pretende, portanto, encontrar conexöes rígidas entre esses autores - Lobato e Kehl -, mas possíveis inspiraçöes, aproximaçöes e distanciamentos de ideias. Sá-Silva (2009) ainda concluí que a análise documental é um dos métodos mais usados dentro das ciencias humanas e sociais e pode ser decisivo em qualquer trabalho de investigaçao.
DIALOGOS ENTRE CIENCIA E LITERATURA: EUGENIA E IDEIAS BIOLOGICAS NAS OBRAS DE KEHL E LOBATO
Um dos livros que constitui o corpus de nossa análise é o romance "O Presidente Negro" ([1926] 2009), de Monteiro Lobato. Moreira (2011) explica que esse romance nao fora aceito no mercado americano na época, nao aceitaçao justificada pelo excesso de racismo, porém fora reeditado e publicado diversas vezes aqui em nosso país. A última publicaçao, consideravelmente recente, de 2009, pela Editora Globo, visou a oportuna eleiçao americana, na qual um presidente negro - Barack Obama - derrotou um candidato branco e uma feminista. Essas coincidencias renderam a capa da ediçao um apelo um tanto quanto sensacionalista a visao futurística que Lobato teria tido (Moreira, 2011). Em um fragmento de carta de seu livro "A Barca de Gleyre" ([1944] 1959)", Lobato mostra o quanto acreditava que seu romance poderia naquela época tornar-se um enorme sucesso nos Estados Unidos, escrevendo "[...] já tenho um bom tradutor, o Stuart, e em Nova York um agente que se entusiasmou com o plano", reafirmando ainda: "[...] imagine se me sai um best seller! Um milhäo de exemplares" (Lobato, [1944] 1959, p. 254).
O livro "O Presidente Negro" ([1926] 2009) é uma história de ficçâo para o público adulto e traz aspectos ideológicos dos discursos eugenicos. No romance é inventada uma máquina que consegue ver o futuro e assim a filha do inventor conta o que viu acontecer no ano de 2228 na América. O fragmento a seguir conta o que acontecía no ano de 2228, quando os Estados Unidos estavam bem povoados e a "raça" branca começava um controle de natalidade, enquanto a "raça" negra continuava a gerar descendentes:
Por fim achou-se o país bastante povoado; e a mentalidade proibicionista, assustada com o espetro do super-povoamento, suplantou a imigracionista. Fecharam-se todas as portas ao fluxo europeu e a nagäo passou a crescer vegetativamente apenas. Data daí a "inflaçâo do pigmento".
Até essa época a populaçâo negra representava um sexto da populaçâo total do país. A predominancia do branco era pois esmagadora e de molde a näo arrastar o americano a ver no negro um perigo sério. Mas com o proibicionismo coincidiu o surto das ideias eugenisticas de Francis Galton. As elites pensantes convenceram-se de que a restriçâo da natalidade se impunha por mil e uma razoes, resumíveis no velho truismo: qualidade vale mais que quantidade. Deu-se entäo a ruptura da balança. Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade. Foi a maré montante do pigmento. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministério da Seleçâo Artificial, o surto negro já era imenso. (Lobato, [1926] 2009, p. 97, grifos nossos).
Nesses fragmentos descritos acima é possível perceber o discurso de superioridade racial e como essas ideias permeiam essa obra de Lobato. O romance "O Presidente Negro" ([1926] 2009) traz um personagem bastante comum em seu dia a dia e em sua época, o senhor Ayrton, que, após sofrer um acídente de trânsito, é resgatado e recebe cuidados de um professor, o senhor Benson, num local um tanto quanto inusitado. E dali este personagem passa a ter os olhos abertos para diversos aspectos mundiais. O tal professor se revela um cientista, detentor de equipamentos únicos e criados por ele mesmo, que mostram o futuro da humanidade, e assim consegue explicar o exito ou o declínio, para diversas civilizaçöes humanas do futuro. Nesse contexto futurístico, a mistura ou näo das raças proporciona sucesso ou decadencia na populaçâo (Smaniotto, 2012).
O livro ainda aborda a intensa paixäo que o personagem Ayrton desenvolve pela filha do cientista, a senhorita Jane, que, após morte de seu pai, assume os estudos e passa a manter contato direto com Ayrton, como evidenciamos nos trechos "[...] humano que sou, envolvia-a nos meus ternos olhares de carneiro amoroso" (Lobato, [1926] 2009, p. 122); "[...] pus em miss Jane os meus olhos de carneiro flechado e suspirei" (Lobato, [1926] 2009, p. 175); ou, ainda, "[...] comecei a ver nela o verdadeiro tudo" (Lobato, [1926] 2009, p. 67). Enfoca também a incrível mudança de ideias que Ayrton sofreu ao longo do tempo, tentando fomentar que isso também poderia acontecer com toda a populaçâo brasileira, se esta tivesse o conhecimento igual ao que o personagem da trama teve. De inicio, Ayrton era defensor das classes oprimidas, das minorias, dos fracos, degenerados e impotentes, mas, no correr da sua aventura e com as sequenciais visitas â miss Jane, muda completamente seu ponto de vista e passa a enxergar o mundo de outra forma, sob outras lentes. Começa a culpar essas mesmas minorias que defendia, por todos os problemas mundiais, e, como o próprio personagem narra, posterior aquelas visitas: "[...] já näo era mais o mesmo" (Lobato, [1926] 2009, p. 83). A cada passagem que faz pela casa da jovem moça ouve dela mais discursos sobre visöes do futuro, que Jane consegue obter pelo "porviroscópio", equipamento que seu pai criara e que permitia enxergar o futuro das civilizaçöes. A jovem narra para Ayrton o que acontece em diversos países e foca principalmente na história dos Estados Unidos, onde, em 2228, ocorre uma eleiçâo muito diferenciada, com disputa entre um branco, uma mulher e um negro, e o negro é pela primeira vez escolhido como presidente daquela naçâo. A trama ainda relata toda a habilidade dos homens e mulheres brancos em se unirem contra os negros num imenso golpe, fazendo com que näo só o presidente negro eleito perca seu mandato, como também seja esterilizado, sem sequer ter ciencia disso, ao fazer um tratamento de cabelos, oferecido gratuitamente para tornar os negros mais parecidos com os brancos, de cabelos lisos. Assim, toda a populaçâo negra daquele país fica esterilizada ao se submeter a esse tratamento, bem como o próprio presidente negro Jim Roy. Kerlog9 fala ao presidente negro: "[...] tua raça morreu, Jim", feliz da vitória dos brancos sobre os negros (Lobato, [1926] 2009, p. 189). Percebemos aqui um forte discurso racial na obra e ainda uma compreensäo de que todos os negros desejariam se parecer com os brancos, uma vez que aderem ao tratamento de beleza para alisar os cabelos, o que lhes causa a esterilizaçâo. Assim, tem-se o discurso de que a beleza estaría vinculada as características morfológicas dos "brancos", evidenciando um discurso de superioridade racial branca, discurso que é um dos eixos da argumentaçâo desenvolvida no livro.
Apesar das ideias agressivas e cruéis de dominio racial e da esterilizaçâo que envolve a trama - deixando todos os negros impossibilitados de procriar e, assim, permanecerem como raça na populaçâo americana - o personagem do senhor Ayrton muda completamente seu pensamento e percebe todas essas atitudes como perfeitamente racionais, voltadas para um bem maior da populaçâo humana. Assim, percebemos uma justificativa ao longo da história vinculada aos ideais eugenicos. No livro, toda a raça negra havia sido esterilizada e Jim Roy, o primeiro presidente negro da história daquele país, eleito de forma idónea, "[...] amanhecera morto em seu gabinete de trabalho" no seu dia de posse (Lobato, [1926] 2009, p. 194). As ideias eugenicas que miss Jane e seu pai trazem no enredo, portanto, influenciam Ayrton, e esse personagem principal, que de início questionava: "[...] tiveram eles coragem de fazer isso?" (Lobato, [1926] 2009, p. 97) em relaçâo a matar crianças consideradas defeituosas no nascimento, agora começava a nâo só aceitar, mas a pregar essas mesmas ideias como necessárias a serem adotadas aqui, em nosso país, como evidenciado no seguinte trecho: "[...] estava ansioso por voltar a cidade e nos cafés, na rua, no escritorio, pregar a eugenia e insultar a estupida gente que näo vě as coisas mais simples" ([1926] Lobato, 2009, p. 161). O romance, portanto, é sobrecarregado de ideias biológicas e de ideologia na tentativa de explicar os motivos das atitudes eugenicas. Ainda que seja uma obra ficcional, entendemos que as ideias eugenicas que permeavam a sociedade, bem como sua relaçâo com autores eugenistas da época, influenciaram a escrita e o argumento central do livro.
Quanto as obras de Renato Kehl, analisamos de modo sistemático o livro "Tipos Vulgares - introduçâo a psicología da personalidade (contribuiçâo â psicología prática)" ([1927] 1958), que, segundo Masiero (2014), fora primeiramente publicado na Espanha e na Argentina, e, posteriormente, em nosso país, surtindo um grande sucesso de vendagem. Aqui o principal enfoque de Kehl é na descriçâo de comportamentos humanos que poderiam ser identificados como possíveis de remanejo pela educaçâo ou pelo meio, e outros, que seriam herdados geneticamente, e estes, portanto, pré-determinados, traçados desde o nascimento, e teriam um caráter nato, imutável. Ou seja, o livro tenta ser um guia para a populaçâo usar como identificador de tipos vulgares ou ruins, pessoas com degeneraçâo, do ponto de vista psicológico e caracteriológico. Ainda segundo Masiero (2014), essa busca por identificar comportamentos humanos remonta a tempos bem mais antigos, desde registros de 1852, nos quais já era possível encontrar nomenclatura e classificaçöes para tipos de psicopatia e para doenças psicológicas dentro do nosso país.
Na leitura do livro "Tipos Vulgares" ([1927] 1958) fica claro o quanto a ciencia era considerada, naquele momento, algo imutável e determinista, sem possibilidades para falhas ou para interpretaçöes erróneas, apesar de aparecerem, bem nítidas, no próprio pensamento do autor, diversas contradiçöes - que veremos mais detalhadamente a frente. Masiero (2014) relata que, embora a obra de Kehl pareça bastante embasada, ela é na verdade bastante especulativa, visto que o mesmo utilizava muito de seus conhecimentos em diversos domínios, porém, pouquíssimo ou sequer nenhum experimento. Este seria um reflexo do momento pré-experimental que se encontrava a psicologia em nosso país na época de Kehl. Ainda assim, suas habilidades literárias e capacidade argumentativa eram vistas pela época com bastante atençâo, e este foi um dos motivos que levaram renomados autores como Lobato a apoiarem seus escritos. Contudo, podemos destacar que nâo é só o fato de ser experimental que permite assegurar uma argumentaçâo científica e que, talvez, a difusâo das ideias de Kehl possa ser explicada pelo contexto da época e sua capacidade de arregimentar pessoas e difundir suas ideias (Souza, 2006). Nesse sentido, Arruda e Laburú (1998) discutem a dificuldade entre a superaçâo da velha visâo de que a ciencia necessariamente precisa ser experimental e mostram o quâo complexa é essa relaçâo nas diversas épocas da humanidade. Silveira e Ostermann (2002) também argumentam e demonstram a insustentabilidade de metodologias empírico-indutivistas dentro de diversos campos da ciencia. De uma forma ou outra, Kehl chamou atençâo de diversos intelectuais em nosso país em sua época e o intuito aqui nâo será demonstrar a fidedignidade de suas obras, mas sim, buscar aproximaçöes nos textos de Kehl e Lobato.
Em sequencia, foram lidos também os textos de Renato Kehl nos Boletins de Eugenia, de 1929 a 1933, nestes o mesmo buscava delimitar os fins da eugenia e propagar suas concepçöes. De forma geral, podemos notar que Kehl é bem mais comedido nos Boletins que em seu livro. Foi lido também o texto referente a participaçâo de Kehl no primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, de 1929, publicado no livro de atas desse evento. E por fim, foram também brevemente analisadas algumas ideias bastante diferentes do posicionamento de Kehl no seu livro de algumas décadas depois: "A interpretaçâo do homem" (1951). O intuito foi justamente selecionar um livro bastante posterior, para verificar se concepçöes e ideologias teriam mudado conforme os anos passaram em nosso país.
A seguir levantamos as principais concepçöes e conceitos científicos da época encontrados na obra "O presidente negro" (2009), buscando verificar a existencia de aproximaçöes e/ou distanciamentos dos textos escritos por Renato Kehl por nós analisados. Em uma primeira análise da obra de Lobato, identificamos as principais ideologias e problemáticas científicas que permeavam seu discurso, elencando algumas temáticas que serviram para nossa discussäo. Assim, nessa reflexäo apresentamos os seguintes temas nos quais buscamos traçar comparativos entre os dois autores: "Questäo racial"; "Deterninismo biológico e visäo da ciencia"; "Conflitos entre ambiente versus hereditariedade"; "Visäo a respeito da mulher".
Questäo racial
Iniciando por "O Presidente Negro" ([1926] 2009), de Lobato, podemos notar diversas passagens em que é utilizada a ideia de superioridade racial, além de palavras que expressam um pensamento pejorativo em relaçâo aos negros ao longo da trama. Fica bastante nítido e até mesmo incómodo, durante a leitura da obra, o excesso de trechos com uso de expressöes para, segundo o próprio autor, "denegrir' a imagem de quaisquer objetos, pessoas ou situaçöes. Todavía, Ribeiro (2015) tem razäo em elencar que era uma época distinta e os preconceitos, muito intensos naquele momento histórico. De uma forma ou outra, em muitos momentos da obra é possível detectar acontecimentos com alusöes ruins â raça negra, por exemplo, pela utilizaçäo de palavras derivadas do termo "negro" com um significado pejorativo. Podemos evidenciar isso em trechos como: "[...] täo negra noticia me sombreou a alma" (Lobato, [1926] 2009, p. 29). Aqui o personagem Ayrton se revolta com a perda de seu automóvel no acidente que o fizera ser socorrido pelo cientista da trama. Destaca-se também: "Corri atrás dela, tomado de negros pressentimentos" (Lobato, [1926] 2009, p. 77). Aqui Ayrton corre atrás de miss Jane, e percebe que seu pai, o cientista e entäo enfermo há algum tempo, estaría prestes a morrer. O próprio termo "denegrir", quando analisado de forma etimológica, traz consigo uma carga de possibilidades relacionadas ao preconceito (Bartel, 2014). O uso de palavras que expressam qualidades pejorativas derivadas do radical "negro" traz implícito o modo como a linguagem carrega ideologias e, nesse caso, um certo discurso discriminatório. No livro "O Presidente Negro" há outros momentos de racismo nítido, por exemplo, "A mim chega repugnar o aspecto desses negros de pele branquicenta e cabelos carapinha. Däo a ideia de descascados" (Lobato, [1926] 2009, p. 129), fala do personagem ex-presidente branco, Kerlog, que, no romance, tentava se reeleger, na ocasiäo em que comenta com seus ministros a necessidade urgente de expatriar os negros do país, antes que eles, os näo negros, fossem "[...] asfixiados pela maré do pigmento" (Lobato, [1926] 2009, p. 129), referindo-se â cor de pele deles.
Quando pesquisamos discursos que evidenciam a questäo racial no livro "Tipos Vulgares" ([1927] 1958), de Kehl, näo encontramos exemplos, pois, nesse livro, o autor procura trabalhar com as personalidades dos indivíduos sem destacar cor da pele ou outras características morfológicas correlacionadas â questäo racial. Alguns autores que analisaram a obra de Renato Kehl destacam a questäo racial em seus escritos, por exemplo, Wegner e Souza (2013), apontam, no entanto, que, no livro "Sexo e Civilizaçâo: aparas eugenicas", de 1933, Kehl teria sido bastante categórico com o racismo biológico, discriminando os negros e se colocando de forma contrária aos imigrantes negros, asiáticos e árabes em nosso país. Isso fica fácil de evidenciar também na edäo de dezembro de 1929, do Boletim de Eugenia, em que Kehl (1929) explica o problema da populaçâo brasileira pelo "alto número de degenerados e heterocrómios" - referindo-se aos "mestiços". Ele ainda alega que, apesar da vinda benéfica de italianos, de alemäes, de espanhóis e de portugueses para nosso país, a "massiva populaçâo de mestiços" era grande demais e, portanto, um problema. É válido ressaltar que, segundo Nalli (2005), o racismo de Kehl era praticamente acromático na maioria de seus escritos, näo buscando defender ou criticar as raças ou cores da pele em si, mas evidenciar, em seus estudos, a negatividade que existia quando se misturavam as cores ou raças, formando-se híbridos. Seu ideal estava em manter as raças puras, porém esse mesmo autor também reitera que, pesquisando obras do médico, podem-se notar diversas colocaçöes da raça branca como superior â de negros e â de "mulatos". Até nisso, portanto, podemos destacar a ambiguidade que existiu nos discursos de Renato Kehl, como veremos adiante.
Quando analisamos os Boletins de Eugenia, neles, na maior parte do tempo, Kehl se mostrou um grande propagandista da ideia de esterilizar ou de eliminar da sociedade os indivíduos doentes, degenerados, "aleijados", mendigos, os considerados por ele mesmo "infra-homens", como encontrado no exemplar de setembro de 1931 (Kehl, 1931). Kehl näo abordava a "raça" negra diretamente e também näo destacava muito quais eram os problemas em relaçâo aos "mestiços", mas denunciava e pedia para a populaçâo "[...] evitar casamento com pessoa de classe inferior, com individuos de raça diferente e com mestiços das primeiras geraçöes", trecho este do Boletim de outubro de 1932 (Kehl, 1932, p. 5). O médico ainda explica, nesse mesmo exemplar, as diferenças entre higiene e eugenia e enfatiza que procriar com "mestiços" daria surgimento a seres sem capacidade moral, física e psíquica.
Ao analisarmos as atas do primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia (1929), encontramos, no texto de Renato Kehl, poucas passagens para ressaltar. Em alguns momentos ele chama atençâo para o trabalhador da terra, o sertanejo, e o desqualifica, evidenciando talvez certo preconceito com a classe, mas nao mencionando, em nenhum momento, cor de pele ou fazendo alusao aos negros, deixando apenas nítido que existe ali certa determinaçao biológica da qual nao se poderia fugir: "[...] nos rudes sertoes, os homens näo säo brasileiros, nem ao menos säo verdadeiros homens; säo viventes sem alma criadora e livre, como as feras, como os insetos, como as árvores" (Kehl, 1929, p. 51). Ademáis, o único momento encontrado em que se aborda cor de pele, seria o momento em que Kehl assume uma postura aparentemente indignada ou até mesmo revoltada com a situaçao social dos negros em nosso país e, principalmente, com os governantes daqui, que, após o fim da escravidao, nao fizeram nada para ajudá-los: "[...] se a escravidäo foi um crime hediondo, näo foi menos estúpido o crime praticado pela imprevidencia e pela imbecilidade dos legisladores, dando aos escravizados apenas a liberdade sem lhes dar o ensino, o carinho, o amparo [...]" (Kehl, 1929, p. 52).
Fica claro, para autores como Góes (2015), que o racismo sempre esteve aliado na história a discursos políticos e, muitas vezes, vinculado aos discursos biológicos. Sempre existe uma burguesía ou elite que financia estudos para tentar comprovar e ganhar vigor e poderes sobre os demais povos. "O principal objetivo é sempre estabelecer hierarquia entre as ragas" (Góes, 2015, p. 36). É, portanto, importante ressaltar o quao as ideais e as ideologias racistas permeavam a sociedade na época dos escritores aqui abordados.
Concluimos, na questao racial, que o livro de ficçao de Lobato apresenta o preconceito racial de maneira mais explícita do que as obras de Kehl analisadas. Em se tratando dos conceitos e das concepçöes biológicas, podemos dizer que existe certa aproximaçao, pois, da mesma forma que Kehl classifica e julga alguns tipos de homens, como no caso os sertanejos, como incapazes e inferiores, e isso apoiado no discurso biológico, genético e de herança, poderíamos relacionar essa mesma ideia a partir do pressuposto de que a raça negra era também classificada como biologicamente inferior por Lobato. Nesse contexto, percebemos como o discurso científico, em específico o biológico, ofereceu sustentaçao para açöes e ideologias que buscavam a segregaçao entre pessoas, a discriminaçao e a exclusao social. Compreender isso é fundamental para olharmos o conhecimento científico de maneira vigilante, buscando perceber e combater discursos que busquem explícita ou implicitamente apoiar injustiças sociais.
Determinismo e Visäo de Ciencia
Iniciando novamente pelo livro "O Presidente Negro", de Lobato, podemos notar algumas fortes tendencias da ideologia do determinismo da época, no qual a ciencia e o conhecimento biológico tentavam explicar inúmeros fenómenos, sendo a hereditariedade uma explicaçao recorrente para as mais variadas dúvidas humanas. A ciencia era vista como uma soluçao para todos ou para a grande maioria dos problemas da humanidade. Podemos evidenciar isso em diversos momentos do livro, como: "O amarelo vencerá o branco europeu por dois motivos muito simples: come menos e prolifera mais" (Lobato, [1926] 2009, p. 65). Nesse trecho da obra, Ayrton ouve miss Jane narrando a respeito do futuro do planeta, no qual as civilizaçöes teriam um predomínio de algumas raças que se proliferavam muito mais e nao primavam em qualidade, mas sim, quantidade. E isso era determinado pelo seu biológico, pela cor ou raça. Nao tinham, portanto, como fugir disso, nao existia cura ou remediaçao, nao era social, era biológico - características consideradas imutáveis. Ainda temos outra narrativa de Jane a Ayrton, explicando que: "Dos europeus, só os portugueses se aclimavam na zona quente", os demais nao suportavam (Lobato, [1926] 2009, p. 101). Aqui se tem a ciencia explicando também afinidades ou compatibilidades, o metabolismo de cada raça. O autor ainda mostra a ciencia como algo definitivo, verdadeiro, irrefutável em diversos momentos, como na passagem: "Mas entäo é assim absoluto o efeito? Sim, fiz todas as experiencias e tirei todas as contraprovas" (Lobato, [1926] 2009, p. 171). Aqui Kerlog (um dos personagens, o ex-presidente branco) conversa com um cientista, pago para descobrir rapidamente uma forma de aniquilar os negros e desenvolver uma soluçao para o problema que enfrentavam. Notamos que a visao de ciencia que perpassa a obra é a de um empreendimento extremamente rápido e eficaz, que cria e resolve problemas de forma incrível, considerada irrefutável, unilateral, decisiva e definitiva.
Na obra, o determinismo biológico se faz presente, atribuindo características fixas e hereditárias a grupos de seres humanos. Por exemplo, no livro é apontado como cada raça tinha suas características únicas e predeterminadas: "Estragou as duas ragas, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável piora de caráter (Lobato, [1926] 2009, p. 92). Nessa passagem, miss Jane narra a Ayrton o quanto as misturas raciais eram ruins e demonstra como os negros eram vistos, sem capacidades cognitivas, destinados ao trabalho braçal. Enquanto os brancos sao apresentados como de nascença possuidores de grande caráter e aptidao intelectual. Logo adiante temos mais crítica quanto â mistura das raças, com: "O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressäo biológica" (Lobato, [1926] 2009, p. 93). Jane explicava a Ayrton que, em nosso país, a miscigenaçâo e os "mulatos" impossibilitavam termos uma naçâo próspera. Até mesmo em relaçâo a procriaçâo, existia o determinismo biológico, como já citado anteriormente, e reiterado em: "Os brancos primam em qualidade, enquanto os negros em quantidade (Lobato, [1926] 2009, p. 97). Destaca, por fim, diversos tipos de pessoas elencadas como biologicamente sem cura e narra que a populaçâo teria passado no futuro por esterilizaçâo: "Esterilizou os tarados, malformados mentais, desapareceram os peludos, surdos, mudos, alejados, loucos, morféticos, histéricos, criminosos, fanáticos, místicos, retóricos, vigaristas, corruptores, prostitutas, malformados no físico e na moral em gerat' (Lobato, [1926] 2009, p. 98). Todos estes, de acordo com Jane, herdavam tais características e nao tinham cura. Ainda podemos ressaltar as características morfológicas, estabelecidas como biológicas e predeterminadas, totalmente hereditarias, como a "[...] grossura dos lábios, saliéncia zigomática e chateza do nariz" (Lobato, [1926] 2009, p. 186). Nessa fala, Jane se refere aos negros e âs suas características próprias, nao existindo, portanto, outras possibilidades para eles. Percebemos aqui a articulaçao do discurso biológico da hereditariedade com a determinaçao de características raciais. Trata-se, portanto, do preconceito em relaçâo âs características étnicas, bem como de uma postura de limpeza racial na busca de um ideal de ser humano perfeito (sem defeitos físicos e morais), como se o ser humano pudesse ser encaixado em determinados padröes.
É válido ressaltar a força do discurso eugenico presente em toda a escrita de Lobato nesse romance, no qual destacamos os trechos: "[...] a ideia de seleçâo da semente, muito vitoriosa na agricultura e pecuária, e agora aceita no campo que mais interessaria ao homem" (Lobato, [1926] 2009, p. 158) e "[...] reproduzir a espécie tornou-se um ato de altíssima responsabilidade, já que era de altíssima relevancia para o progresso da humanidade" (Lobato, [1926] 2009, p. 159). Essas ideias sao, de certa forma, quase que uma colagem das premissas de Renato Kehl, que se propagavam em seus discursos dos Boletins de Eugenia. É o que podemos destacar no trecho de setembro de 1929: "[...] quem é bom, já nasce feito" (Kehl, 1929, p. 1); ou ainda quando afirma, no boletim de julho de 1931, que só há um caminho a seguir: "[...] a seleçâo da semente germinal" (Kehl, 1931, p. 1); ou, por fim, no boletim de outubro de 1929: "[...] da mesma forma, por que fazem os criadores para melhorar seus rebanhos e os agricultores suas plantaçöes" (Kehl, 1929, p. 2), discurso no qual abordava a importancia de se começar urgentemente a seleçâo das sementes humanas para um futuro melhor da espécie.
Partindo para o livro de Kehl, encontramos ideias similares, como, por exemplo: "Só agora, porém, se firmam, biologicamente, as oscilaçöes entre o corpo e o caráter, esclarecendo-se as particularidades de fatores hereditários" (Kehl, [1927] 1958, p. 12-13). Para o autor, a ciencia começava a entender o quanto o biológico e o hereditario podiam explicar diversos casos e começava a elucidar alguns tipos vulgares da sociedade, como herdados e impossibilitados de cura. Temos ainda a determinaçao de diversas características comportamentais ou metabólicas de cada um de acordo com características morfológicas: "[...] a ciéncia distinguiría 3 tipos morfológicos: normotipos (médios), branquitipos (curtos) e longitipos (compridos). Os baixos ou curtos, sâo mais vegetativos, estáveis, pacatos, calmos, lentos... Os altos, sâo instáveis, acelerados, avessos, explosivos" (Kehl, [1927] 1958, p. 15). Eram essas entâo características de personalidade determinadas pelo biótipo de cada um e sem possibilidade de alteraçâo. O social e a educaçâo auxiliavam, mas nao conseguiam mudar o caráter nato, mostrando um extremo determinismo biológico. Destaca-se ainda como pensamento fortemente determinista: "[...] os indivíduos bons, já nascem bons, possuem qualidade e tendéncias inatas. Quem é bom, já nasce feito" (Kehl, [1927] 1958, p. 21). O autor até aceita que a educaçao, como já citado, ajudasse, ou influenciasse, mas a cita como uma forma de moldar, porém, jamais remover o problema. Sentimentos ou até mesmo a felicidade também sao explicados pelo biológico: "[...] a felicidade depende do nosso corpo, equilíbrio glandular, que gera os hormônios da felicidade, é biológico e hormonal. Indivíduos com boa hereditariedade a terâo" (Kehl, [1927] 1958, p. 22). Reafirmando ainda com: "[...] só serâo felizes aqueles que vieram de uma boa estirpe ou linhagem, de pais e avós saudáveis e com caracteres bons e normais" (Kehl, [1927] 1958, p. 23). Nesse trecho do livro, Kehl tenta elencar os motivos pelos quais algumas pessoas sao infelizes, e alerta para algo inato, que, por mais que se mude o contexto social dessa pessoa, ela sempre será infeliz, pois nao possui, em sua herança, os fatores necessários para tal sentimento contrário. Ainda relaciona mais uma vez diferenças morfológicas com outras características de personalidade, e garante ser o biológico a explicaçâo: "[...] os magros, sâo catabólicos, gastam tudo que consomem rápido, sâo irrequietos, pessimistas, nervosos, agressivos. Gordos säo sociáveis e amáveis, de bom coraçâo, näo guardam rancor, näo possuem o defeito da vaidade" (Kehl, [1927] 1958, p. 29). Essas passagens indicam como o discurso científico, em específico o biológico, serviam para categorizar pessoas e comportamentos e sugerir que se excluíssem determinados tipos de pessoas. Além disso, reafirma a biologia como fundamento de explicaçöes comportamentais e sociais. Nesse sentido, Kehl afirma que ciencia é a "sistematizaçâo progressiva do conhecimento", passando a ideia de que ela caminha sempre em linha reta e contínua, trazendo a concepçao de progresso e que a cada dia ela melhora mais (Kehl, [1927] 1958, p. 75). A ciencia é vista, portanto, como linear, irrefutável, uma verdade maior e definitiva.
Nas escritas de Kehl do primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia (1929), muitas ideias deterministas sao encontradas, como em "[...] preso a uma força [...] biológicamente [...] inexorável - a hereditariedade" (Kehl, 1929, p. 48), em que afirma que os seres humanos sao presos a diversas problemáticas sem remediaçao, provindas da hereditariedade; ou, ainda, em "[...] näo basta mudar de ambiente. Onde quer que o homem habite, sejam quais forem as açoes a que se o submeta, suas reaçoes oferecem sempre as mesmas tendencias" (Kehl, 1929, p. 48). Nessa afirmaçao nao existiam chances para alguma influencia provinda do enquadramento social, cultural, pois o entendimento é que algumas caracterizaçöes estavam enclausuradas e determinadas biologicamente; ou ainda, por fim, quando concluí que a educaçao é fundamental para a melhoria do social, mas apenas camufla algumas características, nao eliminando os problemas herdados, biológicos, visto que para estes somente a eugenia poderia ser a "mestra do progresso" (Kehl, 1929, p. 49).
Tanto na obra de Lobato como na de Kehl encontramos um forte determinismo biológico justificando um discurso racial, bem como identificamos uma visao de ciencia como detentora de respostas únicas. É válido ressaltar que analisamos uma época que, como qualquer outra, era imersa em valores ideológicos, detectando-se que esses mesmos discursos estavam presentes em diversos ámbitos sociais. O que podemos afirmar é que existiram aproximaçöes nessa linha de pensamento entre os autores estudados e que essas ideias também estavam intensamente disseminadas entre grande parte dos intelectuais da época.
Conflitos entre ambiente versus hereditariedade
Na época de Kehl e de Lobato as ideias de hereditariedade estavam postas perante os estudiosos. Nas discussöes entre eles havia divergencias nos discursos, que ora afirmavam que o ambiente promovia algumas características e ora que as características eram herdadas, biológicas, sem receber influencias do meio. Podemos explicar que essa divergencia existia em razao de ideologias e de ideias provindas de várias épocas da civilizaçao moderna europeia, como já citado, sendo um misto de teorias e de vertentes, a exemplo de Lamarck, de Darwin, de Galton, de Mendel e de tantos outros, como elucida Smaniotto (2012). Dessa forma, analisamos os posicionamentos dos dois autores em suas obras e o modo como explicavam características humanas, se elas eram derivadas do ambiente ou da hereditariedade.
Começando pelo livro analisado de Lobato, as contradiçöes a respeito de as características humanas serem socialmente/ambientalmente produzidas ou hereditárias sao bastante nítidas. Temos trechos em que o meio interfere: "Misteriosa influencia do ambiente geográfico" (Lobato, [1926] 2009, p. 102). Aqui Jane aceita o ambiente interferindo, de forma misteriosa, mas comprovada, nos cránios de algumas raças de regiöes distintas do globo terrestre. Ou, ainda, quando reafirma essa mesma ideia: "Figura atlética, apesar da modificaçâo craniana sofrida por influencia do meio" (Lobato, [1926] 2009, p. 101). Podemos notar, no livro analisado, que, em certos momentos, existe o entendimento de que o meio poderia transformar os seres humanos. Desse modo, fica a dúvida, durante a leitura, sobre o motivo por que algumas características nao podiam ser explicadas pelo que se viveu, pelo cultural/social. Vemos ainda que o autor destaca, em alguns momentos, a ideia do social criando estigmas ou preconceitos, sem ligaçao direta com o biológico, como em "Algemas de ferro foram substituidas pelas algemas morais", texto no qual o autor discorre sobre a dificuldade dos negros daquela época, que permaneceriam â margem da sociedade (Lobato, [1926] 2009, p. 133). Nesse momento, o autor nao contempla o biológico para tal acontecimento, mas somente o meio e a atitude discriminatória das pessoas. Em contrapartida, em diversos outros momentos, temos um grande determinismo biológico e hereditário, explicando que nao existiam brechas para mudanças nos seres humanos pelo meio social. Assim, temos frases como "O futuro já está predeterminado", na qual Jane nao ve outras possibilidades para as naçöes (Lobato, [1926] 2009, p. 49); ou "A lei espartana reduziu praticamente a zero os desgraçados por defeito físico" (Lobato, [1926] 2009, p. 98), reduzindo-os a uma inevitável condenaçao biológica; ou em "[...] promoveu a esterilizaçâo dos tarados, malformados mentais, peludos, surdos, loucos, histéricos, criminosos, fanáticos, místicos, vigaristas, prostitutas" (Lobato, [1926] 2009, p. 98). Todos eles, segundo o enredo, seriam biologicamente sem cura e sem possibilidade de influencias do meio, pois teriam, em seu ámago, a genética e o biológico para condená-los de forma predeterminada.
Quando partimos para Kehl, nesse sentido de contradiçöes de ideias, encontramos as mesmas situaçöes. Por exemplo, o autor já se referiu, como citamos anteriormente, a que a felicidade era algo biológico, hormonal e que a pessoa, para ser feliz, teria que nascer da forma adequada. Temos, porém, diferentemente, trechos em que alega que: "Diminuindo os maus, voce acaba com a infelicidade. A infelicidade é reflexo dos muitos homens maus que existem" (Kehl, [1927] 1958, p. 19). Aqui entäo o meio social influenciaría e causaria o problema. A infelicidade entäo näo seria mais biológica, mas, sim, causada pelas atitudes de homens maus. O próprio autor parece bastante confuso durante a escrita do livro. Em outros momentos, temos que "[...] estudos modernos sobre hereditariedade mostram que estamos presos a uma fatalidade orgánica e psíquica da qual näo podemos fugir, dependente de nossa constituiçâo e näo da simples influencia do meio" (Kehl, [1927] 1958, p. 39). Kehl parece, portanto, decisivo sobre a hereditariedade e o seu determinismo em alguns instantes. Em outros, porém, fala, por exemplo, de pessoas que acabaram se tornando criminosas pelo meio em que viveram. Posteriormente, destaca, em contrapartida, que algumas pessoas já nasceram, biologicamente falando, com aptidöes para o crime (Kehl, [1927] 1958, p. 45).
O paradoxo de ideias entre o determinismo biológico e a influencia do meio aparece também em outros momentos nas obras de Kehl. Por exemplo, discorre, em alguns trechos, que medrosos podem ter suas origens na escola, em casa ou nas igrejas. Alerta para o fato de que a educaçâo religiosa ou a própria educaçâo provinda dos pais, muitas vezes, sobrecarrega a criança de medos, de crendices, de superstiçöes e que estas influenciam näo só a vida infantil, mas podem também acarretar um total transtorno â vida adulta (Kehl, [1927] 1958, p. 56). Notamos entäo que algumas características podiam ser explicadas pelo meio social e cultural e näo por determinismo hereditário. O medo neste momento näo era considerado entäo algo biológico. Ninguém nascia medroso. Porém, näo demora muito e o próprio Kehl tenta explicar que "o medo muitas vezes é patológico" e discorre que pode vir, sim, de origem hereditária, porém nem sempre filho de medroso nascerá medroso (Kehl, [1927] 1958, p. 58). Mais adiante reitera que os medrosos devam ser "50% hereditarios e 50% influenciados" (Kehl, [1927] 1958, p. 59-60). A dúvida que fica é: - Mas, entäo, por que um filho de criminoso nasceria criminoso e por que as ideias eugenicas pregavam que este näo deveria procriar ou, pior, deveria ser eliminado da sociedade? Para esse tipo de ocorrencia näo existia possibilidade de o meio ter tornado aquele cidadäo um criminoso? Sequencialmente, em relapäo aos problemas como o dos bajuladores, o autor retrata como puramente biológico: "[...] säo doentes hereditarios, uma fatalidade biológica, e näo existe quase nenhuma forma de cura ou esforço para melhoria" (Kehl, [1927] 1958, p. 62). Temos constantemente essas idas e vindas entre o parámetro hereditário, o meio ou a mistura dos dois numa mesma situapäo. Em alguns momentos, Kehl culpa a educapäo, a cultura, os hábitos, os costumes, e, em outros, elenca totalmente a hereditariedade, sem chances de correpäo. Ora defende que a cultura e o meio social influenciam totalmente a personalidade das pessoas: "[...] para julgarmos, precisamos analisar quais situaçoes viveu, a cultura, o meio social" (Kehl, [1927] 1958, p. 104); ora divide em duas possibilidades: "[...] todo individuo é produto de dois fatores: hereditariedade e educaçâo. Personalidade específica, a nascida, e personalidade adquirida" (Kehl, [1927] 1958, p. 107); ou, ainda em relapäo aos ciumentos, que ora säo pessoas "doentes biologicamente e sem profilaxia" ou ora "[...] suscetíveis de profilaxia e de cura, pela educaçâo, higiene mental" (Kehl, [1927] 1958, p. 113); e, por fim, também existem aquelas pessoas que säo herdadas de algo sem cura, irremediáveis, como os inconsequentes, que "[...] pouco ou nada melhoram com os ensinamentos". (Kehl, [1927] 1958, p. 90).
Em relapäo âs contradiçöes de ideias, podemos perceber, nas obras de Renato Kehl, que ele sofreu influencias, em seus pensamentos, de outros cientistas e do que se acreditava na época, especialmente na Europa. Quando analisamos outro de seus escritos, como, por exemplo, o livro "A Interpretapäo do Hornem", que o médico escreveu anos â frente, publicado em 1951, percebemos diferenças e ntre aquele autor da década de 30 e este agora de 21 anos depois. Kehl agora estaria com uma forma de escrita bem menos agressiva e muito mais comedida. Começaria a levantar dúvidas ao invés de certezas e mostraria, logo de inicio, que a psicologia, a caracteriologia10 e a ciencia, até entäo, sabiam muito, mas que ainda restavam inúmeras lacunas a serem preenchidas. Segundo Kehl: "[...] muito ainda se confundía entre caráter nato ou personalidade adquirida" (Kehl, 1951, p. 8-9). O escritor também alertaria para o fato de que, por mais que seus escritos fossem indicados para tentar reconhecer vocaçöes e tipos vulgares da sociedade, as margens de erro nesse tipo de análise sempre seriam bem grandes e precisavam ser levadas em considerapäo (Kehl, 1951, p. 18). Ainda podemos destacar: "[...] esses erros ainda ocorrem por ser uma ciencia nova dentro da biologia e que esta precisa de muitos avanços e estudos" (Kehl, 1951, p. 20). Assume, portanto, a dificuldade de interpretar o que era biológico e o que era social. E, o que mais chama atenpäo, analisando brevemente esse outro livro de Kehl, é perceber uma defesa e ponto de vista quase inacreditável por vir da parte dele: "[...] que as misturas de raças existem e inúmeras formas de mesclas, e que a hereditariedade se perdura sim, mas que algumas características se perdem também, geraçâo pós geraçao" (Kehl, 1951, p. 24-25). Ou seja, até mesmo em se tratando agora de mistura de raças, que este autor em 1930 era extremamente categórico e contrário, agora se mostra um tanto quanto receoso e com dúvidas, sem afirmaçöes täo extremistas. Fica nítido como a ciencia pode alternar as suas conclusöes conforme o momento e, nesse caso, para um mesmo autor. Carvalho e Souza (2017) pesquisaram os escritos de Kehl no período pós-Segunda Guerra Mundial, entre as décadas de 1940 e 1960, e destacam que os seus discursos passaram a ser menos duros ou agressivos, porém jamais cessaram. Na mesma obra, Carvalho e Souza defendem também a ideia de que a eugenia, apesar de parecer ter sido deixada de lado como uma ciencia que causou dor, sofrimento e tragédias, está longe de ter sido totalmente abandonada, e continua presente, nos nossos dias atuais, de forma camuflada e mais subjetiva.
Concluimos, na temática "características ambientáis ou hereditárias", portanto, que foram encontradas aproximares nos discursos e nas ideias biológicas presentes nas obras de Monteiro Lobato e de Renato Kehl. E aqui pudemos responder a uma das perguntas iniciais do trabalho, na qual cogitamos se esses autores poderiam ter sofrido transformares em suas escritas ao longo do tempo. Concluimos que sim, que ambos autores sofreram metamorfoses e transformaçöes em suas escritas e de forma muito similar entre eles, o que pode levar a uma aproximaçâo de ambos ou, simplesmente, uma aproximapäo das ideologias que os dois viviam naquele momento histórico.
Visäo da mulher
A quarta temática de análise trata da visäo da mulher encontrada em alguns trechos da escrita do romance de Lobato. Em alguns momentos, Lobato demonstra certa neutralidade ao tratar da mulher ou até mesmo as defende. Por exemplo, podemos destacar a luta das mulheres com os movimentos feministas dentro da própria trama. Em contrapartida, em diversos trechos evidenciamos certo nivel de sarcasmo e da presença de falas que indicam a superioridade do homem, como, por exemplo, na passagem "[...] amor e casamento constituem a obsessäo única de todas as mulheres" (Lobato, [1926] 2009, p. 72); ou ainda quando narra uma das personagens como totalmente avessa ao "normal" por ser mulher: "Fui percebendo aos poucos que de feminino só havia em Miss Jane o aspecto. Seu espirito formado na ciencia e seu convivio com um homem superior dela afastavam todas as preocupaçoes de coquetismo, próprias da mulher' (Lobato, [1926] 2009, p. 62); ou, ainda, "[...] ambiçoes que atormentam o comum as mulheres" (Lobato, [l926] 2009, p. 70) - aqui o personagem Ayrton discorre sobre o natural das mulheres, destacando que miss Jane era uma incrível e inexplicável exceçâo. Temos ainda algumas passagens em que lemos "She is false as water' (Lobato, [1926] 2009, p. 143) - aqui Kerlog (ex-presidente) usa de um verso de Shakespeare para explicar a falsidade natural e intrínseca das mulheres. Entendemos que o livro é uma obra ficcional que revela comportamentos de diferentes personagens, mas que deixa em evidencia a defesa implícita de certas ideias e de ideologias que podem caracterizar a forma de pensar de seu autor ou que perpassavam os discursos da época, fortemente marcados por uma postura de superioridade masculina.
Quando abordamos o livro de Kehl, na tentativa de encontrar escritas nesse tema, näo encontramos elementos relacionados a estabelecer diferenciaçöes entre homens e mulheres e nem mesmo nos boletins de eugenia conseguimos encontrar relatos destinados a esse fim, tendo como base a ideia de superioridade do homem em relaçâo â mulher. É válido ressaltar que em poucos momentos de seus textos Kehl cita ou elenca situaçöes envolvendo mulheres nos Boletins de Eugenia, pois o que se encontra, säo apenas ressalvas de fortes nomes de mulheres estudiosas ou reconhecidas da época, como "Hildegart", descrita no exemplar de janeiro de 1933 (Kehl, 1933, p. 3) - como "jovem advogada, cuja atividade intelectual assombrava näo só pela produçâo como pelo valor e audacia de suas obras". Da mesma forma, em busca por outros estudos académicos, näo encontramos autores que discorressem diretamente a respeito de um posicionamento machista em obras de Renato Kehl, mas säo encontradas críticas em reyäo a escritas consideradas sobrecarregadas de marginalizaçäo â mulher, como destacam Silva e Goellner (2008), alegando que Kehl retrataría a mulher como indolente, preguiçosa, sedentária, entre outras desqualificaçöes.
Quando abordamos a percepçäo da mulher e as dificuldades das mulheres ao longo da história, estamos discorrendo a respeito de valores provindos de origens bastante longínquas. Chagas e Chagas (2017) fazem um apanhado histórico em ámbito mundial e prospectam o quanto o sexo feminino já foi excluído e prejudicado em nosso país, com o apoio da própria Constituyo de 1824, que eliminava as mulheres dos poderes civis, tais como votar, elencando-as como incapazes. Ainda, segundo esses mesmos autores, as mulheres conseguiram, em 1988 - na última e atual Constituyo Federal - a inclusäo de seus direitos, o que näo significou, na prática e até os dias de hoje, igualdade perante os homens. Mesmo assim, as mulheres ainda sofrem diversas heranças do machismo. Entendemos que os autores viviam em épocas distintas e que muitos avanços ocorreram desde entäo, mas é importante ressaltar que, mesmo naquele contexto, havia uma polissemia de discursos, inclusive com a luta de mulheres, como a bióloga Bertha Lutz, que lutou pelo direito de voto feminino no Brasil (Soihet, 2000). Esses discursos encontrados em obras da literatura podem evidenciar como o campo literário reflete alguns valores de sua época, contudo é importante destacar que sempre temos uma diversidade de posicionamentos, mesmo dentro de uma dada época. Alguns exemplos de falas que aparecem no livro "O Presidente Negro" podem servir de problematizaçâo, inclusive de alguns discursos que ainda estäo presentes, de maneira implícita, na sociedade. Nesse sentido, Silva e Mendes (2015) apontam para a grande força ainda existente do machismo na nossa sociedade, na qual jovens demonstram possuir uma postura machista construída desde a infância, influenciada pelos pais e sociedade, impregnada de estigmas, com papéis exclusivos para homens e outros para mulheres. Concluimos, nessa temática, que näo foram encontradas aproximaçöes nos discursos de Monteiro Lobato e de Renato Kehl nas obras analisadas desses autores.
A UTILIZAÇAO DO EPISODIO HISTORICO KEHL VERSUS LOBATO NO ENSINO DE CIENCIAS E DE BIOLOGIA
Parece ficar nítido que literatura, ciencia e ideologia caminham com o que se tem de fundamentaçâo em cada época e que nenhuma ciencia é neutra ou verdade absoluta. Ver a mudança de postura de Renato Kehl durante a sua vida e as suas obras é uma forma de ensinar que até mesmo um mesmo cientista pode apresentar concepçöes distintas, mudando seu posicionamento, que, muitas vezes, se associa a determinados contextos. Apresentar essas mudanças é uma forma de indicar o dinamismo da ciencia nas aulas de Ciencias e de Biologia. Assim, indicar o quäo Lobato e Kehl contraditórios foram em alguns de seus posicionamentos permite aos alunos abrir os olhos para a construçâo de uma visäo mais real perante a ciencia, nunca neutra e, sim, influenciada por fatores sociais, culturais, políticos e ideológicos (Meglhioratti; Andrade e Caldeira, 2010). Parece válido, portanto, no ensino, a tentativa de desconstruçâo da antiga concepçâo muito disseminada de que a ciencia esteja em uma constante "evoluçâo", no sentido de progresso, como aponta Smaniotto (2012). É importante também permitir que alunos percebam o quanto os autores destoavam em suas próprias afirmaçöes, indicando que o pensamento de um cientista e/ou intelectual nem sempre é linear, contendo articulaçöes com ideias de uma época e com as suas próprias variadas experiencias de vida.
Outro ponto a ser destacado é que a ciencia carrega e intensifica discursos, e esses nem sempre säo discursos que prezam a equidade e a justiça social. O discurso científico é capaz de gerar preconceitos e hierarquias, como aponta Góes (2015) e como vimos no estudo do movimento eugenico. Essa compreensäo é fundamental para que os alunos olhem näo apenas para a História da Ciencia, mas também para a construçäo científica atual de maneira crítica, buscando desvendar as ideologias implícitas que vem sendo veiculadas.
A assocäo do uso da História da Ciencia com obras da literatura de uma determinada época parece constituir estratégia relevante para abordar as visöes de ciencia em um determinado contexto histórico. Góes et al. (2018) destacam a importancia do uso de fontes literárias - e mesmo de literatura de fiäo futurística - para despertar olhares mais críticos em sala de aula. Da mesma forma, esperamos que utilizar um livro como "O Presidente Negro", de Lobato, possa desmistificar algumas imagens da Ciencia e ser extremamente relevante no Ensino de Ciencias e de Biologia. Nesse sentido, é pertinente, no contexto escolar, desenvolver uma análise crítica do texto, trazendo aspectos da história brasileira, das ideias biológicas presentes na época, das contradiçöes e das ideologias que estäo implícitas na obra. Também é válido destacar como as ideias científicas perpassam diferentes campos sociais, impregnando as formas de pensar cotidianas, os modos de produçäo artística, etc., ou seja, os discursos científicos näo ficam restritos aos seus contextos de produçäo. A compaäo da obra dos dois autores, de campos distintos do conhecimento (científico e da literatura ficcional), pode indicar como a ciencia se articula com outros campos sociais, que ressignificam os discursos científicos. Ao mesmo tempo a ciencia reproduz e ressignifica os discursos da sociedade, como indica Lewontin (2000). Desse modo, o uso das obras dos autores analisados pode despertar olhares e permitir a compreensäo de que as questöes raciais e racistas foram apoiadas pelo discurso científico e ideológico no início do século XX. Ainda, é essencial discutir que partes desses discursos ainda podem ressoar, ainda que de forma implícita, na sociedade atual, e que devem ser fortemente combatidas.
A obra de ficçâo "O Presidente Negro", de Lobato, está abarrotada de conceitos e de visöes da ciencia como algo decisivo, definitivo, determinista, progressista e linear. Assim, portanto, fazer uma análise crítica de uma obra como essa pode funcionar como uma ferramenta de trabalho educativo, como aponta Borim (2015), que elenca os efeitos satisfatórios do uso de fiäo em aulas. Para tanto, é necessário que o professor oriente o aluno a repensar concepçöes tradicionais de ciencia. Assim, é importante aliar tudo isso â abordagem da HFC, podendo quebrar visöes impregnadas de conceitos erróneos e construindo assim uma visäo mais realista da ciencia, como reforçam Meglhioratti, Andrade e Caldeira (2010).
O estudo descrito nesta pesquisa demonstra aproximaçöes e distanciamentos entre os autores elencados, indicando que, por mais que um dos autores aqui estudados possa ter influenciado o outro, a própria sociedade e intelectuais da época se fundamentavam em discursos que estavam disseminados. Em relaçâo âs ideologias mais amplas relacionadas com a questâo racial e a visäo da mulher, pode-se trabalhar em sala de aula as origens históricas de tais concepçöes, mostrando que, para todo discurso e ideologia, sempre existem outras possibilidades de visöes e de posturas contrarias. No caso estudado do movimento eugenico, segundo Souza (2006), na época de Renato Kehl existiam intelectuais que se mostraram contrarios aos ideais eugenicos. Assim, sempre existem posturas diferentes a respeito de um dado fenómeno, mesmo que numa mesma época. Mesmo autores com ideologias próximas, como Lobato e Kehl, tem pontos em que apresentam maiores aproximaçöes, enquanto em outros, maiores distanciamentos.
É importante destacar que os discursos científicos que fundamentam injustiças sociais e exclusöes (como o da eugenia) devem ser combatidos. É fundamental, na sala de aula, evidenciar que näo existe um tipo de ser humano padräo e que é necessaria uma constante vigilancia em relaçâo â produçâo do conhecimento científico. Desse modo, a discussäo do movimento eugenico pode contribuir para identificar como a ciencia é utilizada para justificar açöes políticas, económicas e sociais, devendo o aluno desenvolver uma postura crítica em relaçâo a ela. Também é importante articular a discussäo dessa temática com a defesa do respeito â diversidade humana. Da mesma forma que temos que ter cuidado com os discursos científicos, também devemos avaliar criticamente uma obra literaria, mesmo que de fiäo, ainda mais quando foi elaborada em outro contexto histórico. Assim, a obra de Monteiro Lobato pode ser trabalhada no ámbito escolar desde que seja contextualizada e percebida de modo crítico, ressaltando as ideologias que a permeiam.
CONSIDERAÇOES FINAIS
De modo a responder âs perguntas iniciais, apresentadas no início deste trabalho, podemos dizer que encontramos pensamentos bastante similares entre os autores e que, em diversos aspectos, poderíamos estabelecer que existem aproximaçöes em suas escritas. Existem conceitos e concepçöes biológicas muito similares entre as obras e ambos sofreram, no decorrer de suas vidas, grandes metamorfoses e transformaçöes em seus pontos de vista perante as explicaçöes para o problema do brasileiro. Isso, porém, näo nos autoriza a afirmar que as suas escritas tenham uma reäo direta apenas entre si. Ambos os autores tiveram influencias de diversos estudos, escritores e ideologias vigentes em suas épocas. Podemos afirmar, contudo, que existiram aproximaçöes no modo de pensar desses autores e que eles tiveram contato e estavam imersos em discursos científicos próprios de uma dada época. Fazer alegaçöes de vínculos maiores que esses seria inconsistente. Quanto â articuäo das obras desses dois autores no ámbito educacional, entendemos que elas podem ser vinculadas â história da Biologia e aos aspectos da compreensäo da Natureza da Ciencia. Nesse contexto, é importante evidenciar a ciencia como empreendimento rico em divergencias e permeado por ideologias.
Agradecimentos
Agradecemos ao professor Vanderlei Sebastiäo de Souza, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), pelas sugestöes de leitura relativas â biotipologia e ao pensamento de Renato Kehl após a década de 1940.
1 O movimento eugenico foi entendido, â sua época, como uma ciencia do melhoramento da "raça" humana, tendo o termo "Eugenia" sido cunhado por Francis Galton, em 1883 (Castañeda, 2003).
2 Esta pesquisa decorre do Trabalho de Conclusao de Curso do primeiro autor sob orientaçao da segunda autora.
3Segundo Pena (2005), existe um consenso atual na Biologia de que "raça humana" nao é uma categoria biológica válida. Além disso, para o autor, o termo é carregado de ideologias que podem fomentador injustiças. Por outro lado, o termo "raça" tem sido usado por alguns movimentos sociais, de forma política, para valorizar a herança cultural dos africanos (Brasil, 2004).
4Vimieiro-Gomes (2016) relata a passagem pelo nosso país da Biotipologia ou "medicina constitucional" - originada na Itália - que tentava elencar o biótipo médio corporal das populaçöes, com alicerce em diversas variantes morfológicas e fisiológicas, constantemente associada a concepçöes eugenicas de melhoramento racial.
5Segundo Carneiro (2006), a expressäo Ku Klux Klan é derivada do grego kuklos que significa círculo ou bando, e do escoces klan, que conota clä. A autora ainda relata a passagem do movimento de encapuzados pelos Estados Unidos, pela Europa e sua existencia ainda nos dias atuais.
6 A primeira ediçâo de "Tipos Vulgares - Introduçâo a psicología da personalidade" é de 1927, primeiramente publicada na Espanha e Argentina, e posteriormente em nosso país, surtindo um grande sucesso de vendagem (Masiero, 2014).
7 Convertido do romance original "O choque" de 1926, lançado pela Companhia Editora Nacional. O romance foi traduzido e lançado na Argentina por Benjamin de Garay em 1935, sob o título de "El presidente negro" (Smaniotto, 2012).
8 A primeira ediçâo foi lançada em 1944 (Lobato, 1959).
9Kerlog - um dos personagens principais da trama "O Presidente Negro, é ex-presidente branco que disputava a atual candidatura com Jin Roy, candidato negro. (Lobato, 2009)
10 Segundo Abib (1998), a caracteriologia, estudo do caráter, foi uma área dentro da Psicologia que tentou encontrar padröes em expressöes corporais, faciais e comportamentais com base na hereditariedade.
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Recebido em: 26.04.2019
Aceito em: 13.03.2020
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© 2020. This work is published under https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/ (the “License”). Notwithstanding the ProQuest Terms and Conditions, you may use this content in accordance with the terms of the License.
Abstract
A presente investigação se insere no ámbito de trabalhos voltados â História da Ciencia e ao Ensino de Ciencias e de Biologia e objetiva explicitar algumas ideias biológicas presentes na primeira metade do século XX que estiveram associadas ao movimento eugenico, bem como, refletir sobre como essas ideias ressoaram no campo da literatura ficcional daquele momento histórico. Para tanto, por meio da análise historiográfica documental, investigamos dois importantes autores da época: Renato Ferraz Kehl (1889-1974) e Monteiro Lobato (1882-1948). Buscamos traçar algumas aproximares entre os discursos biológicos presentes no ámbito académico com outras instáncias sociais, em específico, com a literatura, evidenciando assim relaçöes que se estabelecem entre ciencia e sociedade. Foram apontadas aproximaçöes e/ou distanciamentos nos discursos dos autores em relaçâo as seguintes temáticas: Questâo racial; Determinismo Biológico e Visâo da Ciencia; Conflitos entre ambiente versus hereditariedade; Visâo a respeito da mulher. Por fim, foi discutido como a análise do movimento eugenico e as obras desses autores podem contribuir para o entendimento da articulaçâo entre ciencia e pensamento literário de uma época. No campo educacional, concluiu-se que o estudo dessa temática pode auxiliar a entender que a ciencia está imersa em valores políticos, sociais, económicos, culturais e que os discursos científicos influenciam outras instáncias sociais. Destacou-se também que é importante ver a ciencia com um olhar crítico, de modo a combater discursos que possam levar a discriminaçâo e a exclusâo social. Além disso, o estudo contribui com a reflexâo a respeito de uma obra literária, contextualizando-a em relaçâo ao período em que foi escrita.





