DONOSO ROMO, Andres. A Educaçao Emancıpatorıa: Ivan Illich, Paulo Freire, Ernesto Guevara e o Pensamento LatinoAmericano. Traduçâo de Daniel Garroux e Mariana Moreno Castilho. São Paulo: EDUSP, 2020, 142 p.
Para citar- (ABNT NBR 6023:2018)
SILVEIRA, Bruno Perozzi da. Resenha. Eccos - Revista Científica, São Paulo, n. 59, p. 1-7, e20951, jul./set., 2021. Resenha. DONOSO ROMO, Andres. A Educagao Emancipatória: Iván Illich, Paulo Freire, Ernesto Guevara e o Pensamento Latino-Americano. Traduqão de Daniel Garroux e Mariana Moreno Castilho. São Paulo: EDUSP, 2020, 142 p. https://doi.org/10.5585/eccos.n59.20951.
A obra aqui apresentada foi escrita por Andrés Donoso Romo, Doutor em Ciencias com mençao em Integraçao da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisador do Centro de Estudos Avançados da Universidade de Playa Ancha, no Chile e professor do Centro de Pesquisas Avançadas em Educação, no Instituto de Educação da Universidade do Chile. O livro foi publicado no segundo semestre de 2020, pela Editora da Universidade de São Paulo, a Edusp, com o título A Educagao Emancipatória: Ivan Illich, Paulo Freire, Ernesto Guevara e o Pensamento Latino-Americano, com a traduçao de Mariana Moreno Castilho e Daniel Garroux. Pode-se afirmar que o estudo tem como principal enfoque os vínculos entre educação e transformação social a partir da análise de alguns pensadores latino-americanos: Paulo Freire, Ernesto Guevara e Iván Illich.
A obra está dividida em tres partes e sete capítulos, precedidos pelos agradecimentos e pela introduçao. Na Primeira Parte é realizada uma contextualização histórica do período de tensöes sociais, guerrilhas e revoluçöes na América Latina, em específico entre os anos de 1950 e 1980, apesar de o autor traçar um panorama mais abrangente no primeiro e no segundo capítulo, respectivamente: As tensoes contemporáneas da América Latina em perspectiva histórica e O desenvolvimento em disputa na intelectualidade latino-americana.
O primeiro capítulo realiza a apresentaçâo de uma contextualizaçâo ampla, a partir de uma interpretaçâo das dimensöes cultural, política e económica das transformaçöes, tensöes, progressos e permanencias na América Latina entre o fim do século XIX e os anos 1980. Ao realizar tal contextualizaçâo, o autor estabelece relaçöes entre as transformaçöes culturais, as de caráter económico e político.
Para Donoso Romo, o início da contemporaneidade latino-americana gerou um rápido decréscimo das atividades agrícolas acompanhado pelo processo de industrializaçâo. Esses fatores tiveram impacto direto na vida dos indivíduos, gerando uma apropriaçâo sistemática das terras indígenas e camponesas, levando ao exodo rural e ao crescimento urbano desordenado, alimentado pelo fluxo de camponeses e indígenas sujeitados a condiçöes de moradia precárias e ao subemprego.
O autor parte da afirmaçâo de que o período da década de 1950 até a de 1980 é marcado pela urbanizaçâo crescente e pela industrializaçâo, o que leva ao aprofundamento de conflitos sociais oriundos do passado colonialista e das contradiçöes inerentes aos processos de independencia. Nesse contexto, há uma agudizaçâo de antigos problemas sociais, políticos e económicos, como, por exemplo, a apropriaçâo sistemática de terras indígenas e camponesas, o que leva a sujeiçâo destes povos originários aos subempregos ou a migraçâo para os centros urbanos. É no contexto do pós-Segunda Guerra mundial que, segundo Romo, um círculo vicioso de violencia se estabelece no continente, com a eclosâo de golpes de Estado e guerras internas, que levam a ascensâo de regimes ditatoriais, em muitos casos de caráter militar. Nesse "círculo vicioso", destaca-se o golpe que ocorreu na Guatemala em 1954, dado que este teve "um caráter especial em decorrencia da ativa participaçâo da inteligencia estadunidense. Isso permite compreende-lo (...) como a primeira manifestaçâo concreta da guerra fria na região" (DONOSO ROMO, 2020, p.36), abrindo todo um ciclo de intervençöes e influencias estadunidenses nos países latino-americanos.
Se o ano de 1954 foi marcante para as ditaduras, 1959 o foi para as guerrilhas. Pouco tempo depois dos incidentes na Guatemala, em Cuba venceu pela primeira vez um movimento guerrilheiro. Entre as principais repercussöes que teve a vitória rebelde na América Latina, destacam-se: a mudança dos parámetros do possível e do impossível (...) e a fomentaçâo direta ou indireta, de guerrilhas por toda a regiâo. (DONOSO ROMO, 2020, p. 37)
No segundo capítulo, O desenvolvimento em disputa na intelectualidade latinoamericana, o autor apresenta algumas correntes interpretativas, produzidas pela disputa entre ıntepretaçöes e perspectivas sobre o desenvolvımento, os camınhos e as possıbılıdades da América Latina frente ao recrudescimento político, representado pela ascensão das ditaduras e as possibilidades abertas pela vitória revolucionária cubana. De qualquer modo, essa efervescencia política, que se agudizou após a tomada de Havana, gerou um período bastante fértil para as discussöes das Ciencias Sociais.
Algumas correntes intelectuais de interpretaçâo da América Latina entram em disputa: por um lado, a partir da fundaçao da CEPAL (Comissão Económica para a América Latina e Caribe) em 1948, uma vertente deu centralidade ao que se convencionou chamar de desenvolvimentismo: teorias que defendiam que, com o auxilio dos países mais ricos, os países pobres poderiam se desenvolver e até alcançar patamares próximos ou iguais das naçöes desenvolvidas. Por outro lado, a partir da década de 1960, outra interpretaçâo ganha relevancia, a chamada Teoria da dependencia, que se configurava como um conjunto de reflexöes em torno da problemática do subdesenvolvimento e sua persistencia. Segundo os teóricos da Teoria da dependencia, sao necessárias transformaçöes estruturais para a superaçao do atraso, a partir de reformas essenciais, como a ampliaçao do controle estatal e a reordenaçao do sistema social, com principal enfoque em um projeto educacional.
É partindo desses pressupostos que Donoso Romo dá início ao terceiro capítulo, Os Melhores anos da Educaçao na América Latina, 1950-1980, no qual, de modo geral, apresenta os processos que transformaram a educaçao neste período, ou seja, a ampliaçao do acesso a escolarizaçao formal e o ciclo de reformas educacionais. Entre os anos 1950 e 1980 houve um aumento significativo da cobertura educacional e do acesso escolar, "enquanto em 1960 a matrícula no ensino primário nao conseguia alcançar 60% da populaçao em idade escolar, em 1985 ela superava 80%" (DONOSO ROMO, 2020, p. 56). Tal ampliaçao se deu nao apenas pela democratizaçao da educaçao formal, mas também por sua homogeneizaçao.
É, portanto, a partir desse momento, em que as teorias sociais buscavam compreender e afirmar as identidades latino-americanas e entender os motivos do atraso e os caminhos para sua superaçao, que teorias pedagógicas críticas e utópicas passam a ser produzidas. Donoso Romo apresentará, na Segunda Parte do livro, tres autores, que nao foram apenas importantes em sua época, mas fundaram interpretaçöes e realizaram proposiçöes até hoje discutidas. Iván Illich, Paulo Freire e Ernesto Guevara produziram teorias originais, diferentes entre si, mas ambas profundamente críticas aos modelos tradicionais de educaçao e a heterogenia produzida e reproduzida pela instituiçao escolar.
No quarto capítulo, Iván Illich, a desescolarizaçao e a Revoluçao Cultural, o autor apresenta a obra de Iván Illich, defendendo a tese de que o autor pode ser considerado um dos intérpretes da América Latina do ponto de vista do problema da educaçao e da escola.
Quando se refere a Illich, o primeiro termo que é associado a ele é desescolarizaçao, conceito central de sua teoria pedagógica. O primeiro pressuposto do qual o autor parte é a dissociaçao entre educaçao e escola. Tal dissociaçao seria o primeiro passo para uma revoluçao cultural, em que a educaçao seria a força motora, da transformaçao total da sociedade. Mas o que levaria o Illich a defender uma ideia que, a primeira vista, parece estranha: a concepçao de uma Sociedade sem escolas? Segundo Romo, devemos entender a crítica a instituiçao escolar de um ponto de vista mais amplo, partindo da compreensao do papel atribuido a esta instituiçao social tanto no campo da economia política, como no campo da ideologia. Para o autor, ao se estabelecer a confusao entre escola e educaçao, esta última passa para segundo plano, tendo em primeiro plano a escolarizaçao.
A obrigatoriedade da escola se deu concomitante a colocaçao de uma tarefa outra: preparar os individuos moral, intelectual, atitudinal e ideologicamente para a inserçao no modo de produçao industrial. Desse modo, mais do que mera reprodutora, a escola é, pela obrigatoriedade e pela confusao entre formaçao e escolarizaçao, promotora de opressao, responsável por "produzir bons consumidores" (DONOSO ROMO, 2020, p. 77)
Como Donoso Romo apresentara nos dois primeiros capítulos, nos anos 1960 e 1970, a perspectiva da revoluçao toma centralidade na América Latina, sendo leitmotiv nas discussöes teóricas. Nesse contexto, diversos intelectuais buscam compreender tais possibilidades e os caminhos para a sua concretizaçao. Illich toma para si a tarefa de encontrar, apontar e seguir por uma alternativa revolucionária, cujo epicentro seria o terceiro mundo. Segundo o autor, este é o ponto central da proposiçao illichiana, ou seja, a possibilidade inerente a educaçao de transformar nao apenas o aspecto formativo, mas a sociedade como um todo, superando as formas opressivas de sociabilidade em nome de uma forma emancipatória, a convivencialidade.
Assim, a desescolarizaçao seria a força motora desta transformaçao, que teria como ato inaugural a formaçâo de "redes educacionais", não hierárquicas, em que cada um contribuiría com aquilo que pudesse, se aproximando, como demonstra Romo, do que Freire defendia, na mesma época, no Brasil.
Já no quinto capítulo, Paulo Freire, o Pensamento Latino-Americano e a Luta pela Libertaçao, Donoso Romo traça uma análise do pensamento freireano a partir de quatro eixos interpretativos, o processo de alfabetizaçao do próprio autor, sua proposta de alfabetizaçao, o estabelecımento de seu pensamento e o movimento intelectual e prático que propunha a construçao de uma nova sociedade e, por fim, as relaçöes entre relaçao e a luta revolucionária.
Ao buscar a compreensão das contribuiçöes da teoria pedagógica freireana no contexto latino-americano, o autor realiza um caminho biográfico e histórico, desde as experiencias da infancia de Freire com sua família, passando pelo projeto de alfabetizaçao de adultos em Angicos, no Rio Grande do Norte, base para sua perspectiva de educaçao popular, em consonancia com as proposiçöes da teologia da libertaçao.
Ao abordar a obra do educador brasileiro, Donoso Romo a interpreta no contexto de ascensao das ditaduras militares da América do Sul, acompanhando a atuaçao de Freire durante o governo progressista de Joao Goulart, bem como a perseguiçao sofrida após o golpe militar de 1964, que o levou ao exilio no Chile.
É no durante seu exilio no país andino que, segundo Romo, Freire desenvolve, de modo mais acabado, suas ideias sobre educaçao e prática política e, de certo modo, sobre os problemas sociais da América Latina.
Fruto dessas reflexöes, a "Pedagogia do Oprimido" tem boa recepçâo, por se ancorar em experiencias concretas, por seu direcionamento "aos deserdados do mundo" (ROMO, 2020, p.97), por sua por sua escrita militante, que atribua o papel de conscientizar e mobilizar os oprimidos para a superaçao da situaçao opressora. Por fim, ainda acompanhando o percurso trilhado por Freire, Donoso Romo se debruça sobre a pedagogia da esperança, sobre as proposiçöes do educador após sua saida do Chile, em 1969, e sua ida para Harvard, nos E.U.A.
A conclusao de Donoso Romo, ao refletir sobre as relaçöes possíveis entre a obra de Freire e as lutas revolucionárias, é a de que o papel de conscientizaçao da educaçao nao é, em si, um aspecto revolucionário, mas um apoio indispensável aos processos revolucionários. Toda revoluçao, segundo Romo, tem um trabalho cultural libertador que a acompanha e a Educaçao Popular, a pedagogia do oprimido e da esperança, seriam parte importante deste trabalho cultural.
No sexto capítulo, último da Segunda Parte, intitulado Ernesto Guevara e o Papel da Educaçao nos Processos revolucionários, neste capítulo, abordagem se dá de um modo um pouco distinto, já nao se trata de estabelecer relaçöes entre teoria pedagógica e praticas revolucionárias, produzidas por agentes e em contextos distintos, trata-se de compreender as proposiçöes para a educaçao de um revolucionário, Ernesto Guevara, e a tentativa de colocar tais proposiçöes em prática em pleno processo revolucionário.
Donoso Romo acompanha o percurso do revolucionário argentino, dando especial atençao aso seus escritos sobre educaçao. No entanto, a questao, que é mote de toda a obra, aparece com centralidade naquele primeiro de Janeiro de 1959, ou seja, qual seria, no contexto da Revoluçao Cubana, o papel da educaçao? Um ponto central a ser abordado era a interpretaçao do próprio processo revolucionário estabelecida por Guevara. Para ele, "o socialismo económico nao lhe interessava se ele nao estivesse acompanhado de uma moral comunitária" (DONOSO ROMO, 2020, p. 115). Assim, ao tomar como indissociável a luta contra a miseria e a luta contra a alienaçao, Guevara coloca a educaçao no centro dos processos de transformaçao social.
No caso da Cuba revolucionária, um dos primeiros indicativos visíveis da relevancia que adquiriu a educaçao pode ser rastreado quando, após poucos meses da vitória rebelde, todas as fortalezas militares começaram a ser transformadas em escolas. (DONOSO ROMO, 2020, p. 116)
Donoso Romo aponta outros exemplos desta centralidade da educaçao no processo revolucionário, talvez, o mais emblemático deles seja a "Campanha de Alfabetizaçao", que teve inicio em 1961 e durou até 1975. Essa campanha expressa, segundo o autor, um "primeiro passo para acabar com as diferenças entre o povo e a vanguarda" (DONOSO ROMO, 2020 p.117). Essa práxis educativa, ativa e revolucionária, foi levada por Guevara por onde passou, em suas contribuiçöes em processos de sublevaçao e revoluçao na América e África. De certo modo, sua pedagogia adotou o intuito de, pela educaçao, transformar as pessoas em revolucionárias,
Devia-se transformar toda a sociedade em uma grande escola preocupada em induzir, por meios racionais, o tao almejado empenho que se conseguia através do apelo emocional. (DONOSO ROMO, 2020, p.122).
Essa mobilizaçao total da sociedade revolucionária, mediada e motivada pela educaçao, foi denominada por Guevara como "autoeducaçao".
Na Terceira Parte e sétimo capítulo, intitulado Educaçao e Transformaçao Social no Pensamento Latino-Americano, Donoso Romo retoma os principais aspectos da obra, as teorias pedagógicas mobilizadas, estabelecendo relaçöes entre elas, de modo a apresentá-las como reflexöes complementares, fruto de um contexto de conturbaçöes sociais, mas que podem ser trazidas para a atualidade.
A obra de Donoso Romo apresenta uma reflexao de suma importancia por motivos diversos: por apresentar ao leitor brasileiro uma história da América Latina de um ponto de vista da práxis e da epistemologia, ao tomar as lutas revolucionárias, revoluçöes e contrarrevoluçöes como fio condutor, aproximando e relacionando os diferentes contextos com teorias pedagógicas produzidas. A escolha das teorias de Illich, Freire e Guevara corroboram com sua tese, Já que as teorias /tratam de propostas que, apesar das diferenças marcantes, encontravam na educaçao um meio de conscientizaçao quanto a opressao e dominaçao, e, ainda mais, propunham que a educaçao é prática transformadora e emancipatória, nao como complemento dos processos revolucionários, mas como cerne e força motora desses processos. A leitura de A educaçao Emancipatória nos leva a uma reflexao sobre nós mesmos, sobre as opressöes que marcam nossa história, mas também sobre a resistencia e luta contra essa opressao. Apresenta a educaçao como caminho a ser trilhado para a transformaçao qualitativa das sociedades.
Referencias
DONOSO ROMO, Andres. A Educaçao Emancipatória: Iván Illich, Paulo Freire, Ernesto Guevara e o Pensamento Latino-Americano. Traduçao de Daniel Garroux e Mariana Moreno Castilho. Sao Paulo: EDUSP, 2020. 142 p.
SILVEIRA, Bruno Perozzi da. Educaçao Zapatista como Utopia Concreta. 2020. 231 f. Tese (Doutorado em Ciencias Sociais) - Universidade Estadual Paulista, Araraquara-SP, 2020.
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1 Doutor em Ciencias Sočiais Universidade Estadual Paulista - UNESP Araraquara, São Paulo - Brasil. [email protected]





