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Abstract
Os lípidos são um dos principais componentes nos seres vivos. Estes possuem, entre outras, funções de armazenamento de energia, participam na constituição das membranas biológicas, são utilizados como mensageiros intracelulares, cofatores enzimáticos e percursores na síntese de produtos celulares. Nos últimos anos, o aumento da incidência da obesidade nos países ocidentais, esteve na base de uma nova hipótese que sugere a existência de fatores de risco ambientais, tais como poluentes, que poderão promover este fenómeno. Vários químicos, designados de disruptores endócrinos (EDCs), possuem a capacidade de interferir com a fisiologia dos organismos, alterando diversos processos biológicos. Recentemente, alguns EDCs foram descritos como tendo a capacidade de modelar a homeostasia lipídica em várias espécies de vertebrados e invertebrados. Estes químicos foram designados obesogénios. O principal mecanismo associado à desregulação da homeostasia lipídica parece envolver a modelação inapropriada de recetores nucleares (NRs). Os poluentes com propriedades obesogénicas mais estudados em mamíferos são os organoestanhos tributilestanho (TBT) e trifenilestanho (TPT), estes são reconhecidos como ligandos dos NRs, recetor ativado pelo proliferador de peroxissomas gamma (PPARγ) e recetor X do ácido retinoico (RXR). O PPARγ, que forma um heterodímero com o RXR, possui um papel crucial na adipogénese. Enquanto o ortólogo do PPAR foi reportado apenas em deuterostómios e moluscos, o RXR encontra-se presente na grande maioria dos metazoários. Contudo, a informação relativa ao PPAR em invertebrados é escassa, o que dificulta a compreensão da(s) função(s) deste fator de transcrição e a sua possível dirupção por EDCs
O trabalho desenvolvido durante esta tese pretende preencher as lacunas identificadas anteriormente e expandir o conhecimento relativo à perturbação da homeostasia lipídica associado com EDCs, focando-se em particular na modelação de NRs pelos organoestanhos, obesogénios modelo em mamíferos. Primeiramente focouse na caracterização funcional dos PPARs num amplo conjunto de taxa vertebrados e invertebrados, explorando os resultados num contexto evolutivo e toxicológico. Inicialmente isolou-se e efetuou-se a caracterização funcional de um ortólogo do PPAR em moluscos recorrendo a análises de genómica comparativa, filogenia e ensaios de transativação. A espécie selecionada para o estudo foi o gastrópode Patella depressa, cujo PPAR transativou na presença de presumíveis ligandos naturais, como o ácido araquidônico (ARA) e eicosapentaenoico (EPA). Posteriormente avaliou-se a resposta deste recetor na presença de TBT e TPT. Ambos os organoestanhos reprimiram o PPAR de P. depressa tanto em monómero como em heterodímero (PPAR/RXR).Seguidamente testaram-se os efeitos in vivo no perfil de ácidos gordos de P. depressa quando exposto a níveis ambientalmente relevantes de TBT. A exposição a diferentes concentrações de TBT (100 e 250 ng Sn/L) revelou alterações estatisticamente significativas no perfil de ácidos gordos, reforçando as observações in vitro
Antes do presente trabalho não existia informação disponível relativa aos efeitos dos organoestanhos no metabolismo lipídico de equinodermes ou qualquer caracterização do PPAR nestes organismos. Tendo em conta que o PPAR está previsto no genoma deste taxa, e considerando a sua posição filogenética, foi isolado e funcionalmente caracterizado um PPAR de Paracentrotus lividus.





