Resumo: Este artigo aborda a linguagem do/a palhaço/a e da experiencia relacional com pré-adolescentes e adolescentes autistas, tendo como perspectiva a inclusao social destes últimos, a partir da premissa de que o/a palhaço/a, que atua com pré-adolescentes e adolescentes autistas, reforçado em sua essencia transgressora e subversiva, intensifica vias de comunicaçâo e expressao, assim como o impulso relacional das pessoas dentro do espectro autista. O encontro entre eles potencializa e reconhece o caráter identitário desta neurodivergencia.
Palavras-chave: palhaçaria; riso; autismo; neurodiversidade.
Abstract: This article approaches the language of the clown and the relational experience with autistic pre-teens and adolescents, with the perspective of the latter's social inclusion. It starts from the premise that the clown who works with autistic pre-teens and adolescents, reinforced in his transgressive and subversive essence, intensifies ways of communication and expression, as well as the relational impulse of people within the autistic spectrum. The meeting between them enhances and recognizes the identity character of this neurodivergence.
Keywords: clowning; laughter; autism; neurodiversity.
Recebido em 23/08/2022
Aceito em 31/08/2022
Nao existe imparcialidade, todos sao orientados por uma base ideológica. A questao é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?
(Paulo Freire)
Na década de 1970, a artista plástica Lygia Clark desenvolveu uma performance chamada Estruturaçao do Self, com objetos artísticos manipuláveis por quem colocasse seu corpo e sua sensibilidade disponíveis para a experimentaçâo. Mais tarde, o mesmo trabalho foi incorporado pelo artista e psiquiatra Lula Wanderley ás práticas da Casa das Palmeiras1. "Comecei a praticar e a estudar com ela questôes de arte, corpo e psiquismo. Lygia dizia que o que fazia era política. Sempre me intriguei com essa frase." (WANDERLEY, 2021, p. 5) Muitas vezes ele reforça que se trata de arte e nao terapia.
Quando me pus a pesquisar, há alguns anos, as interaçöes entre palhaços e pessoas autistas nao imaginava que fosse algo tao transformador, nem tinha o diagnóstico que tenho hoje: sou autista de nível 1 de suporte. Uma palhaça autista que pesquisa ambos. Dentro da prática profissional e artística - como palhaça e professora de teatro e palhaçaria - venho buscando observar e analisar a relaçao entre palhaços/as e crianças autistas, através da linguagem da máscara e da sensibilizaçao. Tentei entender o tempo e a memória e experimentar jogos e ritmos enquanto palhaça: em que ponto se entrelaçavam, em quais mecanismos cerebrais e corpóreos se construía e dissolvia a memória? Qual seria a memória do "corpo em jogo"? A dimensao das hierarquias hospitalares e da desumanizaçao de um paciente que nao se comunica (mais) através da linguagem verbal e cujo corpo vai adquirindo uma potencia tanto mais sensorial quanto mais avançada a perda da comunicaçao verbal e da compreensao de qualquer organizaçâo linear do tempo, sempre me despertou reflexöes.
Em 2007, tornei-me mâe, e aos dois anos de idade minha filha teve o diagnóstico de autismo. Sua avó materna nao falava mais, porém, se lembrava do nome da neta: Sophia. Era essa uma das poucas palavras que, de tempos em tempos, dizia. Passei, entao, a frequentar outros espaços de terapias, médicos, hospitais... E com eles veio ainda mais presente a percepçao do olhar sobre a diferença. Se já era raro o tratamento um pouco mais humano destinado a alguém com perda de memória ao ponto de nao conseguir mais escolher palavras, pode-se imaginar como seria aquele dedicado a uma criança que nao faz contato visual frequente e nao é oralizada.
Hoje, em 2022, minha filha Sophia tem quinze anos. Na época de seu diagnóstico -e até pouco tempo -, acreditava-se que uma pessoa dentro do espectro autista e nao verbal nao entendia o que falavam com ela e nem o que se passava â sua volta, além do que, teria necessariamente déficit cognitivo. Daí grande parte das pessoas leigas e até dos profissionais que consultamos nao falarem diretamente com ela, âs vezes nem sequer olharem para ela. Como eu a olhava o tempo todo, tinha certeza de que Sophia entendía tudo, ainda que experimentasse o mundo de uma maneira própria.
Tivemos a oportunidade de desenvolver nosso trabalho com adolescentes no espaço da Casa Sapucaia, um casarao antigo e aberto localizado no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, cercado de plantas, texturas, cheiros, espaços abertos e amplos, dois caes e dois gatos. Ali construimos nossos encontros todas as sextas-feiras, durante cinco meses com uma equipe de seis palhaços e quatro adolescentes autistas, de niveis distintos de necessidade de suporte. Jogamos, brincamos, lanchamos junto aos responsáveis, autistas e palhaços. Também enfrentamos crises de sobrecarga sensorial e acolhemos nossos limites e impossibilidades. Pudemos ali verificar a hipótese de que a natureza humana e ridícula do/a palhaço/a, sua presença e jogo, sao capazes de se comunicar, de ouvir "a voz" do autista pelas vias sensoriais da relaçao, em especial numa fase em que o/a adolescente busca afirmar sua identidade, como qualquer um de nós, sujeito âs limitaçöes impostas por sua condiçao. Obtivemos indicativos extremamente relevantes no sentido do desenvolvimento de habilidades de comunicaçao e interaçao social nessas pessoas, observando-se e respeitando-se sempre sua condiçao de autista.
Creio que um dos motivos pelos quais os jovens autistas sao atraídos a jogar com os palhaços e as palhaças está no estado da máscara, na açao que se dá com o corpo, no pensamento que se torna corporeidade, em poder ver com os ouvidos e sorrir com as orelhas. Nao é tao metafórico como pode parecer: a sinestesia sensorial implica na açao conjunta dos sentidos sob uma atençao que ultrapassa aquela que antecipa o acontecimento. Do ponto de vista do treinamento do ator, essa é a condiçao que está presente tanto na Biomecánica de Meyerhold, no exercício da "alma" ou dos afetos para Artaud, na disciplina física do Teatro de Bali ou no Butoh, como também nas pesquisas de Grotowski. Mas também remonta â comedia dell'arte e ao teatro de Moliere, inclusive no que se refere â manipulaçao de formas animadas. Dario Fo faz renascer a figura do bufâo e defende a narrativa gestual como imprescindível para o teatro. O palhaço ou a palhaça de que tratamos aqui é aquele/aquela treinado/a com rigor dentro da linguagem da máscara teatral, inserida na visao global do teatro contemporáneo. O próprio público é também agente artístico do jogo que se desenvolve. Essa nao é uma investigaçao sobre uma possível terapia para pessoas autistas, ainda que os resultados experimentados tenham reverberaçöes, no nosso entender e a partir da análise do material coletado, extremamente benéficas para todas as pessoas envolvidas.
Embora sem consistir em uma técnica terapéutica, eremos que a pesquisa poderá colaborar para uma relaçâo mais empática e solidaria em espaços médicos e terapéuticos de modo geral, além de atuar para a ampliaçâo do conhecimento sobre o autismo. A relaçâo entre o crescimento de uma criança autista e a inclusâo social que ela recebe é inversamente proporcional: quando se torna adulta, esta pessoa já nâo merece atençâo da sociedade, que a segrega com os instrumentos próprios de uma violencia que se auto legitima. As políticas públicas demonstram raso entendimento do que significa ser autista e perpetuam a naturalizaçâo do desequilibrio social de poder que confere a uma minoría a determinaçâo do que, e de quem é aceito/a e daqueles que devem ser condenados â exclusâo por vias de institucionalizaçâo - prisöes, clínicas psiquiátricas, abrigos.
Ocorre, também, que após onze anos de trabalho com o público autista, tenho percebido que, na faixa da pré-adolescéncia, a presença e o jogo do/a palhaço/a parecem auxiliar de maneira mais contundente a vontade dessas pessoas em desenvolver habilidades de comunicaçâo e socializaçâo, além de proporcionar na poténcia desse encontro de diferentes e vulneráveis a experiéncia de vivenciar o mundo tal como se é, ou seja, nâo sendo forçado a parecer/ser alguém neurotípico. A presença do palhaço/a como interlocutor/a na relaçâo do/a autista com o mundo que o cerca tem se apresentado, ao longo desse processo de pesquisa - e mesmo antes - um terceiro elemento extremamente interessante na "triangulaçâo" autista-palhaço-mundo. Extremamente distinta da relaçâo que o/a adolescente estabelece com o médico ou o terapeuta, que, normalmente, o/a acompanha durante grande parte da vida, desde quanto mais cedo se faz o diagnóstico, o palhaço/a nâo exige nada, nâo demanda aferir suas capacidades e nâo se importa se ele ou ela ainda nâo desenvolveu a parte verbal da linguagem. O palhaço/a joga, brinca, dá espaço para a transgressâo e a subversâo das regras, coisa impossível quando se pensa numa sociedade que determina quem é capaz ou nâo.
Se pensarmos no sistema capitalista e na estrutura patriarcal da maioria das sociedades nao é difícil perceber que, se alguém nao se enquadra nas categorias de consumidor e produtor, nao deverá, a principio, formar uma família heteronormativa e procriar, consequentemente gerando herança e mantendo a mesma ordem, nao servindo para viver em sociedade. Ao contrário, a existencia dessas pessoas é um risco, assim como a presença da Arte, do próprio Teatro e, nesse caso em especial, da figura mais subversiva que pode haver: o paIhaço. Aqueles que diferem da maioria sao como "bombas humanas", explodem estruturas preexistentes e naturalizadas ao expor suas fragilidades. Fazem isso por sua própria existencia, sem esforço nessa direçao. Espelham a incapacidade social de lidar de maneira competente com aquilo que foge aos padröes de permanencia de funcionamento dos sistemas em que se fundamenta. É inevitável mencionar, portanto, a situaçao nos ámbitos da Educaçao e da clínica e espaços terapéuticos destinados a atender essas pessoas, pois, muito embora saibamos do quadro desfavorável que enfrentamos, acreditamos em Paulo Freire: "Como fazedores da história e por ela feitos, seres da decisao, da ruptura, da opçao, podemos ultrapassar nosso próprio condicionamento" (FREIRE, 2002, p. 80).
Dedico-me a uma investigaçao sobre uma pedagogia possível para formaçao de palhaços para que possam atuar nos mais diversos lugares com crianças e adolescentes autistas, entao, pela própria área de pesquisa em que se insere e pela sua natureza, acredito ser importante situar qual o contexto das pessoas autistas no momento atual em que me debruço sobre esse estudo. Em relaçao â Educaçao, sob a ótica da inclusao escolar, alguns passos foram dados no Brasil, embora haja um movimento que força a retomada de antigas práticas e postulados excludentes, fruto do fenómeno do avanço da extrema direita no ocidente que temos presenciado nos últimos anos.
Aqui nao é diferente. Desde a lei da obrigatoriedade de vagas (Lei Brasileira de Inclusao da Pessoa com Deficiencia, de 2015), as escolas e seus profissionais nao foram assistidos com pessoal especializado para atender as novas demandas, ou seja, carecem de mediadores com formaçâo para desempenhar tal funçâo, espaços com acessibilidade arquitetônica, social e sensorial e aparelhamento de material pedagógico específico. Em 2022, um decreto do governo federal que estabelecia base para a "Nova Política para Educaçao Especial" - criaçâo de mais salas e escolas especiais dentro do ensino regular - foi derrubado. O que embasa essa visao com a ascensao das ideologias de extrema direita é justamente o paternalismo e a sacralizaçao da deficiencia. Essas pessoas, provavelmente, nao serao provedoras, empreendedoras, "vencedoras". Nascem predestinadas a dar custos e trabalhos extras ao sistema capitalista. Se John Holloway fala em "fissurar o capitalismo", palhaços e autistas sao a própria fissura. Por isso "é preciso deté-los".
O empenho do Ministério da Educaçao em fomentar as escolas "cívico-militares", alegando que esse modelo tem conseguido alcançar melhores resultados com relaçao aos testes de rendimento escolar, revela funçâo da educaçao sob a ideologia de direita: formar com base na hierarquia, na obediéncia e na assimilaçâo de conteúdo. Sao formas de reproduzir estruturas clássicas de opressao mantendo cada classe onde está, para que as classes mais altas continuem em posiçao de superioridade e as mais baixas ocupem posiçöes subalternas. Na verdade, como disse Darcy Ribeiro, em uma entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, em 1991: "A crise da Educaçao no Brasil nunca foi uma crise, sempre foi um projeto".
A suposta inclusao que se pratica hoje tem, na maioria das vezes, devido ao pouco preparo dos profissionais e â falta de recursos das instituiçöes de ensino, tentado aplicar a fôrma da normalidade as pessoas divergentes, especialmente em autistas. A particularidade das características autísticas como, por exemplo, o fato de ser uma "deficiencia invisível", piora o quadro quando nao há especializaçao dos/das profissionais. Nao se pode pedir para um cadeirante andar, mas ao/å autista se pede que iniba seus movimentos repetitivos ou seus sons "inapropriados". O/A palhaço/a, ao contrario de querer transformar o autista para que ele/ela se pareça a um neurotípico e poder se encaixar nos códigos sočiais que o mundo exige, nao espera que a criança autista mude ou se adapte, e isso devido a sua própria natureza desenvolvida dentro do reforço da linguagem da máscara teatral. Mesmo porque, ele/ela - palhaço/palhaça - é inadaptado/a. O palhaço quer jogar. No jogo se encontra a potencia da interaçao entre palhaço e autista. Pela via do encontro é estimulada a autoestima, como também a vontade de socializaçao nessas crianças e adolescentes, expandindo limites que a tentativa de enquadramento impöe durante toda a sua vida. Através da proximidade com o/a palhaço/a, o autista encontra uma via de compreensao de si que transgride e ultrapassa os limites do olhar social do "monstro" (CANGUILHEM, 2002), daquilo que é desconhecido e, portanto, temeroso - e do olhar médico do diagnóstico. Segundo Morgana Masetti: "A figura do/a palhaço/a (...) emerge de áreas obscuras ou reprimidas (sexo, poder, escatologia), o baixo na linguagem de Rabelais, para nos conectar com o alto, a própria natureza humana" (MASETTI, 2014, p. 48).
O conceito de "violencia simbólica" de Pierre Bourdieu define esse mecanismo: "Trata-se de uma violencia que é cometida com a cumplicidade entre quem sofre e quem a pratica, sem que, frequentemente, os envolvidos tenham consciencia do que estao sofrendo ou exercendo" (BOURDIEU, 2007, p. 7-8). Tal conceito afirma, inclusive, que a própria açao pedagógica é objetivamente estruturada e impöe um arbitrario cultural de um grupo de classe a outro grupo de classe. Como vimos anteriormente, os processos pelos quais a Educaçao e as instituiçöes se constroem sao estruturantes da exclusao.
Nos anos 1990, ou seja, muito recentemente no que se refere a fenómenos históricos que representam mudanças de paradigmas, foram criados os Centros de Atençao Psicossocial (CAPS) e os Centros de Atençao Psicossocial para a Infancia (CAPSI), que também recebem adolescentes. Foi no CAPSI Mauricio de Sousa, no Rio de Janeiro, em 2013, onde minha filha foi atendida por dois anos, que tive uma das primeiras experiencias de promover a interaçâo entre um palhaço convidado por mim (Drico Lima) e aprovado pela direçâo do lugar. Apesar de ser indescritivelmente mais humano e inclusivo que uma clínica psiquiátrica, também é um espaço onde figuram hierarquias e demandas entre pacientes, psiquiatras, psicólogos, enfermeiras, técnicos de enfermagem e terapeutas diversos. A presença de um palhaço ali fazia lidar com a desestrutura, o que encantava as crianças, mas nem sempre era bem recebido pelos profissionais. Também tive a oportunidade de lidar com adultos atendidos no CAPS AD Miriam Makeba, no ano de 2017. Desta vez, com uma equipe de cinco palhaços treinados por mim para lidar com autistas, através de uma oficina que teve duas ediçöes por dois anos consecutivos no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro.
Na pedagogia que venho desenvolvendo, treino palhaças/os para o encontro em que a pessoa neurodivergente é potencialmente propulsora do estímulo para o desenvolvimento das habilidades gerais de comunicaçâo e interaçâo social pela via da auto estima, da liberdade e da subversâo. Trata-se de metodologia multidisciplinar que une investigaçâo sobre a formaçâo de palhaços e palhaças, a natureza dessa linguagem no espectro da comicidade teatral, o campo das pesquisas em Educaçâo, Filosofia e Neurociéncias. Através de uma abordagem que privilegia a dialética, procuro ampliar as possibilidades de investigaçâo e nâo me circunscrever aos paradigmas entre limites e discussöes sobre ciencia e arte, uma vez que o pensamento e a criaçâo sâo, ambos, potencias indissociáveis e fazem parte do pleno desenvolvimento humano.
O/A palhaço/a nâo é médico, tampouco terapeuta ou parente ou responsável pela criança: a ele/a cabe a força terapéutica do afeto, do jogo que nâo espera em troca a aceitaçâo e/ou a demonstraçâo de agradecimento nem aplauso. É parte do seu jogo, do seu fazer artís- tico, o reconhecimento, na criança, do ser humano e nao da "enfermidade", transtorno ou deficiencia como identidade. Por sua natureza transgressora, cuja liberdade consiste no nao-pertencimento, o/a palhaço/a - assim como o autista - é reconhecido como "aquele que está fora dos padröes". Para ele/ela, portanto, existe a possibilidade real de usufruir do seu próprio ridículo, uma vez que é o último na hierarquia social. Se por um lado, isso o fragiliza, paradoxalmente o liberta para ser o que quiser e puder criar. Dessa forma, o adolescente autista se reforça na sua autoestima e na construçao de sua subjetividade.
Tanto no ambiente hospitalar, quanto nos espaços terapéuticos multidisciplinares de
saúde mental, o paciente ou o usuário - em especial, a criança - é cercado de cuidados, tornando-se, de certa forma, "depósito" das expectativas dos profissionais que o/a atendem, assim como de seus pais ou responsáveis. Sua "resposta clínica" positiva as investidas terapéuticas e farmacológicas é o objetivo de todos que o cercam, já que o tratamento se refere â "enfermidade", ou, dito de outra forma, o remédio dialoga com a "doença". Assim, a criança passa a ser "seu diagnóstico" e suprime-se sua história, seu nome, idade, subjetividade, gostos e habilidades.
Artisticamente oferecemos outra perspectiva, na qual a subversâo proposta pela figura do/a palhaço/a possibilita que, durante preciosos instantes o diálogo travado nao seja entre terapéutica e enfermidade, patologia, transtorno ou deficiencia, mas entre o brincante do/a palhaço/a e o da criança ou adolescente. O olhar do/a palhaço/a é para a pessoa e nao para seu diagnóstico. Desaparece assim a hierarquia médico/terapeuta x paciente, pois o "nao-lugar" pode ser "qualquer lugar" onde a criança possa sonhar e criar, ser ela mesma e se comportar, portanto, como autista que é, sem ter que disfarçar pulos, gestos, gritos ou movimentos repetitivos por serem vistos como inapropriados para um mundo que nao se abre para incluir a diferen- ça, mas tenta escondé-la, gerando frustraçâo através da violencia e opressâo.
A percepçâo do aspecto sensorial tem se mostrado um caminho decisivo para o trabalho com e sobre autistas em todos os ámbitos. Essa também foi a percepçâo da mäe de Tito, Soma Mukhopadhyay que, nao conseguindo escola para o filho e nao encontrando recursos disponíveis na india, onde moravam quando o menino teve o diagnóstico de autismo severo de baixa funcionalidade, e tendo a sensibilidade de notar que seu filho experimentava o mundo através dos sentidos, criou para ele um alfabeto móvel em que as letras tinham relevo, texturas e cheiros. Dessa forma, passavam a ser percepçâo e recepçâo, podendo criar significado de maneira mais eficaz para uma mente que nao funcionava como a neurotípica: por aceitaçâo da repetiçâo dogmática dos símbolos e significantes. Soma alfabetizou o filho sozinha, criando um método que começava com o uso de uma prancheta em que a criança apontava as letras e depois evoluiu para o que hoje é um aplicativo usado via tablets; o método chama-se Soma - Rapid Prompting Method (RPM).
Merleau-Ponty, nos fala sobre a pintura de Cézanne, entrelaçando arte, filosofia sobre as percepçöes: "A cor, antes de ser vista, anuncia-se entäo pela experiéncia de certa atitude de corpo que só convém a ela e com determinada precisäo" (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 284). A percepçâo está relacionada â atitude corpórea. Sob essa base entendo a relaçâo dos autistas com os objetos e tenho construido parte do treinamento para os/as palhaços/as interagirem com crianças autistas que consiste em exercícios de percepçâo sensorial, instruçâo teórica sobre aspectos que envolvem o TEA e a neurodiversidade, e práticas que exigem o desenvolvimento apurado da linguagem da máscara (nariz do palhaço) no que se refere ao seu jogo, apuro físico, ritmo e trabalho em grupo.
Tenho me dedicado â observaçâo e ao levantamento de questöes relevantes para que seja possível aprofundar essa investigaçâo. Nas vivencias práticas de interaçâo com crianças e adolescentes autistas, conseguí perceber, com maior clareza, aspectos que exigem atençâo especial. Dentro do processo de aproximaçâo entre a criança e os/as palhaços/as, o uso de objetos como mediadores de uma primeira abordagem, assim como durante todo o trabalhode campo, tem se mostrado eficaz e, ás vezes, essencial.
"(...) extravagante ou absurdo na forma de ser, provocador. É plenamente a liberdade e a anarquía, o mundo infantil. Desajeitado e desastrado, é inoportuno na tentativa de socializar-se". Essa poderia ser, facilmente, a descriçâo de uma pessoa que está dentro do TEA, mas é a definiçâo encontrada na Wikipédia para o Augusto, tipo clássico de palhaço que, junto com o Branco, compöe a antiga dupla. Esses palhaços exploram entre si um jogo baseado em hierarquias de poder, onde o segundo é a voz do mandante, do idiota que se julga sábio e tenta impor regras e comportamentos ao primeiro, genuino no seu modo de ser completamente fora dos padröes sociais que denotariam qualquer status. Ambos jogam a partir do erro, do obstáculo e do desastre que é tentar encaixar-se onde nao se cabe. As semelhanças podem nao ser meras coincidencias. O autista sabe que é diferente e percebe o mesmo desajuste no palhaço, a inadequaçao. Quem procura respostas, regras e comportamentos das crianças autistas sao os pais, professores, médicos, terapeutas. Para Fernand Deligny o espaço para o encontro e, talvez, para qualquer abordagem é o "entre":
Quando digo entre, nao quero sugerir uma barreira, mas, ao contrario, que ao menos tínhamos topos em comum, área de estar, fora. Um impulso de compreensao se choca contra a sem-cerimônia comum ás crianças autistas. (...) Poderíamos ter sido levados a um acréscimo de compreensao, e, com frequencia, é isso que lhes acontece, ás crianças aí, das quais se diz, alias, que compreendem tudo, ao que seria preciso acrescentar: o resto. Pois existe um resto. (DELIGNY, 2018, p. 160)
É no espaço do "entre" e na ambiéncia do "resto" é que atua o palhaço. Para que aqui compreendamos melhor essa falta de demanda que proponho, ainda reproduzo o que acrescenta Deligny: "Quanto a maioria desses traços (autistas), faz tempo que nos esquecemos de quem sao. Esse esquecimento nos permite ver 'outra coisa': o resto, refratário a toda a compreensao". É a partir dessas premissas que seguimos nosso trabalho de interaçao com essas crianças, adolescentes e atores/palhaços na intençâo de investigar as possíveis naturezas e poténcias desse encontro. Espero poder, de alguma forma, despertar o interesse pelos universos que se entrecruzam e apontar caminhos para outros trabalhos que questionem a ordem estabelecida como normal e através da arte da palhaçada renovem a crença no riso como poténcia e na diversidade como celebraçao da vida.
Nosso trabalho dedicou-se primeiramente â percepçao e a discussâo de possíveis abordagens que interessassem as crianças e adolescentes, já cansadas das demandas para que se pareçam cada vez mais com neurotípicos. A abordagem sensorial mostrou-se eficaz provavelmente porque respeita o funcionamento, a forma de ser da pessoa autista. Desenvolvemos proposiçöes em torno de alguns objetos específicos (bolas texturizadas, luz negra e bexigas fluorescentes), muita água (piscina, mangueira), tecido e escova desenvolvidos para estimular a propriocepçao em pessoas autistas. Mas fomos percebendo que o encontro, a presença relacional, os jogos que se originavam nas interaçöes entre palhaços/palhaças e pessoas autistas eram, claro, os mais potentes estimuladores.
Compreendo a presença, nessa pesquisa, como Nicolás Bourriaud a aborda, ou seja, enquanto parte do que o autor chama de Estética Relacional e que está no cerne da arte contemporánea. Portanto, uma vez que vou falar sobretudo do encontro entre palhaços e palhaças com pré adolescentes autistas, tratamos aqui da presença relacional, imprescindível para esse trabalho, assim como o estado de presença para a linguagem da máscara teatral. Essa pressupöe um corpo sensorial, cuja potencia está na atençâo, na disponibilidade e na porosidade, como condiçâo de relaçâo com o outro. Mas essa presença relációnál da qual nos fala Bourriaud também é política e, sob esse aspecto, no que tange â essa pesquisa tomo a neurodiversidade como a existencia natural de uma diversidade humana sem que tenha qualquer hierarquia intrínseca. Assim, as crianças e adolescentes, despidos do mascaramento que lhes é demandado e estimulados pelo desmascarando que a máscara do palhaço, paradoxalmente, proporciona, estabelecem relaçöes verdadeiras com cada palhaço/palhaça, uma vez que relacionar-se pressupöe entrar no desconhecido que é o outro e na vulnerabilidade incontrolável das interaçöes.
Chegamos â noçâo de que a identificaçâo entre palhaços/palhaças e pessoas autistas é de natureza artística, opera num conjunto de açöes, jogos e construçöes subjetivas e simbólicas que constituem uma poética própria, com ética e estética particulares. Sobre essa poética relacional é que pretendemos pavimentar caminhos de inclusao social através do teatro.
1 Casa das Palmeiras é uma instituiçao de reabilitaçao mental, idealizada por Dra. Nise Magalhaes da Silveira. "É um pequeno território de relaçöes humanas afetivas e de atividades criadoras onde os clientes tem a oportunidade de, espontaneamente, realizarem seus trabalhos expressivos lhes facilitando a entrada em contato com a vida. A Casa das Palmeiras é pioneira na América Latina e inovadora na história da moderna psiquiatría. Reconhecida de utilidade pública pela lei número 176 de 16 de outubro de 1963." http://casadaspalmeiras.blogspot.com/ Acesso em 30/08/2022.
Referencias
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. Organizaçao: Sérgio Miceli. Sao Paulo: Perspectiva, 2007.
BRASIL. Lei n 1346 de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusäo da Pessoa com Deficiencia (Estatuto da Pessoa com Deficiencia). Brasilia, 6 de julho de 2015. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/M3146.htm Acesso em: out. 2020.
CANGUILHEM, Georges. O Normal e o Patológico. Editora Forense Universitária, Paraná, 2002.
DELIGNY, Fernand. O Aracniano e outros textos. Traduçao: Lara Christina de Malimpensa. Sao Paulo: N-1 Ediçöes. 2018.
DIAS, Adriana. Por uma genealogia do capacitismo: da eugenia estatal a narrativa capacitista social . Anais do I Simposio internacional de Estudos sobre a Deficiencia. SEDPcD/Diversitas/USP Legal. Säo Paulo, 2018.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Säo Paulo, Paz e Terra, 1996.
_. Pedagogia do oprimido. 34. ed. Säo Paulo: Paz e Terra, 2002.
MASETTI, Morgana. A Ética da Alegria no Contexto Hospitalar. Rio de Janeiro: Fólio Digital/ Letra e Imagem, 2014.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepçao. Säo Paulo: Martins Fontes, 1999.
RIBEIRO, Darcy. Entrevista concedida ao programa Roda Viva. TV Cultura, Sao Paulo, 1991. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=gS6No7WBJFg Acesso em: 30/08/2020.
WANDERLEY, Lula. No silencio que as palavras guardam: O sofrimento psíquico, o Objeto Relacional de Lygia Clark e as paixöes do corpo. Organizaçâo: Kaira M. Cabañas. Säo Paulo: N-1 Ediçöes, 1° ed., 2021.
You have requested "on-the-fly" machine translation of selected content from our databases. This functionality is provided solely for your convenience and is in no way intended to replace human translation. Show full disclaimer
Neither ProQuest nor its licensors make any representations or warranties with respect to the translations. The translations are automatically generated "AS IS" and "AS AVAILABLE" and are not retained in our systems. PROQUEST AND ITS LICENSORS SPECIFICALLY DISCLAIM ANY AND ALL EXPRESS OR IMPLIED WARRANTIES, INCLUDING WITHOUT LIMITATION, ANY WARRANTIES FOR AVAILABILITY, ACCURACY, TIMELINESS, COMPLETENESS, NON-INFRINGMENT, MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR A PARTICULAR PURPOSE. Your use of the translations is subject to all use restrictions contained in your Electronic Products License Agreement and by using the translation functionality you agree to forgo any and all claims against ProQuest or its licensors for your use of the translation functionality and any output derived there from. Hide full disclaimer
© 2022. This work is published under https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ (the “License”). Notwithstanding the ProQuest Terms and Conditions, you may use this content in accordance with the terms of the License.
Details
1 Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO





