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Abstract

A representação da figura humana, trajada ou nua, foi utilizada pela arte em todas as civilizações e épocas e continua a ter na arte as mais variadas referências e formas de expressão. À cultura ocidental, anterior ao Renascimento, utilizou escassamente a representação do nu por pudor e também pela influência da tradição cultural judaico-critã. O reconhecimento da nudez implicava o mito da criação e o mito do pecado original.

O mito da criação, presente na Bíblia, é cenário para a referência à luz criadora e à luz redentora: o primeiro, processo imaculado da luz divina de Deus e da luz divina criadora; o segundo, a manifestação da luz de Deus no mundo, através da presença da luz da redenção divina na palavra e no Messias. Estes princípios apelaram a uma arte sacra, ondea representação da luz e da forma eram permitidas sob a alçada de um conjunto de normas de características simbólicas.

AÀ este legado cristão, não pode passar despercebido o papel que os conceitos neoplatonistas exerceram na cultura cristã. Plotino estabeleceu a relação entre o mundo supra-sensível e o mundo sensível, anteriormente negado por Platão. Plotino reinvindicou que o Homem, através da sensibilidade, podia aceder ao plano metafísico. Esta possibilidade permitiu a representação submetida a uma luz simbólica, representação que, mesmo quando próxima da realidade como aconteceu em Giotto, não expressava uma aproximação/imitação do mundo, mas apenas, a beleza do mundo enquanto criação divina e para ser consagrada ao divino, Todo este percurso de Plotino a São Tomás de Aquino, passando por Santo Agostinho, dá-nos a noção dos fundamentos conceptuais que antecederam o Renascimento. À abordagem estética sobre o pensamento destes filósofos foi feita recorrendo aos seus textos

A este conjunto de referências, que são uma forma de ordenação simbólica do mundo, como faz notar Cassirer, acrescentámos uma abordagem das interrogações de Grassi em torno dá definição de mito e com isso, uma vertente de aproximação à cultura grega da antiguidade. A tipologia de apreensão e representação do mundo, que definia o espírito inquiridor grego manifesta-se com nitidez na forma como os conceitos de «idea», «eidos», «techne» e «poiesis» são tratados.

Com esta abordagem, foi possível compreender como a civilização judaicocristã abordou o mito da criação do mundo e do Homem, e separou o divino da realidade. A natureza e a sua luz foram negadas e trocadas por uma representação simbólica, e a negação da sombra, parece encerrar uma negação do mundo.

Os gregos, não só se questionaram com a origem do mundo e do Homem, como com a razão de ser dos fenómenos, que para eles eram também manifestações dos deuses, deuses com os quais tinham partilhavam virtudes e vicissitudes. A sombra era parte do mito e da realidade, e deste modo foi natural a incorporação da sombra na representação.

Nesta procura da significação e da influência dos mitos no desenvolvimento das ideias e mentalidades das civilizações, revelaram-se interessantes o mito do nascimento da pintura e o mito da alegoria da caverna.

No mito pliniano do nascimento da pintura, a pintura nasce da sombra, mito da alegoria da caverna Platão defende uma luz arquétipa, a luz fora da caverna é a mesma luz que envolve as coisas, tal como elas são, em toda a sua perfeição e simultaneamente, a que permite ver a “sombra”, essa presença imperfeita dos arquétipos formais. À ausência de uma luz diferenciadora entre mito e realidade permitiu a representação de uma realidade que, embora falha, era a realidade possível e passível de ser elevada a um conjunto de cânones ideais, «Idem, e a uma forma ideal, «eidos», próxima do mundo arquétipo das ideias e das formas dessa «Idea» emanada do seio dos Deuses, de representação desinteressante para Platão, mas, ainda assim, realizável pela capacidade do artista.

A cultura grega definiu um passado misterioso, uma presença louvada pelos seus cidadãos e um legado de: grande relevância para a civilização ocidental. Mas, da sua pintura/presença nada chegou até nós que fizesse jus à fama conquistada, apenas textos apologéticos, alguma cerâmica e escultura. No entanto, o seu legado encontraria um momento histórico propício ao ressurgimento/adopção de algumas das suas premissas estéticas. Esse momento histórico, que seria denominado de Renascimento, era possuidor de todas as condições sócio-culturais para se interessar e reverter as premissas teóricas, integrando-as numa visão cristã onde homem e mundo acabavam de se reconciliar. O desafio colocado à pintura era particularmente interessante, dado que só possuía referências em textos, ao contrário, da escultura e arquitectura que possuíam legado escultórico e arquitectónico “vivo”. À adopção do tratado Da Architectura de Vitrúvio por Alberti, que defendia a observação atenta da natureza, e o tratado de Leonardo, que postulava a “imitação da natureza” são momentos de viragem que para permitiram um encontro entre neoplatonismo, aristotelismo e cristianismo.

Details

1010268
Classification
Title
Técnicas Dos Claro/escuro Na Pintura : A Representação do Corpo Humano Entre o Séc. XV e o Início do Séc. XVII
Number of pages
168
Publication year
2003
Degree date
2003
School code
7024
Source
MAI 85/8(E), Masters Abstracts International
ISBN
9798381480801
University/institution
Universidade de Lisboa (Portugal)
University location
Portugal
Degree
Master's
Source type
Dissertation or Thesis
Language
Portuguese
Document type
Dissertation/Thesis
Dissertation/thesis number
30809545
ProQuest document ID
2925077775
Document URL
https://www.proquest.com/dissertations-theses/técnicas-dos-claro-escuro-na-pintura/docview/2925077775/se-2?accountid=208611
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