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Teologia e música. Duas ciências diferentes, cada qual com a sua “gramática”. Mas na sua diferença encontramos o seu nexo: afinidades secretas as entrelaçam num percurso milenar, numa amizade consolidada no tempo, porque o Cristianismo, desde as suas origens, compreendeu bem o valor das artes e utilizou as suas multiformes linguagens para comunicar a sua imutável mensagem de salvação.
Abordar este nexo entre a teologia e a música, a partir da obra do compositor Olivier Messiaen, Méditations sur le Mystère de la Sainte Trinité, é o propósito desta dissertação conclusiva do curso de Mestrado Integrado em Teologia,
Parafraseando Jean-Claude Pinson, em Habiter en poète: que relação pode ainda estabelecer a “música” moderna com qualquer coisa da ordem do sagrado?1 É um mote sugestivo para a presente dissertação. Porém, mais do que responder directamente a esta questão, ou enumerar e dissecar tais possíveis relações, abeiremo-nos do modo como Deus tem habitado no imaginário e na vida da Igreja, dos teólogos, dos artistas, e, neste caso, de Olivier Messiaen. Assim, num breve percurso milenar, vejamos como é que a palavra e a música se combinam no diálogo bíblico entre Deus e o homem e como é que as comunidades cristãs, dos primeiros séculos da nossa era, lidam com o fenómeno musical. Num salto temporal, aproximámo-nos da reflexão do Magistério da Igreja e da teologia contemporânea, nesta guiados pela pena de Hans Urs von Balthasar e de Jorge Piqué Collado. É o intento do primeiro capítulo.
“Interrompendo” este périplo milenar, o segundo momento da dissertação enceta com Olivier Messiaen. No palco de uma Europa marcada pela ruptura e pela individualização da estética musical, a gramática de Messiaen revela-se tão singular como a dos outros compositores, seus contemporâneos. Porém, dois elementos marcam a diferença: a sua sintaxe (ou seja, o modo como Messiaen fraseia e conjuga os diversos elementos rítmicos e melódicos) e a finalidade e motivação que está no âmago do seu processo composicional. Exprimir o maravilhoso da fé, sugerindo com a música aquele invisível sujeito explicado pela teologia, é o seu propósito. Urge então conhecer um pouco melhor este homem, seguindo de perto os seus escritos e entrevistas.
E se no primeiro capítulo, de diferentes perspectivas, abordar-se-á uma problemática (a relação entre a teologia e a música) e no segundo a sua concretizada numa pessoa, já no último ela mesma será demonstrada e explicitada. Numa espécie de glosa conclusiva, faremos uma aproximação teológica a uma composição de Olivier Messiaen. Méditations sur le Mystère de la SainteTrinité será o ciclo escolhido. Obrigatoriamente teremos de limitar a nossa análise a uma peça e, em particular, a alguns fragmentos desta obra, esperando que seja suficientemente ilustrativo para abrir caminho a uma vindoura análise exaustiva do compositor. Num assunto caro à fé e de complexa formulação teológica, vejamos a explicitação e tratamento dados pelo compositor às Pessoas da Trindade.