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Martinho Gonçalves terminou, em 1262, o trabalho que Afonso Pais, a expensas próprias, lhe havia encomendado, o Martyrologium Lamecense . Escolar de Bolonha, o exdeão decerto teria conhecido, por essas paragens por onde andou, belos exemplares desse livro litúrgico que não sendo destinado ao ofício divino, tinha importância para a memória dos bem-aventurados de Deus que a Igreja, desde os primórdios, tinha tido o cuidado de preservar. Não era um livro que se encontrasse em todos as libraria monásticas e capitulares, porque o exercício dessa memória venerável poderia ser alcançado através do auxílio de um calendarium. Daí que a existência de um martirológio como liber Capituli no Cabido de Lamego do século XIII, levamos a considerar o grau de erudição desta comunidade que teve prelados e clérigos ilustres.
Um martirológio não é um livro isolado. Sendo uma realidade autónoma, geralmente surge no mesmo códice que o obituário, parceria decorrente de ambos terem a sua leitura no capitulum. No caso particular sobre o qual fazemos comentário, o martirológio, além de se encontrar coligido com o obituário, está inserido num códice compósito, o Livro 1. do Registos de Óbitos do Cabido da Sé de Lamego (Torre do Tombo, PT/TT/CSLM/012/0001). Nele foram compendiados vários documentos de natureza e finalidade diversas. Aí encontramos testamentos, doações, formulários, orações da hora prima, descrição de legados pios, texto musical de antifonário, uma inquirição episcopal e uma “relação de cera”, um texto sobre os «quindecim signa diei iudici» e o«Chronicon lamecensis». É um códice que nos traz até 1556, data do último documento assinado pelo bispo D. Manuel de Noronha.
O Martirológio da Sé de Lamego é um martirológio completo que se compõe em 86 fólios. Está escrito numa bela gótica librária e é texto de uma só mão, tendo recebido, em fase posterior, contributos colocados nas margens dos fólios, mas em número reduzido.
A sua estrutura de calendário, de acordo com o normativo do calendário romano, não difere dos seus congéneres. Ainda assim, fugindo à prática mais comum, inicia-se no dia 1 de janeiro com a Circumisio Domini e não no dia 24 de dezembro com a Vigilia Domini, como era usual. Os seus elogios dividem-se em dies natales e commemorationes (festae, depositiones, translationes e inventiones). Relativamente ao seu universo onomástico, contabilizam-se 1949 nomes. No âmbito da toponímia, registam-se cerca de 400 nomes de regiões, províncias, cidades, ilhas e rios.
O Martyrologium Lamecense é herdeiro de uma larga tradição deste género de livro litúrgico. Não é o único em Portugal, mas é verdadeiramente singular pelas caraterísticas que nele podemos observar.
Ao contrário de outros, não teve uma fonte exclusiva que tivesse formatado o seu texto. Deste ponto de vista, poderíamos considerá-lo uma compilatio. De facto, tendo como base os martirológios de Ado e Usuardo, resulta de um nem sempre identificado corpus de fontes que ao longo do tempo foram tecendo uma rede, que hoje não é fácil estratificar com clareza.
Na globalidade do santoral presente no martirológio, o santoral português evidencia-se pela sua expressão diminuta.
Uma das particularidades mais relevantes do Martyrologium Lamecense é a presença, verdadeiramente invulgar num documento desta natureza, de tantos elementos do cômputo: os versos relativos à entrada do Sol nas constelações do zodíaco; os versos dos dies aegyptiaci; o cálculo do equinócio e do solstício relativo à duração do período diurno e do período nocturno; os dias do mês solar e do mês lunar.
Martinho Gonçalves, «publicus Tabellio domni Regis Portucale in Lameco», escreveu o Martyrologium Lamecense para a leitura dos cónegos do Cabido na hora prima. À sua novidade, nesse ano de 1262, seguiram-se muitos anos, muitos dias do seu normal uso, muitas vezes indiferente à cor das suas letras que o atril mal iluminado não deixava sobressair. Hoje, depois de ele próprio ter fugido à memória durante muito tempo, aparece diante de nós já não como um livro litúrgico, mas como um livro capaz de oferecer múltiplas leituras sobre as pessoas e os seus quotidianos, sobre o tempo em que o tabelião fez dele o primeiro dos libri Capituli.