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O reconhecimento do mundo dos objetos depende da experiência prévia do observador, dos estímulos recebidos pela estrutura orgânica e do processamento dessa informação dentro de uma determinada construção cultural (percepção subjetiva). No universo do quotidiano, o fenómeno das sombras proporciona ferramentas, mais ou menos eficientes, para que o cérebro identifique o espaço e a posição relativa dos objetos aí dispostos. Este processo ocorre como resultado do reconhecimento como função representativa vinculada à memória e, da mesma forma, da rememoração como função simbólica na apreensão do visível. Como o fenómeno da sombra se constrói como um “grande imitador” das formas, responde às necessidades perceptivas do cérebro humano, oferecendo-lhe um modelo da imagem do mundo em que pode confiar.
No entanto, a percepção das sombras exige uma atenção explícita, tanto mais que apenas chamam a atenção quando violam alguma norma ou princípio do nosso universo perceptivo do quotidiano. Pela nossa incapacidade de as controlar, transformam-se em veículos eficientes de todo o tipo de imagens psicológicas. É, assim, o terreno de atuação de artistas plásticos, fotógrafos e cineastas, e onde se constrói o observador profissional que presta uma atenção constante e seletiva ao fenómeno, controlando-o e fazendo dele um recurso eficiente. A partir do momento em que seja colocado à disposição do universo de espectadores, estes podem então decidir se o resultado lhes agrada sem refletir acerca do seu cumprimento ou não com as leis da Física ou se se ajusta às normas da representação geométrica.
Esta dissertação aborda duas questões fundamentais. Por um lado, a evolução do pensamento acerca da sombra e a sua utilização como recurso expressivo e narrativo em diferentes disciplinas artísticas, de acordo com o sentido epistemológico dos vários momentos históricos e, por outro, a viabilidade do seu tratamento como material, especialmente no campo do desenho arquitectónico. É nesta disciplina que, de facto, se opera a revisão do seu potencial como matéria projetável, para além da sua indiscutível capacidade gráfica, capaz de gerar verdadeira trama atmosférica, com objetos em sombra permanente, integrando vazios ativos, ou de converter-se em chave e estímulo compositivo, ancorandose, em suma, nas modalidades de utilização que outras disciplinas já tinham demonstrado como possíveis.