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O trabalho que se apresenta tem por objeto de estudo o comportamento genolexical do sufixo –ismo. Adotámos uma perspetiva associativista (Booij 2009, 2010, 2012, a sair a) e b); Correia 2004; Rio-Torto 1993, 1998a, 2006b, 2011) da componente genolexical, ao considerar que o produto derivacional resulta, morfológica e semanticamente, da articulação de dados provenientes da base, da RFP e do afixo. Esta conceção da componente genolexical foi integrada no quadro mais amplo da Parallel Architecture de Jackendoff 2002, 2010. Este modelo encara o domínio genolexical numa perspetiva dinâmica e com interfaces ativas entre os diversos domínios linguísticos, tal como também se apresenta em Rodrigues 2006. Este enquadramento teórico, que comporta a Conceptual Semantics (Jackendoff a sair), foi por nós complementado com os pressupostos teóricos da Linguística Cognitiva (Geeraerts 2006c; Silva 2006, 2010), para o estabelecimento de uma rede teórica sólida para o estudo do comportamento genolexical do sufixo e para a abordagem do seu significado.
Iniciámos o estudo pela observação de sufixos cognatos de –ismoem espanhol, italiano, francês e inglês. O sufixo é originário do grego e chegou de forma idêntica, através do latim, às línguas em questão, nas quais apresenta uma configuração sufixal, um comportamento e uma origem idênticos. A observação do sufixo nas línguas clássicas e do seu percurso histórico no interior da língua portuguesa permite-nos observar a génese das atuais propriedades do sufixo.
A análise sincrónica de –ismo, o cerne do nosso trabalho, iniciou-se pelo estudo detalhado da configuração e do comportamento das bases selecionadas pelo sufixo, e permitiu aferir o peso determinante da configuração semântica das bases no processo genolexical. Verificou-se que as bases são tomadas pela sua capacidade predicativa, isto é, por fornecerem ao sufixo um predicado/atributo/qualidade/propriedade. Este valor semântico pode ser veiculado por uma base de origem nominal (a base preferencial), adjetival, adjetival/nominal e, residualmente, de origem verbal. Quanto à estrutura morfológica, a base é, maioritariamente, um radical não autónomo simples.
A análise semântica dos nomes em –ismo foi feita também com base na determinação da sua qualia structure(Pustejovsky 1991, 1998, 2001), e forneceu-nos a lista de significados possíveis dos produtos nominais.
A abordagem ao estudo do significado das bases e do sufixo fez-se no quadro teórico da Conceptual Semantics e da Linguística Cognitiva. Resultante de mecanismos de conceptualização, o significado é, ele próprio, conceptualização; portanto, é complexo, flexível, dinâmico. Assumimos que os afixos são unidades semanticamente densas e complexas (Lehrer 2000, 2003), uma vez que o seu significado, tal como o das palavras, é um constructo semântico.
A variedade semântica dos nomes em que o sufixo –ismo ocorre é a este imputada, já que se trata de uma unidade polissémica. A polissemia da unidade implica a determinação de como se articulam os diferentes significados atestados (‘qualidade’, ‘princípio epistemológico’, ‘prática’, ‘atitude’, ‘fenómeno’ e ‘locução’), e ainda a compreensão de como se estabelecem no interior de uma mesma unidade. Assim, não só determinámos a existência de um significado prototípico e de significados dotados de diversos graus de saliência, como determinámos os fatores que os ancoram numa mesma unidade. Tomando em consideração (i) os diferentes graus de abstração dos significados, (ii) a condição imposta à base de se configurar predicativamente e (iii) o facto de ser subjacente a todos os significados atestados, determinámos QUALIDADEcomo significado prototípico. Os diferentes graus de saliência dos restantes significados atestados foram aferidos avaliando os critérios de abstração, frequência e presença do valor semântico sujacente de SISTEMATICIDADE.
A análise em termos de prototipicidade empreendida sobre a diversidade semântica do sufixo revelou-nos o valor seminal de QUALIDADE, subjacente a todos os significados atestados, e o de SISTEMATICIDADE, subjacente a quase todos os significados atestados, com exclusão do de ‘qualidade’. Assim, advogamos que semanticamente o sufixo se estrutura em dois níveis: (i) um nível subjacente, que comporta os significados seminais de QUALIDADE e de SISTEMATICIDADE; (ii) um nível de significados atestados, que comporta todos os significados presentes nos nomes em –ismoe que são gerados a partir dos significados seminais. Os dois valores seminais atualizam-se nos significados atestados por diferentes mecanismos: QUALIDADE perde, em graus diversos, o valor de abstração, e o significado de SISTEMATICIDADE apresenta--se como maior ou menor força nos vários significados atestados.
Pelas suas propriedades, o sufixo foi considerado um operador periférico da RFP ESSIV (Rio-Torto 1998a). O significado dos seus produtos resulta da articulação, por mecanismos de coindexação, dos valores da base com os do sufixo. Complementarmente, recorremos a Booij 2010, 2012, a sair a) e b) para, dentro da Construction Morphology, determinarmos o esquema construcional subjacente aos nomes em –ismo.