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O narrador contemporâneo carrega incertezas e angústias, mutações e inconstâncias cognitivas e estéticas associadas à simulação e hibridização do real; a ambiguidade, a espetacularização e a fragmentação do eu impõem-se como alguns dos traços narrativos fundamentais. Cientes de que a ficção é sempre uma forma artística que interpela o conhecimento e de que a ideia da vida em devir acarreta modelos representativos articulados ao ludíbrio e ao bluff, a figuração identitária autoficcional, paradoxal, vem suscitar debates controversos, no sujeito autor-leitor de si mesmo, no leitor, no objeto texto, no meio híbrido texto-imagem, e fomentar o diálogo crítico interartístico e intermedial. Centrados numa forma artística potencializadora da correlação entre a palavra e a imagem, a novela gráfica, indagaremos figurações do Mal associadas à imagem do Artista, tentando pensar e perceber o fenómeno enquanto aceitação rotineira e banal, embora causadora de espanto e “fascinação [pois] (…), é o que fora julgado impossível que nos sufoca como facto consumado” (Jacob, 1998, pp. 74-75; itálico do autor). Partindo de estudos teóricos sobre autorrepresentação, avaliaremos as representações (auto)biográficas e/ou autoficcionais em Balada para Sophie (2020), de Filipe Melo e Juan Cavia, e O Diário de K. (2001), de Filipe Abranches - a transposição e recriação do texto de Raul Brandão originalmente intitulado História Dum Palhaço (A Vida e o Diário de K. Maurício) (1896), e mais tarde republicado sob o título A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore(1926), formalizando, igualmente, o estudo comparatista entre duas estruturas artísticas, o texto literário e a narrativa gráfica.