Headnote
Resumo
Pesquisas anteriores identificaram que os xingamentos são práticas carregadas de valores sexistas e homofóbicos. Este estudo visou elencar neles o marcador social raça, com intersecção de gênero, objetivando compreender como o racismo se expressa nesse fenômeno da linguagem, tendo como referência o paradigma da interseccionalidade. Levantamos, através de questionário online, os xingamentos considerados como piores contra mulheres e homens; mulheres e homens negros. Foram analisados 1.782 questionários. Após análise de conteúdo, semântica e pragmática, separamos os xingamentos em categorias e comparamos suas incidências relativas aos diferentes grupos. Identificamos a presença evidente de valores racistas quando se racializa o alvo. Contudo, gênero foi um fator de diferenciação: contra mulheres negras, as ofensas visavam à estética e contra homens negros, havia associação com a criminalidade. Os dados sugerem a existência de um racismo gendrado no país.
Palavras-chave: interseccionalidade; racismo; sexismo; discriminação social; injúria racial
Abstract
Previous research has identified that slurs are practices loaded with sexist and homophobic values. This study aimed to identify the social marker race, with a gender intersection, in order to understand how racism is expressed in this language phenomenon, using the intersectionality paradigm as a reference. We surveyed, through an online questionnaire, the swear words considered the worst ones against women and men; black women and men. A total of 1,782 questionnaires were analyzed. After analyzing the content, semantics and pragmatics, we separated the slurs into categories and compared their incidence in relation to the different groups. We identified the obvious presence of racist values when the target is racialized. However, gender was a differentiating factor: against black women, the insults were aimed at aesthetics and against black men, there was an association with criminality. The data suggests the existence of gendered racism in Brazil.
Keywords: interseccionality; racism; sexism; social discrimination; racial slurs
A prática de categorizar grupos humanos foi muito comum na história do Ocidente, o que, em si, não se configura como um problema, pois, como afirma Myers (2014, p. 247), o exercício de estranhar o diferente é automático e traz ganhos para o fortalecimento intragrupo. Entretanto, esse ato se torna contestável quando as diferenças passam a ser hierarquizadas por uma lógica etnocêntrica, atribuindo preconceitos, discriminação e até morte a outros grupos - dinâmica que caracterizou a Idade Moderna (Mbembe, 2018a). Com o advento e a consolidação do capitalismo comercial, nações europeias invadiram territórios, os quais chamamos hoje de África e América, e promoveram a colonização e o genocídio de diversas etnias africanas e ameríndias a fim de explorar seu trabalho e dar-lhes "humanidade" (Dussel, 1993).
Tradicionalmente, o termo "raça" foi empregado para classificar biologicamente animais não humanos, mas durante a modernidade essa classificação foi extrapolada para os seres humanos, utilizada justamente para nomear povos não europeus, servindo, então, como justificativa para o sequestro e escravização dessas populações (Wallerstein, 2007). Já no século XIX, essas ideias de classificação racial da humanidade ganharam respaldo "científico" da biologia e antropologia, as quais defendiam que as separações em subespécies se dariam a partir dos valores morais e do nível psíquico/intelectual das sociedades (Guimarães, 2003).
Valendo-se da noção de determinismo biológico e orientada por uma metodologia comparativa sem o menor recorte cultural, essa tradição científica denominada de "racismo científico" delegava aos negros o lugar de atrasados biologicamente, como se estivessem em um nível abaixo na escala evolutiva (Laraia, 2007). Mesmo não se mantendo no mainstream científico durante muito tempo, essas ideias se materializaram em políticas eugenistas, que enfatizavam o extermínio da população negra e de todas as demais populações 'inferiores' na escala evolutiva, como ocorreu durante o nazismo (Guimarães, 2003).
Esses discursos reverberaram também por terras brasileiras, tendo sido utilizados para explicar o suposto "atraso moral" do país na transição do século XIX para o XX, em relação às sociedades do norte global. A justificativa para essa diferença seria justificada pelo grande número de negros vivendo no Brasil (Santos et al., 2012). Não obstante, uma resolução foi oferecida pelos pensadores do racismo científico ao Estado brasileiro: branquear a população, por meio de políticas de apoio à migração de brancos (europeus pobres) para o Brasil (Schwarcz, 1993).
Atualmente, no âmbito das ciências humanas e sociais, essas concepções de determinismo biológico foram substituídas por uma perspectiva histórica e social para explicar as desigualdades materiais - embora aquelas ainda resistam no imaginário social. Sendo assim, o conceito de "raça" passou a ser entendido, cientificamente, como uma categoria analítica, relacional e construída socialmente (Guimarães, 2003).
A história e formação do "Brasil" se deu embebida pelos ideais da colonialidade moderna, pautada na realidade de destruição dos não brancos. Nesse sentido, a relação histórica com as populações racializadas, a saber, negros e indígenas, seguiu baseada na lógica do racismo fundada pelas nações europeias, ou seja, de produção sistemática de desvantagens e privilégios fundamentada no pertencimento racial do sujeito. Segundo Lia Schucman (2012), a expressão dessa lógica hierárquica se manifesta por meio de atitudes preconceituosas e comportamentos discriminatórios.
Entretanto, como nos lembra Dennis Oliveira (2018), o racismo não se limita à dimensão interpessoal do sujeito, mas se configura enquanto fenômeno estrutural, que fundamenta a organização política, institucional e econômica do Estado, bem como aspectos relacionados à subjetividade (Fanon, 1952/2008; Grosfoguel, 2016). O entendimento do racismo na contemporaneidade está, portanto, condicionado ao reconhecimento da colonização como fator estruturante dessa realidade, como já apontou Lélia Gonzalez (1988). O racismo é, assim, uma ideologia/prática de continuidade do intento colonial (Quijano, 1992).
Na contemporaneidade, o racismo continua a estruturar o funcionamento do sistema-mundo, sendo evidente a disparidade econômica e política entre os países do norte e do sul global (Bernardino-Costa et al., 2018), e, não coincidentemente, há uma estratificação racial nessa disparidade geopolítica. No contexto brasileiro, isso se mantém, haja vista que os negros continuam a ocupar o lugar de subalternidade em relação aos brancos, constituindo as classes sociais mais pobres, habitando as celas carcerárias e estando sub-representados nas posições de poder, como na política e nas universidades (Osório, 2019). O racismo continua, assim, na atualidade, a ser naturalizado/institucionalizado, e sua expressão ocorre não apenas de forma explícita, mas sobretudo de forma insidiosa e capilar (Gouveia; Zanello, 2018).
Entretanto, raça não é o único marcador social que inscreve corpos em situação de desigualdade e subalternidade desde o nascimento; elencamos aqui o marcador gênero, que também foi marcante para discriminação de mulheres na história do Ocidente. Segundo Laqueur (2001), desde Aristóteles até o século XVIII, não havia uma divisão binária físico-performativa entre homens e mulheres; isso só aconteceu após o advento do capitalismo como forma de naturalizar as desigualdades sociais. A partir desse novo modo de produção e funcionamento social, foi imposta às mulheres uma posição de servidão ao lar e ao homem. Como aponta Silvia Federici (2019), essa exploração do trabalho feminino (não remunerado), juntamente com a escravização, configurou-se como uma base para o desenvolvimento do capitalismo. Sexismo e racismo são, dessa maneira, fatores estruturais/estruturantes desse sistema (Oyewumi, 2021; Fanon, 2008).
Assim como na história do racismo, a ciência moderna esteve presente nas discussões sobre diferenças sexuais e também difundiu uma concepção essencialista a respeito das identidades, apontando um caráter inato para justificar as diferenças comportamentais e emocionais (Zanello, 2018). Entretanto, produções teóricas e etnográficas realizadas na primeira metade do século XX por Simone de Beauvoir e Margaret Mead, respectivamente, possibilitaram os primeiros passos para o entendimento das diferenças sexuais enquanto construção social da cultura na qual elas ocorrem. Nesse sentido, surge o termo "gênero" para apontar que as diferenças comportamentais entre os sexos são, sobretudo, relacionais e marcadas pelas relações de poder; e, como complementa Zanello (2018, p. 44), "gênero seria uma divisão sexual imposta aos sexos, a qual transformaria a fêmea em mulher e o macho em homem".
Segundo Sueli Carneiro (2011), raça e gênero devem ser entendidos como marcadores sociais historicamente construídos, mas também como estruturantes da sociedade brasileira. Ademais, o intercruzamento desses marcadores potencializa a vulnerabilização e a violência sobre aquelas pessoas que os carregam, a saber, as mulheres negras em situação de pobreza (Crenshaw, 2002; Pereira, 2020). Dessa forma, apoiamo-nos no paradigma da interseccionalidade inaugurado por Kimberlé Crenshaw (2002) para compreender as nuances e a dinamicidade das opressões sociais, tomando este paradigma enquanto categoria político-teórico-metodológica (Collins; Bilge, 2021) e como teoria social crítica (Collins, 2022).
Porém, ainda que nos inspiremos na interseccionalidade como ferramenta analítica, o faremos com a ressalva de que esta categoria foi elaborada em um território diferente daquele ao qual estamos circunscritos e que iremos analisar, haja vista que o contexto sociocultural, e sua respectiva formação social, é condicionante da teoria social produzida, como alerta a antropóloga e psicanalista brasileira Lélia Gonzalez (1988). Ademais, é importante recordar que Lélia Gonzalez foi uma das pioneiras na promoção de uma leitura interseccional da realidade social ao se debruçar sobre os impactos conectados do racismo e sexismo na vida das mulheres negras no Brasil, país no qual o racismo racializa por meio do fenótipo e não pela origem, como ocorre nos Estados Unidos, onde a interseccionalidade foi elaborada (Gonzalez, 1984).
Isto posto, o objetivo deste estudo é compreender os impactos diferenciados (privilégio/opressão) do entrelaçamento de duas opressões estruturais no contexto brasileiro, a saber, o racismo e o sexismo. Conforme tem sido proposto pela literatura interseccional (Zanello, 2018; Kilomba, 2019), analisaremos o sexismo racializado ou um racismo gendrado na vida de homens brancos, homens negros, mulheres brancas e mulheres negras.
Considerando as discussões sobre racismo gendrado ou sexismo racializado, fazse mister estudar suas manifestações em múltiplas formas. Dentre elas, gostaríamos de destacar as práticas do cotidiano que, de tão repetidas, tornam-se invisibilizadas, como os xingamentos. Tido enquanto prática referenciada na linguagem, a qual está embebida pela cultura3 e nas respectivas relações de poder (Nascimento, 2020), o xingar é um ato de fala realizado quando se proferem certos vocábulos com a intenção de ofender outra pessoa (Zanello, 2008). Trata-se de uma tentativa de degradar moralmente o outro. Em outras palavras, para compreender o efeito degradador dos termos utilizados nos xingamentos, faz-se essencial não apenas estudar a história desses termos, mas também as situações às quais eles permaneceram ligados por condicionamentos sociais, ainda que de maneira não consciente.
O xingamento pode, assim, ser considerado um sintoma da sociedade na qual ele aparece (no nosso caso, racista e sexista) e mostra, justamente pelo caráter de ofensa que contém, as regras e valores apregoados por essa sociedade. Além disso, o xingar é ato de fala (Austin, 1990) que não apenas repete esses valores, mas os reafirma. Sendo assim, independentemente da consciência do falante ao proferi-los, os xingamentos veiculam uma prática baseada nos valores atribuídos aos diferentes grupos sociais.
Pesquisas anteriores (Baére; Zanello; Romero, 2015) demonstraram a existência de valores binários, sexistas e homofóbicos em xingamentos comumente proferidos em nosso país. O presente estudo visa complexificar a discussão elencando o marcador social "raça" para o entendimento do preconceito e da discriminação contra homens negros e mulheres negras no Brasil. Sendo assim, visamos levantar, através de questionário, os xingamentos considerados como piores por público branco e negro para mulheres e homens (entendidos no universal)4, mulheres e homens negros, e verificar se há e quais são os valores raciais e de gênero presentes nos xingamentos proferidos, bem como comparar os respectivos xingamentos intra e intergrupo.
Método
O projeto desta pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília (CEP CHS/ICH-UnB)5. Após o aceite do CEP, os questionários foram divulgados nas redes sociais dos autores, entre outubro e novembro de 2020, por meio de um link de redirecionamento para o Google Forms, plataforma que abrigou o questionário de acesso aberto.
Por ter se tratado de um período de isolamento físico imposto pela pandemia de COVID-19, optamos por trabalhar com uma amostra por conveniência, a fim de entender tendências gerais e levantar hipóteses. Os únicos critérios de seleção dos participantes foram possuir idade superior a 17 anos e ter acesso à internet. Como a divulgação do link para o questionário foi online, por meio de plataformas como Instagram e WhatsApp, os participantes se autosselecionaram ao escolher participar do estudo, ou seja, a amostra foi não probabilística.
Antes de responder o questionário, os participantes tiveram que ler e assinalar um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que apresentava os pesquisadores, a pesquisa e os respectivos objetivos, apontava o caráter voluntário e anônimo da pesquisa, bem como a possível interrupção da participação a qualquer momento. No que tange ao questionário, as pessoas interessadas em participar da pesquisa tiveram que responder questões sociodemográficas que indicavam a quais grupos sociais as mesmas pertenciam. Nesse sentido, tiveram que informar: estado em que residem, curso/profissão, renda familiar (por salários-mínimos), idade, raça/etnia (branco, pardo, preto, indígena ou amarelo), gênero (homem cis ou trans, mulher cis ou trans, travesti, não binária ou outro) e nível de escolaridade.
Obtivemos 1.823 questionários respondidos, em que 988 dos respondentes se autodeclararam mulheres cisgênero brancas e 690 mulheres cisgênero negras, além de 48 homens autodeclarados cisgênero brancos e 56 homens cisgênero negros. Apenas 1 questionário foi respondido por uma mulher trans, que se autodeclarou branca, e não tivemos respostas de homens trans. Em relação às pessoas não binárias, tivemos 12 respostas, das quais 5 eram brancas e 7 negras. Além disso, 2 pessoas assinalaram ser de outro gênero. No que tange ao pertencimento étnico, tivemos respostas de apenas 3 mulheres indígenas. Por fim, 23 respostas foram de mulheres autodeclaradas amarelas. Como a quantidade de questionários respondidos por membros desses grupos foi muito baixa, não foram analisados estatisticamente na presente pesquisa. Ao final, foram analisados, portanto, 1.782 questionários.
Em relação aos dados geográficos dos respondentes, 58,5% eram da região Sudeste, 15,5% da região Sul, 11,8% da região Centro-Oeste, 11,2% da região Nordeste e 3% da região Norte. Sobre o nível de escolaridade, 0,1% tinham o ensino fundamental incompleto e 0,4% completo; 0,7% possuíam o ensino médio incompleto e 6,4% completo; 15,4% não haviam finalizado o ensino superior, enquanto 77,1% já o tinham completado. A respeito das condições socioeconômicas, usamos o salário-mínimo (SM) como parâmetro, que em 2020 correspondia a R$ 1.045,00. As faixas de renda familiar dos respondentes foram as seguintes: até 1 SM (5,1%), mais de 1 a 3 SM (23,4%), mais de 3 a 5 SM (26,2%), mais de 5 a 7 SM (15,6%), mais de 7 a 9 SM (10,8%), mais de 9 a 12 (8,4%) e, por fim, mais de 12 SM (10,1%).
Como se tratou de uma amostra por conveniência adquirida por meio de questionário online e de acesso aberto, não pudemos equiparar os grupos de perfil de respondentes. Especificamente, a disparidade quantitativa de respostas entre mulheres e homens nos indicou um viés de autosseleção (Carlomagno, 2018), no qual indivíduos mais interessados no tema da pesquisa ou com maior acesso à internet podem ser mais propensos a participar, destoando do perfil sociodemográfico. Como se mostra comum em pesquisas como a nossa, ficou evidente o maior interesse e disponibilidade de mulheres nessa participação (Becker, 2022). Essa disposição pode não ser aleatória, e sim talvez aponte para o gendramento dos processos de subjetivação em culturas patriarcais, mais ainda quando o tema é gênero (Zanello, 2018). Embora essas ponderações metodológicas limitem nosso estudo, em termos de generalização dos resultados, elas podem trazer insumos importantes para analisar as relações estruturais entre sexismo e racismo em nosso país e sua presença no cotidiano das pessoas (por exemplo, quando elas são ofendidas).
O questionário possuía oito questões, adaptadas de pesquisas anteriores (Zanello; Bukowitz; Coelho, 2011; Zanello; Gomes, 2008; Zanello; Romero, 2012; Baére, Zanello; Romero, 2015), para apreender quais xingamentos são considerados piores em um público negro (mulheres e homens) e "universal" (mulheres e homens). A pergunta que utilizava mulher e homem no universal veio antes da pergunta que racializava a questão, por duas razões: de um lado, porque se subentende que ela está relacionada ao grupo racial branco (Schucman, 2012), tal como apontamos na introdução; e, de outro, para não evocar resistência e racionalização, ao evidenciar ao respondente o objetivo da pesquisa, o que poderia elicitar respostas "politicamente corretas" ao invés de espontâneas. Ou seja, nomeá-la, logo no início, poderia produzir um viés de conformidade (Myers, 2014).
Além disso, entre as questões sobre xingamentos, introduzimos perguntas sobre os melhores elogios atribuíveis a estes grupos sociais. Esta foi uma estratégia para driblar a resistência e os afetos dos(as) respondentes, haja vista que, embora o racismo e o sexismo sejam estruturais na sociedade brasileira, os sujeitos evitam pessoalizar suas percepções preconceituosas, pois, como aponta Florestan Fernandes (1965), os brasileiros têm preconceito de ter preconceito.
As perguntas do questionário foram: 1) Quais são os piores xingamentos que podem ser atribuídos a uma mulher? Em que situação? 2) Quais são os melhores elogios que podem ser atribuídos a uma mulher? Em que situação? 3) Quais são os piores xingamentos que podem ser atribuídos a um homem? Em que situação? 4) Quais são os melhores elogios que podem ser atribuídos a um homem? Em que situação? 5) Quais são os piores xingamentos que podem ser atribuídos a uma mulher negra? Em que situação? 6) Quais são os melhores elogios que podem ser atribuídos a uma mulher negra? Em que situação? 7) Quais são os piores xingamentos que podem ser atribuídos a um homem negro? Em que situação? 8) Quais são os melhores elogios que podem ser atribuídos a um homem negro? Em que situação?
A pergunta complementar "Em que situação?" visou esclarecer em que sentido a palavra elencada pelo respondente estava sendo usada, possibilitando aos pesquisadores realizarem não apenas a análise semântica, de conteúdo, mas também, a pragmática. Dessa forma, tal como evidenciado em estudo anterior, considerou-se que uma mesma palavra/xingamento pode ser usada com sentidos diferentes (Zanello; Romero, 2012).
Visamos comparar de forma quantitativa e qualitativa as respostas dos grupos, tanto em relação aos grupos raciais com os quais se identificaram quanto ao sexo-grupo dos mesmos. Os dados foram submetidos a uma análise de conteúdo (Bardin, 1977), bem como pragmática (Wittgenstein, 1991). A análise seguiu a seguinte ordem de sujeito hipoteticamente xingado: primeiro, de todas as respostas dadas (por mulheres brancas e negras, homens brancos e negros) sobre piores xingamentos passíveis de serem proferidos para mulheres; segundo, para mulheres negras; terceiro, para homens; quarto, para homens negros.
Os passos de análise foram os seguintes: 1) levantamento do sentido/significado dos xingamentos apontados por cada respondente, levando em consideração a pergunta aberta "Em que sentido?"; 2) criação de categorias temáticas recorrentes a partir da leitura das respostas; 3) reorganização das respostas pelas categorias; 4) quantificação das respostas; 5) análise estatística intragrupo, para saber a percentagem de cada categoria naquele grupo. É importante ressaltar que era aberto o número de xingamentos para cada pergunta, de forma que o mesmo respondente poderia indicar 3 xingamentos com a mesma conotação, por exemplo, de comportamento sexual ativo. Nesse caso, foram realizados dois levantamentos: de um lado, a presença de respostas de cada categoria em cada respondente (nesse caso, contaria apenas 1 vez, como presença da categoria "comportamento sexual ativo"), para levantar a incidência das categorias pelo número de participantes em cada grupo (de mulheres brancas e negras, homens brancos e negros); e, de outro lado, a quantificação do número total de xingamentos, e de suas respectivas categorias, apontados por todos os respondentes. Nesse último caso, visou-se levantar quantos xingamentos apareceram no total de cada grupo, a média de xingamentos por respondente e as categorias mais recorrentes dos xingamentos.
Diante das limitações apresentadas na composição da amostra, usamos o recurso de tratar cada subgrupo como um grupo em si mesmo, e a comparação estatística entre os grupos se deu entre as incidências das categorias em cada um deles. Ou seja, por exemplo, em vez de contabilizar as 1.782 respostas para identificar a pior forma de xingar mulheres de forma geral, realizamos a distinção em subgrupos para levantar, respectivamente, como mulheres brancas, mulheres negras, homens brancos e homens negros entendem qual o pior xingamento contra mulheres. Visou-se, dessa forma, diminuir as generalizações e aproximar os resultados aos perfis de respondentes.
Ao todo, foram desenvolvidas 16 planilhas, 4 para cada sujeito hipoteticamente xingado (mulher, homem, mulher negra, homem negro), sendo possível comparar o que mulheres brancas e negras, homens brancos e negros consideravam como pior xingamento para cada sujeito alvo do insulto.
Resultados/Discussão
Os dados foram aglomerados de acordo com o objeto alvo do xingamento: "contra Mulheres" (tabela 1), "contra Mulheres Negras" (tabela 2), "contra Homens" (tabela 3) e "contra Homens Negros" (tabela 5). Ademais, temos as tabelas 4 e 6 que indicam um detalhamento específico em subdivisões das categorias "comportamento sexual" e "traços de caráter" nos xingamentos contra "Homens" e "Homens Negros", respectivamente. A comparação das categorias de xingamentos indicados pelos respondentes se deu por meio dos diferentes grupos: por Mulheres Brancas, Mulheres Negras, Homens Brancos e Homens Negros, os quais estão identificados na primeira coluna das tabelas.
Distinguir, identitariamente, os sujeitos que atribuem os xingamentos nos apresentam indicadores de quais valores específicos mobilizam cada grupo social na avaliação de outros grupos. Outro ponto é poder identificar quais são os xingamentos que determinado grupo social avalia para si como os piores a se receber.
Em relação à percepção de mulheres brancas sobre os piores xingamentos contra mulheres, subentendidas enquanto brancas, as participantes indicaram aqueles relativos ao comportamento sexual (74%) e ao caráter relacional (20%). Nessa primeira categoria, encontramos os xingamentos que, de alguma forma, diziam respeito à vida sexual das mulheres; foram maioria aqueles que denotavam repúdio a uma vida sexual ativa (94%), tais como "vagabunda", "puta" e "vadia". Este dado nos mostra que ainda persiste a ideia de controle e domínio do corpo das mulheres, corroborando dados de pesquisa realizada há uma década, com uma amostra similar em termos de renda, escolaridade e faixa etária (Zanello; Romero, 2012). Já traços de caráter relacional apontam para o ideal (rompido) de feminilidade no modo de se relacionar com os outros, qual seja, o de disponibilidade, bondade, sinceridade, meiguice, etc. Exemplos de xingamentos dessa categoria são "interesseira" e "grosseira".
Outra subcategoria relacionada ao comportamento sexual foi a falta de vida sexual (3%), em ofensas tais como "mal comida", ou seja, tanto a presença quanto a ausência total de vida sexual são alvo de xingamento. Segundo Maia (2008), historicamente, no Brasil, convencionou-se que para mulheres terem uma vida sexual sadia ou ideal, ela deveria se dar de forma "adestrada", no casamento. Ademais, também categorizamos os xingamentos que animalizam as mulheres pelo seu comportamento sexual, por meio de metáforas - sejam elas "vivas" ou "mortas" (Ricoeur, 2000; Lakoff; Johnson, 1986; Zanello, 2005) - tais como "piranha", "galinha" e "cadela". Ou seja, embora a animalização se dê mediante metáforas, em muitos casos, por conta do uso excessivo pela comunidade falante, perde-se a referência animal, e o seu sentido originalmente metafórico passa a ser naturalizado. Trata-se da transformação da metáfora viva em morta, como é o caso dos xingamentos "piranha" e "galinha", que apontam para a atividade sexual.
Já na categoria "traços de caráter relacional" (20%), agrupamos as ofensas que dizem respeito à subversão das performances idealizadas para mulheres (de cuidar, ser boazinha, etc.), a saber, "interesseira", "preguiçosa" e "péssima mãe". As demais categorias são "atributos intelectuais" (17%), nas quais alocamos xingamentos que desvalorizam a capacidade intelectual, por exemplo "idiota"; de "saúde mental" (12%), em que categorizamos as ofensas que visam apontar um desequilíbrio mental, como "louca", "histérica" e "doida"; "atributos físicos" (8%), na qual alocamos os xingamentos que se referem ao corpo e a aspectos físicos, tais como "feia" e "gorda"; "antifeminismo" (1%), em ofensas como "feminazi" e "mimizenta", tendo como objetivo desqualificar o posicionamento político feminista de denúncia das desigualdades de gênero. E, por fim, temos a categoria "outros" (6%), na qual alocamos xingamentos que não puderam ser categorizados, por não haver clareza sobre seu sentido. A maioria deles consistiu do termo "vaca".
Na percepção das mulheres negras, os piores xingamentos contra mulheres (no universal) também são da ordem do "comportamento sexual" (76%) e dos "traços de caráter relacional" (19%), seguidos por "atributos intelectuais" (16%), "atributos físicos" (10%), "saúde mental" (9%), "outros" (5%), "antifeminismo" (1%) e "valor como pessoa" (1%), incluindo nesta última ofensas que inferiorizam a condição de sujeito, tais como "lixo" e "inferior". Aqui, percebe-se um ligeiro aumento na percentagem de "atributos físicos" em relação à percepção das mulheres brancas, em especial por apontarem a presença de alguns xingamentos racistas, como a animalização "macaca".
Para os homens brancos a lógica se manteve, indicando o comportamento sexual (73%) e os traços de caráter relacional (16%) como as piores formas de se ofender uma mulher. Em seguida, apareceram as categorias: "atributos intelectuais" (10%), "atributos físicos" (6%), "saúde mental" (6%), "antifeminismo" (6%) e "outros" (6%). A percentagem das categorias "outros" e "antifeminismo" foi superior ao padrão, justamente porque, no primeiro caso, foi utilizada a animalização "vaca", a qual não possui um sentido bem definido (como encontramos nas respondentes brancas). No caso da categoria "antifeminismo", os xingamentos mais comuns foram "feminazi" e "vitimista". A proeminência particular dessas ofensas parece se dever ao viés amostral e/ou pelo cenário social e político do Brasil, marcado pela ascensão do bolsonarismo, com um backlash às ondas progressistas, e ao fortalecimento dos movimentos sociais das minorias, incluindo as mulheres (Biroli; Caminotti, 2020; Indursky, 2020; Sardenberg et al., 2020).
Na opinião dos homens negros, o comportamento sexual (80%) e os traços de caráter relacional (14%) também foram elencados como os piores xingamentos atribuíveis às mulheres. Na sequência, estão os "atributos intelectuais" (11%), "saúde mental" (7%), "atributos físicos" (3%), "antifeminismo" (2%) e "valor como pessoa" (2%). Ainda que as percentagens se aproximem do padrão geral, nota-se uma maior concentração na categoria "comportamento sexual" por parte de homens, e uma utilização proporcionalmente maior das animalizações referentes ao comportamento sexual ativo, tais como "piranha" e "cadela".
Ao realizar a intersecção com a racialidade, percebemos uma mudança nos padrões de resposta: xingar uma mulher é diferente de xingar uma mulher negra. Segundo as mulheres autoidentificadas como brancas, os piores xingamentos contra mulheres negras têm relação com os atributos físicos (61%) e o comportamento sexual (19%). Identificamos que nessa primeira categoria se encontra a principal expressão do racismo gendrado nos xingamentos. De acordo com Oracy Nogueira (2007), o racismo no Brasil é de marca/cor, ou seja, a identificação de pertencimento racial é pautada nos traços fenotípicos. Além disso, o ideal estético é um componente identitário de mulheridade para as mulheres brasileiras (Zanello, 2022), sendo ele marcado pela brancura, magreza e juventude. Portanto, é sintomático que a expressão das ofensas se refira, em sua maioria aos aspectos físicos das mulheres negras. Os principais xingamentos utilizados na esfera estética foram "preta" e "macaca", enquanto contra mulheres foram "feia" e "gorda". Outro exemplo foi a utilização do termo "nojenta", que, quando direcionado às mulheres no geral, tinha uma conotação de caráter relacional (como sinônimo de "arrogante"), mas contra mulheres negras o sentido atribuído era físico/racial (ligado a "suja" e "fedorenta"). Dessa forma, ao se xingar uma mulher (geralmente vista como mulher branca), o aspecto sexual se sobrepõe, mas quando se racializa, o racismo é facilmente visto.
Em seguida, foram elencados os traços de caráter relacional (11%); "escravizacionismo" (8%), uma categoria inédita, com xingamentos somente contra negros e negras, nos quais se percebe um laço histórico à escravização de pessoas trazidas das nações africanas por quase 400 anos em nosso país. Exemplos dessas ofensas foram: "escrava", "doméstica" e "mucama".
Logo após, apareceram as categorias "atributos intelectuais" (5%), "outros" (3%), "saúde mental" (1%), "valor como pessoa" (1%) e "classismo" (2%), que também é uma categoria inédita, contendo xingamentos como "pobre" e "favelada". Nessa categoria, foram elencados os xingamentos que tinham relação com a classe social, os quais só apareceram quando se tratava de direcionar insultos às pessoas negras. Isso nos traz reflexões sobre como a sociedade brasileira está configurada através de uma racialização da pobreza (Carneiro, 2011), uma vez que, historicamente, negros e negras têm constituído as classes mais pobres desde a abolição da escravatura, justamente por conta da falta de subsídios e de políticas de inclusão social oferecidos pelo Estado brasileiro.
Há outra diferença significativa em relação aos xingamentos contra mulheres, a questão dos atributos intelectuais. Se contra as mulheres brancas o aspecto intelectual teve média geral de 15%, contra as mulheres negras essa média caiu para 7%. Pressupomos que, para mulheres brancas, é ofensivo porque elas podem ter um projeto de vida e aspirar a serem reconhecidas pela intelectualidade, ao passo que mulheres negras, pelo seu fenótipo, continuam, em função do racismo, a ser frequentemente associadas ao corpo e à natureza (Nogueira, 2007). Não é à toa que, como veremos, as metáforas de animalização também foram mais recorrentes.
Para as próprias mulheres negras, a pior forma de ser xingada é através dos atributos físicos (70%) e em relação a seu comportamento sexual (16%). Ainda que o padrão se repita em relação à percepção de mulheres brancas, há uma maior concentração na categoria "atributos físicos", na qual o racismo se faz mais presente. Temos como hipótese, por um lado, que essa maior percentagem de xingamentos racistas está ligada ao conhecimento experiencial do "lugar de fala" (Ribeiro, 2019). Por outro lado, pode ser relacionada também a um letramento racial crítico, devido à amostra dessa pesquisa ser majoritariamente de nível universitário (Siqueira; Ramos, 2021). As categorias elencadas subsequentemente foram: "atributos intelectuais" (9%), "escravizacionismo" (8%), "classismo" (2%), "outros" (2%), "valor como pessoa" (1%) e "saúde mental" (1%).
Na opinião dos homens brancos, a pior forma de xingar mulheres negras é fazendo referência aos atributos físicos (56%) e ao comportamento sexual (25%). Mesmo que essas categorias tenham sido elencadas como piores, é perceptível uma queda na percentagem da primeira categoria em comparação com os grupos anteriores. Uma suposição é a de que homens brancos estejam alheios a essa realidade de desigualdades estruturais, sobretudo por não serem alvo, mas pelo contrário, lucrarem material e simbolicamente nessa e por essa estrutura social racista e sexista.
Os demais xingamentos mencionados foram alocados nas seguintes categorias: "escravizacionismo" (14%), "traços de caráter relacional" (6%), "atributos intelectuais" (6%), "valor como pessoa" (2%), "classismo" (2%) e "outros" (2%).
Também para os homens negros, os piores xingamentos contra mulheres negras têm relação com atributos físicos (52%) e comportamento sexual (23%). Parece haver um alinhamento entre os homens brancos e negros, justamente por terem um padrão muito similar de respostas, referindo-se menos às questões físicas quando comparado às respostas de mulheres brancas e negras. Como nos lembra bem o paradigma da interseccionalidade (Collins; Bilge, 2021), na encruzilhada, os grupos ocupam determinada posição a depender do cruzamento; em se tratando do racismo, homens negros e mulheres negras são alvo dessa violência, mas quando falamos de sexismo, apenas as mulheres negras continuam no lugar de oprimidas, enquanto os homens negros lucram com a estrutura sexista.
Temos como hipótese que a similaridade identificada entre homens brancos e homens negros pode ser da cumplicidade na "casa dos homens" (Welzer-Lang, 2001), estrutura fundamental de subjetivação e funcionamento das masculinidades em nosso país (Zanello, 2020). Em seguida, estão as categorias "traços de caráter relacional" (16%), "escravizacionismo" (9%), "classismo" (9%), "atributos intelectuais" (5%), "saúde mental" (2%) e "outros" (2%).
No caso dos xingamentos contra homens em geral, as mulheres brancas elencaram os "traços de caráter relacional" (47%) e o "comportamento sexual" (40%) como os piores xingamentos - este último possui subdivisões, como pode ser visto na tabela 4. Nessa primeira categoria, elencamos os traços de caráter relacional, que dizem respeito a um modo de se relacionar com os outros marcado pela falta de integridade e pela opressão, contendo ofensas como "filho da puta" e "machista". Aqui, identificamos o gendramento em xingamentos, no que se refere ao conteúdo, pois os traços de caráter relacional elencados contra mulheres diziam mais respeito ao ideal atribuído a elas em relação ao cuidar e à bondade. Isso coaduna com pesquisas anteriormente realizadas, com amostra similar, no que tange à escolaridade, faixa etária e gênero (Zanello; Romero, 2012). Porém, contra homens, o caráter relacional é associado à integridade.
O fato de "machista" ter aparecido como um dos xingamentos mais frequentes (e não ter aparecido em pesquisas anteriores) pode nos indicar um viés da amostra alcançada, por ser majoritariamente composta por pessoas com nível educacional superior e próximas das redes sociais dos pesquisadores. Neste primeiro caso, uma pesquisa nacional apontou haver evidente correlação negativa entre índice de escolaridade e índices de machismo (IPEA, 2014).
Em seguida, temos a categoria "comportamento sexual" (40%). Como se vê na tabela 4, essa categoria foi composta por 4 subtemas: "passivo", "apassivação", "ativo" e "eficiência sexual". No tema "passivo" (20%), destacou-se a ideia de ser submisso, como uma "mulherzinha", no ato sexual. Exemplos de insultos nesta categoria foram "viado" e "gay". No tema da "apassivação" (11%), a ênfase recaiu na submissão e passividade face a um comportamento sexual ativo da mulher, porém com outro homem, tal como no uso ofensivo do termo "corno". No tema "ativo" (2%), foram elencados os xingamentos que apontavam para o exercício ativo da virilidade sexual, tal como em "safado"; e, por fim, temos o tema "eficiência" sexual (6%), no qual foram agrupados os xingamentos relacionados ao mau ou não desempenho da atividade sexual, tal como "brocha".
Os dados coadunam parcialmente com resultados de pesquisas anteriores (Baere; Zanello; Romero, 2015), nas quais os piores xingamentos atribuíveis a homens tinham relação com o comportamento sexual passivo baseado na reprodução de valores misóginos e homofóbicos, colocando em xeque o que seria considerado como virilidade sexual dos homens. Além disso, "corno" e "brocha" apontam para uma ineficácia sexual, a qual colocaria em dúvida, identitariamente, a masculinidade de homens brasileiros (Zanello, 2018).
A próxima categoria elencada como pior forma de xingar homens foi "traços de caráter de autoinvestimento" (32%), contendo xingamentos como "vagabundo" e "incompetente", indicando a falta de eficácia laborativa. De acordo com Zanello e Romero (2012), xingar um homem de vagabundo põe em questão sua identidade como homem, haja vista que na história do ocidente o trabalho foi associado à "essência" masculina; falhar nesse aspecto, assim como a questão sexual, seria falhar como homem.
Na sequência, estão as categorias "atributos intelectuais" (8%), "atributos físicos" (4%), "valor como pessoa" (1%), "políticos" (1%) e "outros" (1%). O surgimento da categoria "políticos" foi uma especificidade nos xingamentos contra homens, que incluem ofensas de cunho político (partidário) e refletem, de certa forma, o grupo de pessoas alcançadas pela pesquisa e o quanto o atual cenário social e político tem reverberado nas relações cotidianas: aqui tivemos como principal ofensa o termo "bolsominion".
Na percepção das mulheres negras, o padrão se manteve o mesmo das mulheres brancas: "traços de caráter relacional" (44%), "comportamento sexual" (33%), "traços de caráter de autoinvestimento" (33%), "atributos intelectuais" (9%), "atributos físicos" (5%) e "outros" (1%). Faz-se mister destacar que, diferentemente de outros estudos anteriores (Baere; Zanello; Romero, 2015), "comportamento sexual (passivo)" já não foi a principal categoria presente nas respostas das mulheres (brancas e negras), mas a segunda, o que pode apontar para o resultado do viés amostral ou, de forma otimista,mudanças antissexistas promovidas pelo próprio movimento feminista e pelos movimentos gays.
Entretanto, para os homens brancos, os piores xingamentos contra homens têm a ver com o comportamento sexual (54%), sobretudo de passividade (27%), o que corrobora nossas pesquisas anteriores supracitadas. Os demais xingamentos foram alocados nas seguintes categorias: "traços de caráter relacional" (46%), "traços de caráter de autoinvestimento" (21%), "atributos intelectuais" (4%), "atributos físicos" (4%), "políticos" (2%), "saúde mental" (2%), "valor como pessoa" (2%) e "outros" (2%).
Na percepção dos homens negros, o padrão geral se manteve, sendo "traços de caráter relacional" (43%) e "comportamento sexual" (43%) as categorias com a maior incidência de xingamentos. Na sequência se encontram "traços de caráter de autoinvestimento" (23%), "atributos intelectuais" (9%), "atributos físicos" (3%), "políticos" (2%) e "valor como pessoa" (2%).
Por fim, temos os piores xingamentos direcionados aos homens negros. Entre as mulheres brancas, os atributos físicos (53%) e aqueles relacionados à criminalidade (29%) foram eleitos pior forma para ofender esse grupo. Notamos uma disparidade em relação aos xingamentos contra homens (no geral), em que "atributos físicos" figurava na quinta posição das piores ofensas, ao passo que identificamos uma similaridade com os piores xingamentos contra mulheres negras. Nessa categoria, alocamos ofensas como "preto", "macaco" e "sujo", as quais são expressões tradicionais do racismo no Brasil.
Em segundo lugar, temos a categoria "criminalidade" (29%), relacionada exclusivamente a homens negros, contendo xingamentos como "bandido", "ladrão" e "suspeito". Essa associação de homens negros com o crime é um traço marcante das sociedades que experienciaram os processos de colonização, materializando-se na contemporaneidade por meio das necropolíticas (Mbembe, 2018b). E, em especial no Brasil, temos o extermínio da juventude negra praticado pelo Estado, não apenas pelo genocídio, mas pelo encarceramento em massa de jovens negros (Gomes; Laborne, 2018; Borges, 2019).
Os "traços de caráter de autoinvestimento" (16%), de "caráter relacional" (10%) e "atributos intelectuais" (5%) apareceram logo em seguida, e só então a categoria "comportamento sexual" (4%), apontada pelos homens brancos (aqui e nas pesquisas anteriores) como a pior forma de ser xingado. Ou seja, ser chamado de "viado" seria, talvez, a menor das ofensas para um homem negro, pois quando é a vida que está em xeque (a possibilidade de viver e não ser assassinado pelo Estado, por ser "bandido" só porque se é preto), a "impenetrabilidade anal" (Bersani, 1995; Misse, 1979; Saéz; Carrascosa, 2016), como símbolo de identidade masculina ("macheza"), é o que menos importa. É possível perceber a baixa presença desses xingamentos e suas subdivisões na tabela 6. As demais categorias foram "escravizacionismo" (4%), "classismo" (3%) e "outros" (2%).
De acordo com as mulheres negras, os "atributos físicos" (62%) e a "criminalidade" (32%) também são as primeiras categorias em potencial ofensivo contra homens negros. Percebemos aqui uma maior acentuação dos aspectos racistas nos xingamentos, bem como um maior envolvimento, visto que contribuíram com mais exemplos do que os demais grupos. Na sequência, estão os "traços de caráter de autoinvestimento" (18%), os de "caráter relacional" (10%), os "atributos intelectuais" (6%), "comportamento sexual" (4%), "outros" (3%), "escravizacionismo" (3%) e "classismo" (2%).
Para os homens brancos, os xingamentos relacionados aos "atributos físicos" (50%) e à "criminalidade" (21%) também foram os mais frequentes, seguidos por "traços de caráter de autoinvestimento" (16%), "traços de caráter relacional" (12%), "comportamento sexual" (10%), "atributos intelectuais" (10%), "escravizacionismo" (4%) e "classismo" (2%).
Já para os próprios homens negros, o pior tipo de xingamento que se pode sofrer tem a ver com os "atributos físicos" (46%) e "traços de caráter relacional (12%). Aparentemente, essa é uma percepção que destoa do padrão, tanto em percentagem como na ordem das categorias. Nesse sentido, "criminalidade" apareceu em 11% das respostas, percentagem essa muito próxima de "comportamento sexual" (9%) e "atributos intelectuais" (9%). Uma possível hipótese para essa discrepância seria a falta de letramento racial por parte dos respondentes ou uma dificuldade em nomear experiências dolorosas que podem lhes ser próximas. Porém, como o número de respondentes foi pequeno, seria necessário ampliar a amostra específica desse grupo, para obter dados mais conclusivos.
Por fim, encontram-se também as categorias "traços de caráter de autoinvestimento" (7%), "classismo" (3%) e "escravizacionismo" (3%). Estas duas últimas categorias, como apontamos anteriormente, só apareceram nas respostas quando o sujeito alvo do xingamento era um homem negro ou uma mulher negra.
Considerações finais
O intuito da pesquisa foi identificar se e como o racismo se expressa nos xingamentos contra pessoas negras. Os dados nos mostram que, quando há identificação da racialidade do alvo, os tipos de xingamentos são diferentes daqueles em que não se verifica o pertencimento racial. De forma unânime, mulheres brancas, mulheres negras, homens brancos e homens negros elencaram xingamentos que faziam referência aos atributos físicos como pior forma de se ofender pessoas negras, seja mulher ou homem.
Entretanto, no que se refere ao conteúdo das ofensas, gênero foi um fator de diferenciação na forma com que o racismo é expresso. Contra mulheres negras, os xingamentos colocavam em xeque a mulheridade das mesmas, sobretudo no que tange ao ideal estético. Já contra os homens negros, a desvalorização estética também esteve presente, mas, qualitativamente, o que se sobrepôs foi a expressão do racismo, mediante sua associação com a criminalidade.
Podemos apontar assim a existência de um racismo gendrado ou sexismo racializado, evidenciado nas escolhas diferenciadas dos xingamentos a depender do objeto alvo. Oparadigma da interseccionalidade nos orientou no desenho metodológico desta pesquisa e nas análises, indicando o potencial de compreender a dinamicidade e interconexões das opressões sociais a partir de suas caracterizações e nuances.
Como limitação deste estudo tivemos a assimetria numérica de respondentes mulheres e homens. Além disso, a amostra foi não probabilística, ou seja, não foi representativa da população brasileira em termos de raça, escolaridade e renda, e, portanto, há limitações para se passar a generalizações. Por conta da pandemia causada pelo coronavírus, disponibilizamos os questionários na internet, de acesso aberto, em nossas redes sociais e, assim, não tivemos controle na seleção dos respondentes. Porém, o problema não é apenas metodológico, mas tem a ver com os próprios processos de subjetivação, os quais levam mulheres a se disponibilizarem muito mais do que homens a participar de pesquisas e gastar seu tempo preenchendo questionários (Zanello, 2018). A solução para resolver tais problemas foi usar o tratamento estatístico de comparação das incidências relativas a cada grupo.
Por fim, ressaltamos a importância de novos estudos para aprofundar nossos achados, com uma amostra representativa, levando em conta mais marcadores sociais como classe, escolaridade e sexualidade, além de gênero e raça. Isso possibilitaria uma visão mais complexa das interseccionalidades presentes nas práticas violentas e seus efeitos sobre os sujeitos que são alvos delas.
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