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Esta dissertação busca estabelecer uma ponte entre o romance A Rainha dos cárceres da Grécia (1976) de Osman Lins e Lúcialima (1983) de Maria Velho da Costa a partir do tratamento da multiplicidade adotado por ambos; assim, manifesta-se nos dois a literatura como prática coletiva e dialógica, impedindo quaisquer tipos de atitudes autoritárias. Neste sentido, o jogo com a autoria e a autoridade, neles patente, permite carnavalizar e horizontalizar tanto a literatura quanto as componentes sociais dos textos, ambas correlacionadas com as ditaduras brasileira e portuguesa. Para isto, utilizaram-se os conceitos provenientes de Deleuze, Guattari, Bakhtin e Kristeva, sobretudo no tocante às modelizações do romance polifônico e do romance esquizofrênico, dada a maneira como em ambas conceituações a determinante é a presença da multiplicidade. Deste modo, a multiplicidade (compreendida como pluralidade simultânea) torna-se uma manifestação estética, ética e política na medida em que, ao impedir o autoritarismo do Uno, patenteia os entrelaçamentos e as fragmentações responsáveis por conectarem as instâncias de produção e recepção literária: sujeito, sociedade e linguagem. Logo, a prática romanesca, ao transformar-se em vetor face ao múltiplo, rompe com as delimitações das identidades e da unidade, instaurando um campo potencialmente tão complexo quanto o próprio campo do Real. Assim, os romances selecionados materializam uma concepção de prática literária comum, comparável através de uma atitude revolucionária no múltiplo sentido do termo.