Headnote
NOTA DO EDITOR
Manuscrito recebido em : 23/06/2025
Aceite após peritagem : 11/07/2025
RESUMOS
Nesse datário celebramos o centenário do filme La vocation d'André Carel, o qual descortina o duro cotidiano dos barqueiros no transporte de pedras, bem como o trabalho doméstico das mulheres, igualmente exigente e custoso. Embora o trabalho não seja o foco principal, ele ocupa boa parte do filme, abrindo-nos à reflexão sobre a presença do trabalho na história do cinema. Constatamos o quanto tem se difundido, em vários campos do saber, o uso de filmes para discutir temas abrangidos pela categoria trabalho. Outro movimento tem sido transformar em filmes/ documentários resultados de estudos realizados, tanto para democratizar o acesso quanto provocar debates entre os destinatários dessas produções. Além disso, abordagens como a ergonomia da atividade e a clínica da atividade tem valorizado o uso da imagem para provocar a fala sobre o trabalho. Revela-se assim a importância do cinema (sob qualquer formato) para discutir a complexidade do trabalho.
En esta efeméride celebramos el centenario de la película La vocation d'André Carel, que revela la dura cotidianidad de los barqueros en el transporte de piedras, así como el trabajo doméstico de las mujeres, igualmente exigente y costoso. Aunque el trabajo no es el enfoque principal, ocupa gran parte de la película, abriéndonos a la reflexión sobre la presencia del trabajo en la historia del cine. Constatamos cuánto se ha difundido, en varios campos del saber, el uso de películas para discutir temas abarcados por la categoría trabajo. Otro movimiento ha sido convertir en películas/documentales los resultados de estudios realizados, tanto para democratizar el acceso como para provocar debates entre los destinatarios de estas producciones. Además, enfoques como la ergonomía de la actividad y la clínica de la actividad han valorado el uso de la imagen para provocar la conversación sobre el trabajo. Así se revela la importancia del cine (en cualquier formato) para discutir la complejidad del trabajo.
Dans cette éphéméride, nous célébrons le centenaire du film La vocation d'André Carel, qui dévoile le quotidien difficile des bateliers dans le transport de pierres, ainsi que le travail domestique des femmes, tout aussi exigeant. Bien que le travail ne soit pas le sujet principal, il occupe une grande partie du film, ouvrant la réflexion concernant la présence du travail dans l'histoire du cinéma. Nous constatons combien, dans divers domaines de savoir, l'utilisation des films a pris de l'ampleur dans les débats à propos de thèmes couverts par la catégorie travail. Une autre perspective a consisté à transformer en films/documentaires les résultats d'études réalisées, tant pour démocratiser l'accès à ces études que pour susciter des échanges avec les destinataires de ces productions. Par ailleurs, des approches comme celles de l'ergonomie de l'activité et de la clinique de l'activité ont valorisé l'utilisation de l'image pour inciter à parler du travail. Ainsi se révèle l'importance du cinéma (sous plusieurs formats) pour discuter de la complexité du travail.
In this Emblematic dates, we celebrate the centenary of the film La vocation d'André Carel, which portrays the harsh daily life of the boatmen transporting stones, as well as the domestic work of women, which is equally demanding and costly. Although work is not the central theme, it occupies a significant part of the film, allowing us to reflect on the presence of work in the history of cinema. We observe how the use of films to discuss themes encompassed by the category of work has spread in various fields of knowledge. Another movement has been to transform documented studies into films/documentaries, both to democratize access and to provoke discussions among the recipients of these productions. In addition, approaches such as the ergonomics of activity and the clinical study of activity have valued the use of images to provoke dialogue about work. Thus, the importance of cinema (in any format) in discussing the complexity of work is revealed.
ÍNDICE
Palabras claves: trabajo, cine, historia
Keywords: work, cinema, history
Palavras-chave: trabalho, cinema, história
Mots-clés: travail, cinéma, histoire
1, Introdução
Nesse datário discorremos inicialmente sobre o filme La vocation d'André Carel que completa cem anos1 , mostrando sua importância ao revelar, com um nível de detalhe que surpreende, a vida dos barqueiros no transporte de pedras, bem como o trabalho de reprodução realizado pelas mulheres. Com base nesse filme, discutimos como o tema trabalho tem percorrido a história do cinema desde o início, acompanhando o processar das mudanças no tempo. Situamos como, em diversos campos do saber, tem crescido o interesse em discutir a temática do trabalho, nas suas múltiplas facetas, a partir da produção cinematográfica. Num outro movimento, vemos a academia buscando novas possibilidades de difusão dos resultados de seus estudos, por meio do formato vídeo/filme/documentário, no intuito de democratizar o acesso ao conhecimento e possibilitar o debate e a crítica dos seus destinatários. Por fim, situamos que o uso da imagem nos estudos do trabalho está na história da ergonomia da atividade, posteriormente, na Clínica da atividade, como um meio de provocar a discussão sobre o trabalho, permitindo que os operadores e operadoras se apropriem de forma crescente de sua atividade.
2. O filme La vocation d'André Carel ou La puissance du travail, 1925, direção de Jean Choux, França/Suíça
O famoso e rico escritor Jean Carel (Camille Bert) aconselha seu filho André Carel (Stéphane Audel), a partir, acompanhado de seu tutor Gastion Lebeau (Michel Simon), para um majestoso hotel/Spa, em Evian, localizado às margens do Lago Genebra (ou Lago Lemano). Procurava assim dar ao filho a oportunidade de cuidar da própria saúde (o diretor do hotel o definiu como uma mente perturbada) e de refletir sobre a vida que levava e daí, quem sabe, encontrar algo que valesse a pena empenhar suas energias. Durante um passeio de barco, André ficou impressionado com a beleza de uma jovem que dormia em seu assento. A atração foi tal que a partir de então envidou todos os esforços para descobrir a identidade dessa jovem, a família da qual provinha, onde morava, como se mantinha, entre outras coisas. Procurou, então, com esse objetivo em mente, encontrar uma vestimenta semelhante à de um simples habitante da região, de modo a não chamar atenção sobre sua origem, condição financeira, etc. E assim o fez. Descobriu então que a jovem se chamava Reine Lugrin (Blanche Montel) e residia com sua família na pequena cidade de Meillerie. Era filha de um barqueiro (Maurice Destain) que transportava pedras de uma pedreira ao longo do Lago Genebra/Lemano. Visando aproximar-se dela e de sua família, candidatou-se a uma vaga de barqueiro no barco do seu pai e logo foi contratado, ficando hospedado com os demais trabalhadores numa casa vizinha à da jovem. É nesse ponto, que passamos a acessar o universo desses trabalhadores das águas. Verificamos, então, que é um trabalho de um custo físico elevado. Transportar pedras, um trabalho dominado por homens, exige força, habilidades específicas e, especialmente, trabalho coletivo, atributos que se estendem à condução da embarcação. Ao mesmo tempo, esse trabalho faculta aos que dele participam um contato com o mar, suas belezas e riscos, gerando um saber relativo à direção dos ventos, ao ciclo das ondas, ao manejo das velas, entre outras coisas, um savoir-faire fundamental para uma operação eficiente do barco. André mostra-se um trabalhador diligente, que logo incorpora o patrimônio de saberes daquele coletivo, apesar de sua origem social. Por outro lado, o filme nos apresenta também o cotidiano das mulheres dos barqueiros (das esposas e filhas) em atividade, seja na limpeza da casa, na preparação da comida, no servir os homens, na lavagem dos pratos, no transporte de pesadas roupas para serem lavadas, entre outras tarefas domésticas. Um trabalho contínuo, sistemático, com poucas variações e igualmente custoso do ponto de vista físico e psíquico. Verificamos no filme dois extratos sociais, com condições bem diferenciadas. A de uma elite com capital suficiente para usufruir do que o lago oferece em termos de hotéis luxuosos, passeios de barco, entre outras coisas e, por outro lado, um contingente de trabalhadores e trabalhadoras, excluídos dessas benesses, mas que 'partilha' o lago porque nele encontra sua fonte de sobrevivência. Depois o filme se desenrola em torno desse encontro amoroso, mas para além disso, cumpre um papel fundamental de revelar a potência do trabalho (outro título pelo qual o filme é conhecido) abrindo a câmera, o olhar e a sensibilidade para um contingente de trabalhadores e seu ambiente de trabalho (a pedreira, o barco, o lago) que, não fosse a contingência ficcional da atração entre André e Reine, permaneceria na invisibilidade. Por essa razão merece ser celebrado, pois concentra, durante bom tempo, a atenção do espectador sobre as condições de trabalho e de vida desses trabalhadores das águas. Talvez fosse essa a intenção principal do diretor, Jean Choux, mais que o desfecho do filme, de forte apelo comercial, compreensível para um cinema que dava os primeiros passos e precisava ser rentável para sobreviver. Esse e outros filmes que surgirão depois vão compor uma vasta filmografia que tematiza o trabalho e da qual ainda estamos em processo de descoberta.
3. O trabalho na história do cinema
Como já anunciado no título desse datário, o trabalho está presente, desde seus primórdios, na trajetória do cinema, seja como temática principal, seja como pano de fundo, elemento de uma trama. E não poderia ser diferente. O trabalho ocupa, no mínimo, um terço da vida das pessoas e, por essa razão, não poderia ser excluído de qualquer produção cinematográfica, sob pena de amputar uma dimensão crucial dos humanos, que exerce sua influência sobre as demais dimensões da vida. O filme La vocation d'André Carel é uma ilustração desse pressuposto. Ele gira em torno de uma atração irresistível entre um filho da burguesia e a filha de um trabalhador das águas, que culmina com um enlace matrimonial, que muitos apostam só existir na ficção. Não teria como construir essa ficção sem se reportar a vida e ao trabalho do contingente de trabalhadores e trabalhadoras do qual provém Reine e, igualmente, sem dar a dimensão da condição privilegiada que André Carel desfrutava, por ser filho de um escritor rico e famoso.
Outro exemplo clássico, de 1936, é o filme Tempos Modernos de Charles Chaplin (Chaplin, 1936). Ele realiza uma densa crítica à nascente sociedade da produção e do consumo de massa, o que lhe rendeu fortes retaliações, pois a sua crítica coincide com um momento de consagração do Fordismo, enquanto novidade tecnológica e sócio-organizacional. Retrata, por um lado, como se organiza a produção fordista, que passa a controlar até os micros movimentos operários, por meio de uma pesada hierarquia e de uma tecnologia de controle eficiente, ocasionando nos operários exaustão física e psíquica, pois estes se veem confrontados com um sistema que os considera como meros apêndices da máquina, interditando qualquer possibilidade decisória e de adaptação do trabalho ao perfil biopsíquico de cada operário. Nesse filme, a questão da relação entre trabalho e saúde mental é posta com muita nitidez, mesmo que só a posteriori surjam disciplinas para investigar essa relação, uma prova inconteste de que arte se antecipa a ciência, fornecendo valiosas indicações por onde a investigação científica pode caminhar. Por outro lado, o filme retrata que o automóvel, como ilustração de um bem que se tornou mais acessível, devido ao aumento exponencial da produção que o Fordismo favoreceu, não significou, o que muitos esperavam, uma democratização no acesso aos bens de consumo. Pelo contrário, aquele grande contingente do qual Chaplin era o porta-voz não tinha dinheiro para adquirir os frutos da produção em massa e sua vida nada tinha a ver com o tão propalado American way of life. Sem dúvida, Tempos Modernos foi um marco na produção cinematográfica com foco no mundo do trabalho, inspirando futuras produções que refletem as mudanças que vão se desdobrando na produção, no trabalho e na sociedade.
Tempos Modernos pode ser considerado, portanto, o deflagrador do tipo de produção cinematográfica que nos interessa neste datário. A lista de filmes, de diretores, de países que colaboraram e continuam colaborando para ampliar um já rico patrimônio de filmes sobre o trabalho é extenso e ainda por dimensionar adequadamente. Não vou citar filmes, ou mesmo países que privilegiaram a discussão sobre o trabalho. Correria o risco de cometer injustiças. Mas me atrevo a citar alguns diretores que venho acompanhando e que têm privilegiado a discussão de temas sociais, dentre os quais o trabalho, tais como Elio Petri, Costa-Gravas, Ken Loach, Robert Guédiguian, Emmanuel Carrére, Stéphane Brizé, Jean Pierre e Luc Dardenne, Pedro Pinho, Fernando León de Aranoa, Leon Hirszman, dentre outros. Há também um expressivo número de publicações que dão acesso a várias filmografias sobre trabalho, algumas das quais contendo análises muito fecundas sobre os filmes abrangidos (Holzman, 2012; Ruy, 2015; Mélon & Nogueira, 2021; Helal & Santos, 2022; Carneiro et al., 2023; Gonzaléz & Rivaya, 2008). Fato é que tem se tornado uma prática pedagógica cada vez mais frequente refletir, em diferentes campos do saber (sociologia, administração, direito, psicologia, engenharia, entre outros), a partir da produção cinematográfica, múltiplas questões que gravitam em torno da categoria trabalho, o que confirma a potência formadora do cinema.
4. O uso de filmes no processo de formação
Enquanto docente do curso de graduação em Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, pude conduzir algumas experiências na utilização de filmes em disciplinas de Psicologia do trabalho que se mostraram bastante proveitosas. Ao todo foram quatro experiências, sendo que, em duas delas, os filmes discutidos abrangeram temáticas diversas e, nas outras duas, o foco foi o trabalho doméstico. A dinâmica dessas disciplinas era simples: nos dois encontros semanais previstos, utilizava-se o primeiro para exibir o filme programado e no encontro seguinte debatia-se o filme exibido apoiado por alguma indicação bibliográfica. Os alunos apreciaram bastante essas experiências, porque não apenas trazia para a universidade o ambiente do cinema, como também os filmes exibidos assim como a literatura indicada despertavam os alunos para a complexidade do trabalho, No caso das disciplinas que focalizaram o trabalho doméstico e que demandaram uma extensa pesquisa para compor o elenco de filmes, os alunos puderam entender melhor as razões pelas quais, no caso do Brasil, a trabalhadora doméstica foi a última categoria a ser regulamentada pelo Estado. As raízes de tal passivo histórico podem ser localizadas no período da escravidão, no qual o senhor de escravos era servido, sob todos os aspectos, inclusive sexual, de várias escravas domésticas. Essa prática escravista perdurou no tempo, atualizando-se a cada tempo histórico. Apesar dessa conquista legal, tardia, mas importante, que rendeu muitas lutas da categoria das trabalhadoras domésticas, ainda é persistente, na sociedade brasileira, o descaso com essa trabalhadora (mensalista ou diarista), ainda mais com as sucessivas reformas trabalhistas, que não cessam de negar direitos.
Por outro lado, sempre houve a busca, em parcelas da universidade, de fazer uso de filmes para transmitir os resultados de seus estudos, cujo acesso, sob a forma escrita, é sempre limitado. Uma experiência que vale a pena registrar e que foi liderada por um grupo de professores da então Universidade Federal da Paraíba, Campus de Campina Grande, no Mestrado em Economia rural, dos quais destacaria dois: José Roberto Novaes e João Otávio Paes de Barros Júnior (in memoriam). No intuito de democratizar o acesso a um estudo que realizaram no sertão da Paraíba, Brasil (região de muita aridez devido à escassez de chuvas) sobre as condições de vida e trabalho de trabalhadores rurais, resolveram produzir um documentário que se intitulou O que conto do sertão é isso2 . Além de ter conquistado vários prêmios, este documentário revelou para um público inegavelmente maior a dura realidade do trabalhador rural, cuja vida em nada difere daquela de um escravo, clamando por respostas sociais urgentes face a uma violência no trabalho tão flagrante e escandalosa.
José Roberto Novaes, aproveitando o legado dessa experiência, prossegue nessa trilha. Transfere-se, depois, para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desenvolve um projeto intitulado 'Educação através das imagens' que deu origem a uma expressiva filmografia (Nascimento et al., 2023; Novaes et al., 2019), com acesso gratuito no YouTube3 , sempre buscando, em seu trabalho de roteirização e direção, respaldar-se em pesquisas realizadas por centros de pesquisa e universidades do país, mirando sempre a democratização do acesso ao conhecimento, que se dá pela provocação de debates, de críticas e que, em muitos casos, desembocam em ações coletivas. Ao mesmo tempo, esse processo de devolução alimenta com novos elementos as pesquisas que sustentaram esses filmes.
Nessa mesma linha, não poderíamos deixar de mencionar o projeto de extensão liderado pelo Giovanni Alves, da Universidade Estadual Paulista - UNESP, intitulado Tela Crítica4 cujo propósito é utilizar a análise de filmes para discutir conteúdos temáticos da sociologia, buscando sempre ampliar a consciência crítica no tocante a sociedade global. No endereço do projeto encontram-se várias análises de filmes norteadas por uma metodologia própria (Alves, 2010). Pelo menos cinco publicações em formas de livro já resultaram desse projeto (Alves, 2006, 2007, 2010, 2014) que oferta, entre outras coisas, palestras, cursos diversos aos interessados, além de contar com uma revista para divulgar as análises críticas de filmes.
No âmbito das clínicas do trabalho, tivemos há pouco tempo a publicação de um e-book pelo Grupo de Pesquisa 'Modos de vida e trabalho' da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia/ANPEPP, do qual participei da organização e que procurou analisar alguns filmes sob a ótica de diferentes clínicas do trabalho (Araújo et al., 2020)5. Essa publicação concretizou um anseio antigo de introduzir novas abordagens à questão do trabalho a partir da arte, especialmente do cinema e talvez, futuramente, da literatura.
5. Algumas considerações finais
O uso do vídeo na análise do trabalho não é propriamente uma novidade, pois a ergonomia da atividade (Guérin et al., 2001), já há muitos anos, dimensionou sua importância ao propor o dispositivo metodológico da autoconfrontação, pelo qual um ou mais trabalhadores são filmados no exercício de sua atividade para posteriormente tornar-se objeto de debate, seja entre um trabalhador filmado e o pesquisador (no caso da autoconfrontação simples), seja entre trabalhadores filmados e o pesquisador (caso da autoconfrontação cruzada). Como bem define a expressão de Lacoste (1997), trata-se de "Filmar para fazer dizer", ou seja, filmar para provocar a fala, o debate sobre a atividade, a confrontação de visões, a exploração de saídas para os impases que a atividade apresenta. De acordo com Barata (2013, p. 493), "(...) através das autoconfrontações, trata-se de compreender o que guia a ação e o discurso dos operadores (...). O objetivo é fazer emergir progressivamente uma palavra coletiva que permita ultrapassar a soma dos pontos de vistas individuais". A clínica da atividade desenvolve e confere lugar de destaque a esse dispositivo metodológico (Fernández & Clot, 2007) na busca de uma melhor compreensão da atividade, permitindo ao trabalhador situar-se como observador de sua atividade e de explorar, tendo como interlocutores o pesquisador juntamente com um ou mais trabalhadores, as decisões tomadas no curso da ação, os modos de enfrentamento dos impasses enfrentados, com vistas a uma apropriação da atividade e uma ampliação do poder de agir sobre a situação. Portanto, o vídeo como meio de olhar à lupa a situação de trabalho já integra os referenciais metodológicos daqueles que praticam uma análise do trabalho interessada em fazer avançar as situações de trabalho.
Não podemos deixar de mencionar também as experiências com o uso da fotografia na análise do trabalho, a exemplo do que faz Osório (2010), produzindo análises tão interessantes quanto aquelas que emergem do vídeo.
Temos, portanto, no âmbito das clínicas do trabalho, um terreno favorável à valorização do cinema e da fotografia, sob diferentes formatos, seja para explorar o microcosmo da atividade, seja para entender os condicionantes sistêmicos que enquadram a situação de trabalho.
Por último, uma indicação importante advém do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, recentemente falecido, e que tinha como elemento importante de seu método de construção dos documentários o que ficou conhecido por 'conversas-entrevistas', que mantinha com os seus interlocutores (Peixoto et al., 2018) tornando-se, inclusive, uma referência de como conduzir entrevistas, tal a sua habilidade em fazê-las. Ele apostava no efeito câmera, ou seja, quando a câmera é ligada acontecem coisas inusitadas, verdades vem à tona, revelações são feitas, fornecendo, a partir de histórias individuais, pistas do funcionamento social. Penso que aí encontramos uma via que poderia ser explorada nos estudos do trabalho, com resultados que poderiam ser interessantes. Abre-se, portanto, na relação ente cinema e trabalho, aqui introduzida, um leque de possibilidades que poderão incidir na formação, na pesquisa, tornando o conhecimento produzido objeto de apropriação e transformação social.
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References
BIBLIOGRAFIA
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