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O presente artigo tem por objetivo abordar a relação fala-escrita e o problema da natureza da aquisição da escrita. Tal abordagem é orientada por uma perspectiva semiológico-enunciativa do vir a ser escrevente, perspectiva filiada à teoria da linguagem de Émile Benveniste, mais precisamente às suas teorizações sobre a semiologia e a enunciação. Em termos metodológicos, trata-se de um estudo teórico que é um recorte de um estudo teórico-analítico mais amplo, ancorado em dois corpora de escrita infantil, constituídos em sessões de coleta naturalísticas e longitudinais, realizadas em ambiente doméstico, ao longo de dois anos e seis meses, com duas crianças: uma menina, acompanhada antes do ciclo da alfabetização, e um menino, acompanhado durante o ciclo da alfabetização. Os resultados obtidos permitem sustentar três princípios: (1) a aquisição da escrita impõe duas grandes abstrações linguísticas à criança, uma abstração discursiva e uma abstração sistêmica; (2) a aquisição da escrita supõe dois tipos de conversões linguísticas pela criança, as conversões discurso-sistema/sistema-discurso e as conversões fala-escrita/escrita-fala; (3) a aquisição da escrita é um ato de instauração, na língua, da criança enquanto escrevente e leitora e, na criança, da língua enquanto sistema de signos e discurso escrito que remodela semiologicamente esse sistema.