Résumé : Le present article vise å articuler la pensée éthico-esthétique de Gilles Deleme avec l'œuvre de l'écrivain brésilien, Raduan Nassar. Il s'agit plus spécifiquement de penser la notion deleuzienne de zone d'indétermination dans le conte O ventre seco.
Mots-clés : Gilles Deleuze, zone d'indétermination, Raduan Nassar.
Resumo : O presente artigo pretende articular o pensamento ético-estético de Gilles Deleuze com a obra do escritor brasileiro Raduan Nassar. Trata-se, mais específicamente, de pensar a nocāo deleuziana de zona indeterminacāo no conto O ventre seco.
Palavras-chave : Gilles Deleuze, zona de indeterminacāo, Raduan Nassar.
Abstract : The present article seeks to articulate the aesthetic and ethical thought of Gilles Deleuze and the work of Brazilian writer Raduan Nassar. More specifically, it is an effort to reflect upon Deleuze's notion of zone of indetermination in the short story O ventre seco.
Key-words : Gilles Deleuze, zone of indetermination, Raduan Nassar.
Gilles Deleuze é um dos pensadores mais instigantes do século XX, e sua obra continua a produzir, também no Brasil, desdobras intensivas para o pensamento ético-estético. Isto porque a estética de Deleuze está intrínsecamente ligada aquilo que ele entende como resistencia. Arte como criaçao de novos modos de vida que resistem, que insistem. E esta resistencia se dá no plano da realidade, atinge o leitor, o escritor, o sistema, ao possibilitar o devir.
A partir deste entendimiento estético, Deleuze estabelece uma crítica filosófica da representaçao, uma crítica estética da figuraçao, e ainda uma crítica conceitual da forma. Seu pensamento estético se afasta da teoria do belo ou do julgamento de gosto, por ser centrada sobre o sujeito da experiencia, e também de uma teoria da obra artística pensada via hermeneutica ou da história das formas. A estética deleuziana consiste finalmente, como explica Arnaud Bouaniche "em uma concepçao material do ato de criaçao e de seus efeitos concebidos como meios de exploraçao de forças ou de intensidades, como utensilios de experimentaçao de processos de transformaçao reais, pelos quais, através da obra, somos tomados, assim como o artista." (Bouaniche, 2007: 200)
Em 1981 Deleuze publica Francis Bacon: lógica das sensaçoes, logo depois de seu livro Lógica dos sentidos. Aparece ali a concepçao de um fazer deslizar o sentido para a sensaçao, sensaçao sem relaçao com o subjetivismo nem com a espontaneidade. A sensaçao seria aquilo que afeta diretamente o sistema nervoso sem passar por uma lógica cerebral. Deleuze explica que "ligada ao corpo, a sensaçao deixa de ser representativa, e se torna real." (Deleuze, 2007: 43) Esse corpo que é atingido, nao é mais um corpo sistematizado, orgánico, mas um corpo sem órgaos (conceito apropriado de Artaud), desestruturado de suas funçoes e organizaçoes hierárquicas pelas forças intensivas que as sensaçoes irradiam.
A arte seria assim capaz de produzir um bloco de sensaçoes, enquanto composiçao de afectos e perceptos, que propoe a nossa sensibilidade algo novo, e é essa novidade que nos conduz a um bloco de devir. O devir é sempre minoritário, algo que quer sempre ser menor, que nao visa uma evoluçao, uma evoluçao para alcançar o poder, se apresentando enquanto questionamento incessante.
A arte para Deleuze teria tres objetivos principais: arrancar alguma coisa do caos (o fora, se arriscar), lutar contra a opiniao, o senso comum, o cliche que muitas vezes se dá pela midiatizaçâo, e ainda, promover um povo por vir. Se estes tres objetivos estao inter-relacionados, nos ateremos aqui mais precisamente na relaçao da arte como luta contra a opiniao.
Como criar entao algo novo e comum, que entretanto nao nos seja imposto enquanto um sistema maior de opiniao e esquemas rígidos de pensar e de sentir? A arte teria como objetivo tentar desfazer o cliche, o que nos é imposto pelo sistema, que cria individuos acabados, a partir da possibilidade de abertura a novos estados afetivos, a conjuntos flexíveis, a zonas de indistincao.
A arte viveria assim, nestas zonas de indeterminaçao, de indiferenciaçâo, que visam desfazer as clivagens, os jogos de oposiçao (dialética) próprios do senso comum: homem/mulher, bem/mal. Um dos efeitos e funçoes da criaçao artística seria entao, nos fazer sentir o mundo, as coisas e os seres de formas inéditas que Deleuze descreve como sendo os devires mulher, criança, animal, vegetal, que tem em comum minar as forças majoritárias.
Em 1993 Deleuze publica Crítica e clínica onde trabalha mais específicamente com a literatura e a escrita. Se na lógica das sensaçoes seu interesse se localizou na pintura de Bacon, há neste livro sobre a literatura uma grande convergencia no que concerne a seu pensamento estético, ou seja, principalmente, a questao do devir.
O título desdobra a crítica como criaçao e nao como julgamento, ou como sinaliza Deleuze, "fazer existir e nao julgar" (Deleuze, 1997: 122), e a clínica enquanto diagnóstico que faz o escritor da doença do mundo, uma sintomatologia que visa atingir um ponto neutro, um ponto limite pertencente tanto a arte quanto a medicina.
O livro para Deleuze se apresenta como um dispositivo, como "puro meio intensivo onde todas as formas sao desfeitas em proveito de esboços, de movimentos, de fronteiras" (Bouaniche, 2007: 234). Se a tarefa da literatura é deixar vazar os devires, é no trabalho com a língua que isto é alcançado. Deleuze toma como epígrafe deste livro a frase de Proust "Les beaux livres sont écrits dans une sorte de langue étrangěre". Ou seja, numa espécie de língua estrangeira, cavada na língua oficial, nao bastando escrever em uma língua estrangeira, mas fazer a língua oficial, a do sistema, a do senso comum, sofrer singulariaçöes, criar uma novidade estranha, para além dos jogos de oposiçao. Para Deleuze, este trabalho com a língua, possibilita fabricar um vazamento no sistema através da criaçao de uma zona de indeterminaçao, pelos deslizamentos que sao criados pela escrita para quebrar a sintaxe institucionalizada.
Neste livro, Deleuze toma como ponto central de sua discussao o Bartleby de Melville. O escrivao de Wall Street produziria uma língua estrangeira em sua própria língua, traçando uma linha de fuga que desestabiliza o sistema ao repetir a fórmula - preferiría nåo. Através desta fórmula, Deleuze entende que ele recusa de uma só vez o preferível e o nao preferido, em proveito de um puro nada de vontade, de uma passividade paciente. Esta lógica da preferencia a que Deleuze alude, como explica Paulo Oneto "abre um espaço de indeterminaçao que remete a problemática-chave do romance: a problemática da singularidade como aquilo que nao é da ordem filosófica do particular nem do geral, nem da ordem sociológica do privado e do público, mas que insiste ou resiste para além de todas essas bipartiçoes ou categorizaçöes."(Oneto, 2007)
Se Melville, publicou em 1853 seu livro Bartebly, Raduan Nassar, escritor brasileiro, filho de imigrantes libaneses, começa a escrever por volta dos anos 60, só publicando pela primeira vez em 1975, mas logo em seguida, a partir de 1978, pára de escrever. Nassar poderia fazer parte da lista de escritores que o espanhol Enrique Vila-Matas elenca como sendo companheiros de Bartleby, em seu romance de 2002, Bartbley e companhia.
Mas para preferir nåo mais e ingressar na companhia de Bartebly é preciso trabalhar para atingir uma zona de indeterminaçao, de indiferenciaçao, de uma pura potencia que oscila, no caso dos escritores, entre escrever ou nao mais escrever. O que é diferente de nao mais escrever por uma questao de impossibilidade, ou por nunca se ter escrito. Seria preciso escrever - potencia em ato - para, entao, poder nao mais escrever. Como observa o filósofo Avicena, "uma potencia perfeita e acabada é aquela de um escriba dominando perfeitamente a arte de escrever no momento em que ele nao mais escreve". (apud Agamben, 195: 19) Alcançar a pura potencia equivaleria ao exercício de liberdade daquele que pode querer nao mais querer.
Raduan transporta tanto para seu personagem escritor quanto para sua escrita a possibilidade de abertura a uma zona de indiferenciaçao, espaço que possibilita os devires. Em 1970, escreve o conto O ventre seco, especie embriao da novela Um copo de cólera, sua última publicaçao. Com efeito, seus textos fabricam uma circularidade que cria nao só uma relaçao intertextual interna, mas também externa, a partir da idéia de literatura como re-escritura infinita. Seu título, O ventre seco, é quase um oximoro, uma conjunçao de contrarios, uma potencia que se imobiliza, que se cala, sugerindo a idéia de abstinencia.
O conto se apresenta como uma carta-manifesto de uma escritura ainda e sempre por vir. Escritura que morde, provoca, rompe, incomoda, que inverte as posiçoes dominantes: tal seria a proposiçao. Uma escritura feminina, naquilo que a escritura feminina tem de "minoritario". (Deleuze, 1997: 12) Do homem diante da mulher, para inventar um outro homem que, abdicando do ato, se tornaría pura potencia. Assim o remetente faz voto de castidade, voto de ignorancia, voto de pobreza. Escreve no limite, na sua fadiga extrema: « estou cansado, estou muito cansado Paula, estou muito, mas muito, mas muito cansado ». (Nassar, 1998: 67) O narrador nada quer possuir: « nao quero te governar », nada esperar, nao julgar, nada concluir.
O narrador é um quarentao que se diz "obscurantista e conservador" e que enumera metodicamente, item por item, - paródia formal do método cartesiano -, seus duros argumentos para romper com sua namorada Paula, "que além de liberada e praticada, é também versada nas ciencias ocultas dos tempos modernos." A mulher é colocada, contra o senso comum, no pólo da razao, da modernizaçao dos costumes, guardando contudo uma relaçao de ambigüidade com a questao afetiva, enquanto o homem "coraçao duro, homem maduro" é alguém incapaz de negociar. Mas, num jogo de claro/escuro (mulher/homem ou vice-versa), o narrador revela uma sombra - sua calada mae - espaço de indiferenciaçâo, numa parafrase direta a Descartes, ás "idéias claras e distintas a respeito de muitas outras coisas" da mulher.
A este jogo de repulsa e atraçao entre os pólos que se invertem continuamente, é imprescindível acrescentar a leitura feita por Marilena Chauí a propósito de Um copo de cólera:
Arrastado pela rigorosa lógica da cólera-clarividente e cega - ao leitor nao é dado escolher entre os personagens: ou capta a ambigüidade do macho narcisista capaz de discurso libertario e a femea emancipada capaz de medo e ternura, ou nao penetra na medula desse texto, perdendo seu 'miolo propulsor'. (apud Chalhub, 1997: 128)
A esfera das sensaçoes e afecçoes é o "miolo propulsor", a medula dos textos nassarianos, um ponto de pura potencia, onde a vontade escapa á razao, quando o cérebro, como diz Nassar, vem ocupar diretamente o corpo: o útero, o ventre.
No conto, Descartes é citado sem aspas e parafraseado nos itens 6, 7, 8 e 15, conforme o estilo próprio das construçoes textuais de Nassar. O narrador atribui a mulher vários conceitos desenvolvidos pelo filósofo em seu Discurso do método e nas Meditaçoes, tratados onde Descartes tenta acabar com a dúvida cética. No item 6, ele acusa a mulher de banalizar o afeto ao equipará-lo a razao cartesiana, pois, segundo ele, Paula o teria levado a supor que "o amor em nossos dias, a exemplo do bom senso em outros tempos, é a coisa mais bem dividida deste mundo". (Nassar, 1998, 67)
O item 8 da carta vai neste sentido, ao dizer que "a razao é mais humilde que certos racionalistas", terminando numa alusao a Descartes: "voce pode continuar carreando areia, pedra e tantas barras de ferro, Paula, embora qualquer criança também saiba que é sobre um chao movediço que voce há de erguer teu edificio." (Nassar, 1998, 68)
O ventre seco foi escrito durante a época da ditadura militar no Brasil, época de uma literatura engajada, de contracultura, contra a lei - é proibido proibir -, posiçao que parece finalmente reforçar a lei, o bem e o mal, a mulher e o homem; época de uma dialética rigorosa, deixando entreaberta a questao: é possível uma outra saida? Nem isto nem aquilo, mas talvez, esta é a fórmula cética de Pirro que escapa a uma síntese negativa. A fórmula pirroniana mais importante é « nao mais» [ou mállón], que permite dizer que uma coisa nao é "mais isto" do que aquilo. Ela é análoga ao I would prefer not to de Bartleby de Melville, fórmula que, segundo Deleuze, abre uma zona de indicernibilidade, de indiferencia&ecedil;ao, entre o sim e o nao, entre o preferível e o nao preferível, "longe da via das razoes". (Deleuze, 1997: 94)
A receita de Pirro se resume em um termo: indiferença. O narrador é o "grande indiferente". Aquele que é indiferente em relaçao as obrigaçoes, aos valores, as promessas do mundo, aquele que recusa o sectarismo, o fanatismo: « voce deixou escapar a linha mestra que daria caráter ao teu rabisco. Estou falando de um risco tosco feito uma corda e que, embora invisível, é facilmente apreensível pelo lápis de alguns raros retratistas; estou falando da cicatriz sempre presente como estigma no rosto dos grandes indiferentes ». (Nassar, 1998, 68) Esta indiferença, suspensao do julgamento, é presente em sua argumentaçao através de uma lógica sem razao, é a experiencia de uma possibilidade ou de uma potencia purificada de toda razao. Uma indiferença que é proveniente da naodiferença das coisas, as quais escapam a uma dualidade ou a uma igualdade.
O escritor da carta sai de um jogo de oposiçao pela abstinencia: "nao tenho nada a impor [...] Já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silencio. », silencio aqui como liberdade de nao dizer, como pura potencia, que se aproxima da epoché cética.
A revolta caricatural daquele que pretende se fechar em sua torre de marfim, indiferente ao que se produz no mundo, exilado em sua casa, característico do personagem-narrador de Um ventre seco, re-apropria a carga de uma indiferença trágica para questionar os limites da açao humana: "Pouco se me dá, Paula, se mudam a mao do tránsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, [...]". (Nassar, 1998: 66)
Em um outro conto de Nassar, Aí pelas tres da tarde (1972), a indiferença contra as convençoes sociais pretende também atingir um estágio de construçao de uma nova percepçao do mundo, daí o conselho do narrador deste conto: "Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé [já nao importa em que apoio], goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo." (Nassar, 1998: 73) Esta proposta de retorno ao ventre se repete em Um copo de cólera, quando Ela assume a narrativa e o observa como se fosse um grande feto: " [...] deitado de lado, a cabeça quase tocando os joelhos recolhidos, ele dormia, nao era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaría aos seus caprichos [...]. " (Nassar, 1978: 81)
E, como vimos, no conto Um ventre seco, na oscilaçao entre luz e escuridao, surge a sombra do ventre seco da mae. Exilio radical, tonel de Diógenes, retorno a origem, ao estado de natureza dos cínicos, a uma zona de indiferencia&ecedil;ao/ indeterminaçao?
Atingir o miolo propulsor
Se como entende Deleuze, a arte é o que resiste, como entao resistir? Como criar para deixar deslizar os devires?
A comunicaçao midiática é tudo menos o espaço comum, é antes o espectro do comum, de uma linguagem de clichés e despontecializada. Talvez a força da literatura esteja nao naquilo que a liga a uma negatividade do indizível, mas exatamente na sua poténcia de comunicar, de criar linhas e espaços comuns diferentes da razao midiática, nem que para isto tenha-se, como sugere Deleuze, que "criar vacúolos de nao-comunicacao, interruptores, para escapar ao controle" (Deleuze, 1992: 217), neste sentido funciona o siléncio performático nassariano.
A força argumentativa, a reversao continua das polaridades, o jogo performático presente nos textos nassarianos criam uma intensidade perigosa que oscila, e aqui cito Deleuze, entre "vida e morte, loucura e razao, e essa linha nos arrasta" (Deleuze, 1992: 129), mas essa intensidade apaixonada é dobrada no espaço do siléncio do ventre, de um exílio interior, de uma zona de indiferenciaçao, criada justamente pelo jogo de reversao contínuo.
Assim se apresenta o jogo livre da linguagem como algo novo e comum a ser conquistado, e nao restaurado. A linguagem da infancia, como sugere Giorgio Agamben (Agamben, 2000: 14), linguagem do estado fetal, da pura poténcia, é a linguagem do solo comum do qual o poder tenta nos privar e que necessita ser criada, conquistada. Isto para manter a alternativa contingencial entre o poder e o poder nao ser, para atingir o "miolo propulsor", um ventre seco.
Referencias bibliográficas
Agamben, G. 1995. Bartleby ou la création. Paris: Circe.
Agamben, G. 2000. Enfance et histoire. Paris: Payot.
Bouaniche, A. 2007. Gilles Deleuze, une introduction. Paris : Pocket.
Chalhub, S. 1997. Semiótica dos afetos. Sao Paulo: Hacker Editores.
Deleuze, G. 1992. Conversaçöes. Trad. Peter Pál Perbart. Sao Paulo: Editora 34.
Deleuze, G. 1997. Crítica e clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. Sao Paulo: Editora 34.
Deleuze, G. 2007. Francis Bacon: lógica da sensaçao. Trad. Roberto Machado. Sao Paulo: Editora 34.
Nassar, R. , 1998. Menina a caminho. Sao Paulo: Companhia das Letras.
Nassar, R. 1978. Um copo de cólera. Sao Paulo: Livraria Cultura Editora.
Oneto, P. 2007. "Literatura e filosofia: o caso Bartleby revisitado". Dubito ergo sum. http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/simp28.htm Último acesso em 20 de setembro de 2009.
You have requested "on-the-fly" machine translation of selected content from our databases. This functionality is provided solely for your convenience and is in no way intended to replace human translation. Show full disclaimer
Neither ProQuest nor its licensors make any representations or warranties with respect to the translations. The translations are automatically generated "AS IS" and "AS AVAILABLE" and are not retained in our systems. PROQUEST AND ITS LICENSORS SPECIFICALLY DISCLAIM ANY AND ALL EXPRESS OR IMPLIED WARRANTIES, INCLUDING WITHOUT LIMITATION, ANY WARRANTIES FOR AVAILABILITY, ACCURACY, TIMELINESS, COMPLETENESS, NON-INFRINGMENT, MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR A PARTICULAR PURPOSE. Your use of the translations is subject to all use restrictions contained in your Electronic Products License Agreement and by using the translation functionality you agree to forgo any and all claims against ProQuest or its licensors for your use of the translation functionality and any output derived there from. Hide full disclaimer
© 2010. This work is published under https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/fr/ (the“License”). Notwithstanding the ProQuest Terms and Conditions, you may use this content in accordance with the terms of the License.
Abstract
Le present article vise å articuler la pensée éthico-esthétique de Gilles Deleme avec l'œuvre de l'écrivain brésilien, Raduan Nassar. Il s'agit plus spécifiquement de penser la notion deleuzienne de zone d'indétermination dans le conte O ventre seco.





