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A mal chamada […] “perspectiva” […] de gênero, é, na verdade, uma ideologia. Provavelmente a ideologia mais radical da história, posto que - ao impor-se -, destruiria o ser humano em seu núcleo mais íntimo e, simultaneamente, acabaria com a sociedade (Scala, 2010: 7)1.
Com esse parágrafo, Jorge Scala começa seu livro La ideología del género. O el género como herramienta de poder. Segundo o autor, a “ideologia de gênero” é um instrumento político-discursivo de alienação com dimensões globais que busca estabelecer um modelo totalitário com a finalidade de “impor uma nova antropologia” a provocar a alteração das pautas morais e desembocar na destruição da sociedade. O livro, que tem por finalidade “despertar consciências adormecidas, e ajudá-las a trabalhar por um mundo melhor” (Scala, 2010: 8), provocou grande impacto, não apenas na Argentina, onde foi publicado pela primeira vez, mas também em outros países (tendo sido também traduzido para o português).
O combate à chamada “ideologia de gênero” cada vez mais ganha terreno em escala global, particularmente na Europa (Kóvatz & Poim, 2015) e na América Latina, associando-se a diversas discussões que giram em torno da saúde reprodutiva das mulheres, da educação sexual ou do reconhecimento de identidades não heterossexuais, entre outras questões. Se, historicamente, os setores religiosos se opuseram ao avanço dos direitos sexuais e reprodutivos, o combate à “ideologia de gênero” é mais recente e, em diversos países europeus, se começa a alardear seus supostos perigos depois de 2008 (Kóvatz & Poim, 2015).
Na América Latina, o livro de Scala teve influência importante, sendo o combate contra o que denomina como “ideologia” o que justificou manifestações que vão desde movimentos a favor da família tradicional até manifestações contra políticas de governos de esquerda. Iniciada na Argentina e no Brasil, a disseminação da gramática político-moral da noção de ideologia de gênero já alcançou, em 2016, países como o México e a Colômbia, contribuindo, no caso do primeiro para a luta contra a aprovação do “matrimonio sin discriminación” e, no último, para a vitória do não à paz no plebiscito que visava referendar o acordo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)2.
As origens das ideias que sustentam a existência de uma “ideologia de gênero” podem encontrar-se no seio da Igreja Católica, mais especificamente...





